The Boys tentou superar o absurdo — e a realidade virou sua maior concorrente

Por Tamires Vitorio 26 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
The Boys tentou superar o absurdo — e a realidade virou sua maior concorrente

"Finales são os piores", lamenta um personagem logo nos primeiros minutos do episódio de estreia da quinta e última temporada de The Boys. A fala pertence ao personagem The Worm, um roteirista fictício e autoproclamado especialista em narrativa — cheio de teorias, provavelmente ruim no que faz.

É uma piada de roteiro, claro. Mas também é um aviso: Eric Kripke, o criador da série, sabe exatamente o peso que carrega ao encerrar uma das produções mais comentadas da última década.

Depois de sete anos, quatro temporadas e um universo expandido que rendeu a série derivada Gen V e o próximo spin-off Vought Rising, The Boys chega ao fim com sua quinta temporada no Prime Video.

Os episódios estrearam em 8 de abril de 2026, com lançamentos semanais até 20 de maio. E a pergunta que a crítica especializada tenta responder, episódio a episódio, é simples, mas difícil: valeu a pena?

O mundo que Homelander construiu

O ponto de partida da temporada é o mais sombrio da série.

Homelander, interpretado por Antony Starr num desempenho que a crítica tem descrito como simultaneamente aterrorizante e patético, não é mais apenas o rosto da Vought International.

Ele controla os Estados Unidos pelo terror, com dissidentes sendo enviados para os chamados Freedom Camps, campos de detenção que a série enquadra como análogos às operações do ICE e aos centros de detenção dos Estados Unidos.

Do outro lado, Billy Butcher ressurge para reunir o grupo em torno de um plano radical: usar um vírus capaz de eliminar todos os Supes do planeta — incluindo ele mesmo e Ryan, o filho de Homelander.

A temporada se passa seis meses após os eventos da segunda temporada de Gen V, e conecta os dois universos de forma mais direta do que qualquer temporada anterior.

O elenco fixo retorna completo, reforçado por adições significativas. Daveed Diggs — conhecido por Hamilton e Snowpiercer — interpreta Oh Father, um pregador evangélico milionário que serve como peça central no plano de Homelander de se autoproclamar figura messiânica.

Jensen Ackles retorna como série regular no papel de Soldier Boy, e seus ex-colegas de Supernatural, Jared Padalecki e Misha Collins, aparecem em novos papéis, como um aceno aos fãs da série anterior de Kripke.

O lado bom, segundo a crítica

A recepção não é unânime, mas há consensos. O primeiro deles é a melhora em relação à quarta temporada, que havia dividido críticos e público.

Para a CBR, a quinta temporada representa "uma melhora tonal muito necessária em relação à quarta, que frequentemente não conseguia ler a sala nos momentos mais inapropriados".

A IndieWire destacou o que chama de núcleo emocional da temporada: a relação entre Butcher e Homelander, dois personagens que compartilham uma "química crepitante e contemptiva" e que, pela primeira vez em cinco temporadas, têm de fato muito a dizer um ao outro antes do confronto final. Karl Urban e Antony Starr são citados pela maioria dos críticos como âncoras de uma temporada que, quando funciona, funciona por causa deles.

A Empire elogiou especificamente o trabalho de Starr. Segundo a publicação, a capacidade de trazer interioridade a um personagem construído sobre exterioridade pura — violência, narcisismo, delírio de grandeza.

Homelander, cada vez mais convicto de sua própria divindade, é descrito como "ao mesmo tempo aterrorizante e patético", uma combinação que a série nunca havia explorado com tanta precisão.

Starlight: na nova temporada, seguidores da heroína estão sendo perseguidos (The Boys/Reprodução)

O núcleo emocional de Frenchie e Kimiko, agora capaz de se comunicar verbalmente pela primeira vez, abre conversas sobre o uso do vírus Supe-killer que vão além da ação e tocam em dilemas morais genuínos.

Novos personagens também foram bem recebidos.

Oh Father é descrito pelo That Shelf como "igual partes Jim Bakker e P.T. Barnum", uma criação que sintetiza décadas de escândalos evangélicos americanos num único personagem.

O grupo Teenage Kix — apresentado como análogo da cultura de influenciadores — aparece em cenas que críticos citam entre os momentos mais afiados da temporada: em um episódio, os jovens Supes são flagrados dançando ao áudio das atrocidades de Homelander e, no episódio seguinte, prendendo mães suburbanas por postar memes pró-Starlight.

O que a crítica questiona

Mas há um problema que nenhum crítico conseguiu ignorar, e que vai além das escolhas narrativas da temporada: o mundo real ultrapassou a sátira.

The Boys foi construída sobre a premissa de que superheróis corporativos funcionam como espelho distorcido dos EUA — amplificando seus vícios até o absurdo para que o absurdo se torne visível. Durante as três primeiras temporadas, o espelho funcionava. Na quinta, ele reflete quase sem distorção.

O site de entretenimento independente Pajiba foi a mais contundente nessa análise.

"Homelander decide se autoproclamar o Jesus americano, e isso chega ao ar uma semana depois de o presidente dos Estados Unidos publicar uma imagem gerada por IA de si mesmo com manto branco, curando doentes", escreveu o crítico.

Segundo o site, os campos mapeiam sobre as operações de deportação em massa.

Os bilionários financiam seus líderes em troca de cortes de impostos e proximidade com o poder. Soldier Boy recebe um perdão presidencial em troca de lealdade... O tipo de desenvolvimento que, nas palavras da publicação, "não se lê mais como sátira, mas como conflito de agenda com o noticiário".

O próprio Kripke reconheceu o problema publicamente. "Está ficando muito difícil criar uma sátira mais extrema do que o mundo real", disse. A temporada foi escrita dois anos antes, muito antes das eleições americanas de 2024. E ainda assim chegou atrasada.

A Empire identificou outro problema de ordem narrativa: falta de urgência.

Para uma série em seu capítulo final, The Boys demora a estabelecer ritmo, preferindo girar em torno de situações conhecidas em vez de avançar para o confronto. "O momentum do primeiro episódio não é aproveitado nem construído", escreveu a publicação. A sensação, para parte da crítica, é de que a série chegou à reta final sem a corrida que o momento exigiria.

O That Shelf resumiu a ambivalência afirmando que "The Boys dá uma grande tacada em sua temporada final, mas não bate o home run". Pelo menos não ainda.

O legado que está sendo construído

Independente dos julgamentos sobre esta temporada específica, há um consenso mais amplo sobre o que a série representa.

The Boys foi, durante seus melhores anos, a produção de ficção científica mais culturalmente relevante da televisão americana — não apenas pela violência gráfica ou pelo humor negro, mas pela capacidade de nomear, com precisão cirúrgica, os mecanismos de poder que estruturam o entretenimento e a política.

A franquia continua. Vought Rising, spin-off ambientado nos anos 1950, está em desenvolvimento e promete explorar as origens da corporação e de Soldier Boy, com Mason Dye já confirmado no elenco. Gen V deve ter uma terceira temporada.

O universo permanece vivo e a permanece também o questionamento sobre se ele conseguirá manter a relevância sem a âncora da série principal é uma das mais legítimas que a crítica começa a fazer.

Kripke afirma que sempre planejou encerrar em cinco temporadas, e que a história não poderia continuar após os eventos do final da quarta. Ao encerrar as filmagens em julho de 2025, o showrunner publicou uma despedida. "Esta é a última vez que estarei neste set. É agridoce, mas meu sentimento principal é de gratidão", disse.

Então, é a melhor série do ano?

A resposta honesta é: ainda não se sabe.

O episódio final (que não foi disponibilizado para críticos antes da estreia) pode mudar consideravelmente o julgamento sobre a temporada como um todo. Séries tendem a ser avaliadas pelos seus finais tanto quanto pelo seu meio.

O que já se pode dizer é que The Boys, em sua quinta temporada, é uma série que incomoda pelos motivos certos — mesmo quando tropeça. Ela ainda é capaz de colocar o dedo em feridas que outras produções preferem ignorar. Ainda conta com um elenco que entrega mais do que os roteiros exigem.

E ainda sabe, quando quer, ser brutal com a elegância de quem conhece exatamente o que está fazendo.

Se isso é suficiente para o título de melhor série de 2026, o ano ainda vai responder. Mas é suficiente para confirmar que The Boys vai acabar a corrida sem pedir desculpas — e sem se render à tentação de um final feliz que sua própria lógica jamais permitiria.

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