Tesouro americano dispara: vale trocar a Selic pelos juros dos EUA?
A forte alta dos rendimentos dos títulos públicos dos Estados Unidos recolocou a renda fixa global no centro do radar dos investidores, inclusive dos brasileiros. Os Treasuries, como são chamados os títulos emitidos pelo Tesouro americano, chegaram a pagar mais de 4,5% ao ano nos papéis de 10 anos e se aproximaram de 5% nos títulos de 30 anos, níveis que não eram vistos há meses e, em alguns casos, há mais de uma década, num movimento que não ficou restrito aos EUA. Os juros de títulos públicos do Japão, Alemanha e Reino Unido também dispararam recentemente.
O pano de fundo dessa alta envolve uma combinação de inflação persistente, preços elevados do petróleo em meio à escalada do conflito entre Irã, Israel e Estados Unidos e a percepção de que bancos centrais terão dificuldade para cortar juros no curto prazo.
Nesta segunda-feira, 18, o rendimento do Treasury de 10 anos fechou praticamente estável em 4,59%, depois de ter atingido mais cedo o maior nível em 15 meses. O título de 30 anos ficou em 5,12%. No Japão, o rendimento do título soberano de 30 anos atingiu o maior nível da história da série iniciada em 1999.
O que são os títulos do governo norte-americano
Os Treasuries são títulos de renda fixa emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos e considerados um dos investimentos mais seguros do mundo. Eles funcionam de forma semelhante ao Tesouro Direto brasileiro. O investidor empresta dinheiro ao governo americano e recebe uma remuneração em troca, seja por meio de juros periódicos, seja pela valorização do papel até o vencimento.
Para o investidor local, porém, a diferença entre um papel do tesouro brasileiro para o título americano é que, além da renda fixa, o investidor também fica exposto ao dólar, o que pode funcionar como proteção cambial em momentos de estresse no Brasil.
O avanço recente dos yields tem impacto muito além da renda fixa. Os títulos americanos servem de referência para taxas de financiamento e crédito em todo o mundo e começam a pressionar também o mercado acionário.
Segundo análise da Bloomberg, o movimento já ameaça a euforia em torno das ações de inteligência artificial em Wall Street. Isso porque juros mais altos aumentam o custo de capital e reduzem o valor presente dos lucros futuros, afetando principalmente empresas de crescimento, como big techs e companhias ligadas à IA.
Felipe Castello Branco, sócio e private banker da Blackbird Investimentos, afirma que a alta dos juros americanos aumenta a exigência de retorno para ativos de risco. "Isso ocorre porque o aumento da taxa livre de risco eleva o custo de capital e reduz o valor presente dos fluxos de caixa futuros, afetando principalmente empresas com maior duration, como as big techs e companhias ligadas à inteligência artificial", afirma.
Leonardo Netto, private banker da Guardian Capital, observa, porém, que movimentos de disparada da taxa longa americana "raramente acontecem por um motivo bom". "Os juros mais altos tendem a reduzir a atratividade da renda variável por dois motivos: passam a oferecer retorno mais interessante com menor risco e encarecem o custo de capital das empresas", diz.
Cresce o interesse dos brasileiros pelos Treasuries
É nesse ambiente que cresce o interesse do investidor brasileiro pelos Treasuries. Segundo Rodrigo Paiva, head de renda fixa da Avenue, desde o ano passado nota-se um aumento consistente da procura por titulos do governo norte-americano.
"Os títulos passaram a oferecer uma renda mais atrativa em dólar, o que naturalmente chama a atenção do investidor. Além disso, a volatilidade na curva abriu espaço para estratégias mais ativas", afirma. Segundo o especialista, o investidor brasileiro passou a enxergar os Treasuries não apenas como proteção, mas como uma classe relevante dentro da alocação global.
Na Nomad, corretora também focada em investimentos nos EUA, o movimento também ganhou força. Embora a corretora não abra os números, Bruno Shahini, especialista em investimentos da plataforma, afirma que os títulos americanos já representam o título com maior volume negociado na área de renda fixa internacional da empresa.
"Vemos uma tendência do investidor em utilizar Treasuries seja para exposição às taxas de juros americanas somadas à variação do dólar, seja para reserva de caixa visando uma alocação futura", diz.
Como o brasileiro pode investir nos treasuries?
Mas, afinal, como um brasileiro consegue investir diretamente em títulos do Tesouro americano? Na prática, o caminho começa pela abertura de conta em uma plataforma com acesso ao mercado americano. Depois disso, o investidor realiza uma remessa internacional, convertendo reais em dólares, e passa a poder comprar os títulos diretamente.
Ao contrário do Tesouro Direto brasileiro, porém, o mercado americano ainda exige um valor mínimo mais elevado. Para investidor no Tesouro Reserva, recém-lançado, por exemplo, o investidor precisa dispor de, no mínimo, R$ 1.
Já nos treasuries, tanto a Avenue quanto Nomad afirmam que, hoje, o investimento direto costuma exigir cerca de US$ 1 mil por título, o que equivale a R$ 4.998 pela cotação desta segunda-feira, 18, com o dólar a R$ 4,998.
"Ainda não existe mercado fracionado amplamente disponível no Brasil para Treasuries. Então, na prática, o mínimo gira em torno de US$ 1.000", afirma Shahini.
Paiva destaca que o mercado de bonds historicamente sempre foi mais restrito ao investidor institucional, mas que isso mudou nos últimos anos. "Hoje já é possível investir em Tesouro americano a partir de US$ 1.000, com incrementos adicionais de US$ 100", afirma.
E além do valor do título, há custos envolvidos, de acordo com as corretoras. O principal deles é o câmbio. O investidor precisa pagar o spread na conversão de reais para dólares e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre a remessa internacional — atualmente em 1,1% para envio com finalidade de investimento. Também pode haver spread de negociação e markup no preço dos títulos.
Por outro lado, há vantagens tributárias relevantes. Os especialistas destacam que os juros pagos pelos Treasuries normalmente não sofrem retenção de imposto nos Estados Unidos para investidores estrangeiros não residentes. A tributação ocorre no Brasil, dentro das regras aplicáveis a investimentos no exterior.
Outro ponto destacado pelos especialistas é a liquidez. O mercado de Treasuries é considerado o mais líquido do mundo, permitindo ao investidor vender o título antes do vencimento caso queira sair da posição, embora ele siga sujeito à marcação a mercado, como ocorre com os títulos do tesouro brasileiro. A recomendação , porém, não é enxergar os Treasuries como substitutos da renda fixa brasileira.
Com a Selic em alta, vale buscar os rendimentos dos Treasuries?
Com a Selic ainda em patamar elevado, em 14,50% ao ano, e o dólar acumulando queda de 8,94% no ano, a dúvida é se realmente vale a pena buscar retornos de 4% a 5% ao ano nos EUA quando o investidor encontra aplicações locais pagando acima de dois dígitos.
A resposta dos especialistas converge para um ponto: os Treasuries fazem mais sentido como instrumento de diversificação e proteção cambial do que como concorrentes diretos da renda fixa brasileira.
"Faz sentido, mas não como substituição — e sim como complemento", afirma Rodrigo Paiva, da Avenue. "O Brasil ainda oferece juros elevados, mas o investidor brasileiro costuma estar concentrado demais no próprio país".
Bruno Shahini, da Nomad, segue a mesma linha. "O investidor não deve enxergar a renda fixa em dólar como substituto da renda fixa local, mas sim como complemento", afirma. Segundo Shahini, o dólar tende a se valorizar em momentos de crise global, funcionando como hedge natural para a carteira.
Felipe Castello Branco, da Blackbird Investimentos, ressalta que o diferencial de juros não pode ser analisado isoladamente. "No curto prazo, a volatilidade do câmbio pode impactar significativamente o retorno em reais", afirma. O sócio e private banker considera os Treasuries importantes como instrumento de diversificação e proteção em moeda forte.
Leonardo Netto, da Guardian Capital, cita o próprio histórico recente do dólar para ilustrar essa dinâmica. Segundo o private banker, em 2024 a moeda americana chegou a subir mais de 20% frente ao real, movimento capaz de compensar a diferença de juros entre Brasil e EUA. "Movimentos do dólar podem facilmente superar esse rendimento do título", afirma.
ETFs dos Treasuries
Além do investimento direto, o investidor brasileiro também consegue acessar títulos do Tesouro americano por meio de ETFs (Exchange Traded Funds), ou fundos de índice, negociados na B3. Esses fundos buscam replicar índices internacionais de renda fixa e permitem exposição aos juros americanos sem necessidade de abrir conta no exterior ou fazer remessa de câmbio.
Segundo a B3, os ETFs internacionais de renda fixa oferecem exposição a títulos públicos estrangeiros com negociação em reais e liquidação local, além de facilitar estratégias de diversificação global.
Entre os ETFs citados pelos especialistas consultados pela reportagem estão FIXX11, T10R11, TREA11, USDB11 e IB5M11. Alguns deles investem em Treasuries de curtíssimo prazo, enquanto outros acompanham títulos mais longos.
A principal diferença está na sensibilidade às oscilações dos juros. ETFs expostos a títulos longos sofreram mais com a recente abertura da curva americana, enquanto fundos de duration curta mostraram maior resiliência.
"A escolha entre investir diretamente em Treasuries no exterior ou via ETFs listados na B3 depende principalmente de custos, conveniência e do objetivo do investidor", diz o sócio e private banker da Blackbird Investimentos.
"O investimento direto tende a ser mais adequado para quem busca estruturar uma carteira internacional de forma mais robusta, oferecendo maior controle sobre prazos, duration e composição da carteira, além de potencial eficiência de custos no longo prazo, apesar das despesas de remessa e manutenção da estrutura no exterior", afirma.
"Por outro lado, os ETFs negociados na B3 oferecem maior simplicidade operacional e acessibilidade, sendo uma alternativa eficiente para investidores com menor volume ou que ainda não possuem conta internacional", complementa.
Já Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, afirma que os ETFs acabam sendo uma porta de entrada mais simples para o investidor local, embora sujeitos à volatilidade dos juros globais. "Os ETFs mais curtos sofreram menos, enquanto os de duration longa enfrentaram volatilidade significativa nos últimos anos", afirma.
Na avaliação dos especialistas, a exposição internacional em renda fixa tende a ganhar espaço gradualmente nas carteiras dos brasileiros, especialmente em um ambiente de juros globais mais elevados. Ainda assim, o consenso é que o movimento deve ocorrer de forma complementar, e não como troca direta da renda fixa brasileira.
"Em termos de alocação, não existe uma regra fixa, mas muitos gestores trabalham com algo entre 5% e 15% de exposição internacional como ponto de partida, enquanto patrimônios maiores frequentemente ampliam essa participação para níveis entre 20% e 30%, dependendo do cenário macroeconômico e do perfil do investidor", conclui Praça.
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