'The Boys': é possível a ciência criar super-heróis como Homelander?

Por Tamires Vitorio 30 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'The Boys': é possível a ciência criar super-heróis como Homelander?

O Homelander, de The Boys, voa em velocidade supersônica, dispara raios de calor pelos olhos, resiste a tiros e levanta estruturas de toneladas.

Na série, esses poderes são resultado de décadas de engenharia genética corporativa. Fora da ficção, a ciência permite separar o que já tem base biológica do que esbarra em limites físicos.

O resultado é desigual, já que parte das habilidades do personagem se aproxima de pesquisas reais em genética, biologia molecular e neurotecnologia. Outra parte depende de regras que o universo conhecido não permite quebrar.

Força sobre-humana já foi documentada

A força extrema é um dos poderes mais plausíveis do Homelander.

Isso porque, em 2004, pesquisadores da Charité, Universidade Médica de Berlim, publicaram no New England Journal of Medicine o caso de uma criança alemã com mutação no gene MSTN.

Esse gene controla a produção de miostatina, proteína que limita o crescimento muscular. Com o gene desativado, os músculos cresceram acima do padrão.

Aos 4 anos e meio, o menino conseguia sustentar dois halteres de 3 quilos com os braços estendidos horizontalmente e familiares também apresentavam força fora do comum.

O fenômeno não é exclusivo de humanos. A miostatina foi identificada em 1997 por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, primeiro em camundongos que tinham a mutação e que, por isso, desenvolveram entre 200% e 300% a mais de massa muscular em relação aos animais normais, segundo o próprio estudo de McPherron e Lee, publicado na PNAS naquele ano.

Depois, a mesma lógica foi observada em bovinos da raça Azul Belga, conhecidos pelo aspecto hipermusculoso.

Nessa raça, a mutação do gene da miostatina causa um aumento médio de 20% a 25% na massa muscular, consideravelmente menor do que o observado nos camundongos, o que os pesquisadores atribuem ao fato de o gado Belga já ter sido selecionado por gerações para alta musculatura, aproximando-se de um limite biológico natural.

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O mecanismo, identificado pelos pesquisadores Grobet et al. e McPherron e Lee em estudos paralelos de 1997, é uma deleção de 11 nucleotídeos no terceiro éxon do gene, que elimina praticamente toda a região ativa da proteína.

O padrão se repete em outra espécie com implicações diretas para a performance atlética. Em whippets — raça canina usada em corridas —, pesquisadores identificaram em 2007 uma mutação de dois pares de base no mesmo gene MSTN.

Cães com uma única cópia da mutação são, em média, mais musculosos que os demais e significativamente mais rápidos em provas de velocidade, resultado que marcou a primeira vez que uma mutação no gene da miostatina foi quantitativamente associada a desempenho atlético.

Cães com duas cópias da mutação, chamados de "bully whippets", apresentam hipermusculatura extrema, mas perdem agilidade e sofrem cãibras musculares.

Um lembrete de que mais miostatina desativada não equivale necessariamente a melhor desempenho funcional.

Radiação é outro poder com base real

A resistência à radiação também tem paralelo científico.

Organismos como os tardígrados conseguem sobreviver a doses de radiação letais para outros seres vivos. Uma das explicações está na proteína Dsup, capaz de proteger o DNA contra danos causados por radiação ionizante.

Experimentos com células humanas já demonstraram aumento de resistência após a inserção desse gene.

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A Nasa pesquisa esse tipo de proteção por um motivo prático: astronautas em missões além da órbita baixa da Terra ficam expostos à radiação cósmica, para a qual o corpo humano não evoluiu.

A agência avalia o uso de CRISPR para inserir genes de radioproteção no genoma humano. Em tese, seria uma forma de criar parte da resistência exibida pelo Homelander.

Velocidade e sentidos ainda têm limites

A velocidade elevada tem base parcial na genética.

O gene ACTN3, presente em variantes específicas em muitos atletas de elite de modalidades explosivas, está associado à produção rápida de força nas fibras musculares.

Estudos de genômica do exercício publicados no Frontiers in Physiology em 2024 investigam como múltiplos genes influenciam a performance física.

A ideia de ampliar esse conjunto por engenharia genética é coerente do ponto de vista técnico, mas o problema é a escala.

Nenhuma combinação conhecida produziria velocidade supersônica em um ser humano.

O mesmo vale para sentidos aprimorados. Interfaces neurais e próteses sensoriais já conseguem ampliar capacidades humanas em laboratório, incluindo visão e audição em contextos controlados.

Essas tecnologias podem melhorar funções específicas. Não permitem enxergar ou ouvir a quilômetros de distância como o personagem.

Voo esbarra na física

O voo é um dos poderes menos plausíveis, pelo menos seguindo as leis da física.

A Lei do Cubo-Quadrado, formalizada por Galileu Galilei em 1638, estabelece que, quando um corpo aumenta de tamanho, sua área cresce ao quadrado, mas seu volume e massa crescem ao cubo.

Para um humano voar sem auxílio externo, seria necessária uma musculatura grande o suficiente para gerar sustentação.

Essa musculatura aumentaria o peso do corpo. O esqueleto também precisaria ser redesenhado para suportar a carga, o que adicionaria ainda mais massa.

O problema deixa de ser genético e passa a ser físico. Nenhuma edição de DNA resolve essa equação.

Visão de calor não fecha a conta

A visão de calor, por sua vez, enfrenta dois obstáculos.

O primeiro é energético. Em repouso, o corpo humano gera em média entre 80 e 100 watts de potência metabólica, segundo pesquisas da Universidade Stanford.

Em esforços extremos e curtos, como uma arrancada, esse valor pode chegar a cerca de 2.000 watts.

Um laser capaz de causar o tipo de destruição mostrado em The Boys exigiria potência na escala de megawatts. A diferença é de milhares de vezes.

A Lei de Conservação de Energia, estabelecida por Hermann von Helmholtz em 1847, impede que essa energia surja do nada.

O segundo obstáculo é anatômico, já que olhos são detectores de luz, não emissores. A retina converte fótons em sinais elétricos. Para emitir radiação térmica, a estrutura ocular teria de ser substituída por algo que já não funcionaria como um olho humano.

Bem menos cinematográfico

A ciência permite imaginar um ser humano com força acima da média, maior resistência à radiação, desempenho físico ampliado e sensores aprimorados. Mesmo assim, isso já envolveria avanços relevantes em genética, biologia molecular e neurotecnologia.

Mas o Homelander completo continua inviável, já que voo e visão de calor não são apenas desafios tecnológicos e entram em conflito com leis físicas conhecidas.

A versão possível do personagem seria forte, resistente e biologicamente modificada, mas não voaria, não dispararia laser pelos olhos e ainda dependeria de limites humanos básicos.

A engenharia genética pode alterar músculos, células e proteínas, mas ainda não reescreve a física. Pelo menos não na vida real.

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