'Tinder' da mentoria: ONG usa match para acelerar carreira de jovens mulheres

Por Letícia Ozório 9 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Tinder' da mentoria: ONG usa match para acelerar carreira de jovens mulheres

Criar uma rede profissional pode ser decisivo para o início de uma carreira. Mas para muitas jovens brasileiras — especialmente aquelas que são as primeiras da família a chegar à universidade — esse acesso simplesmente não existe.

Foi para tentar diminuir essa distância que nasceu a Alumna, uma organização que conecta estudantes e mulheres em início de carreira e lideranças femininas de diferentes áreas por meio de um programa estruturado de mentoria.

Desde 2020, a iniciativa já impactou mais de 4 mil mulheres em todo o país, criando pontes entre trajetórias que dificilmente se encontrariam.

Por trás do projeto estão duas amigas que se conhecem há mais de duas décadas: Larissa Ushizima e Renata Malheiros Henriques.

A ideia surgiu em uma conversa aparentemente simples, durante um jantar pouco antes da pandemia.

“Comentamos durante o jantar que tivemos muitos privilégios. Fizemos universidade pública, eu fiz mestrado em Cambridge com bolsa, a Larissa estudou em Nova York com bolsa. A gente queria devolver esses privilégios de alguma forma”, lembra Renata.

As duas se conheceram no início dos anos 2000, quando eram estudantes de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB). Ao longo dos anos, seguiram carreiras diferentes, mas mantiveram um interesse comum por temas ligados a educação, liderança feminina e desenvolvimento profissional.

Naquele momento, decidiram voltar à universidade onde haviam estudado para conversar com alunas e entender quais eram os desafios enfrentados por quem estava começando a carreira.

Os desafios estruturais surpreenderam as amigas. Apesar dos avanços em diversidade, a falta de inclusão ainda impedia o desenvolvimento profissional de diversas estudantes.

Quando diversidade não significa inclusão

Durante uma visita ao curso de Relações Internacionais da UnB, Larissa e Renata encontraram estudantes de coletivos femininos dentro da universidade. O ambiente era bem diferente daquele que elas haviam conhecido anos antes.

“Vimos mais diversidade do que quando a gente estava lá. Antes era muito elitista. Era comum todo mundo falar várias línguas, ter feito intercâmbio”, diz Renata.

Grande parte dessa mudança estava relacionada às políticas de cotas, que ampliaram o acesso ao ensino superior público. Mas as conversas com estudantes mostraram que a inclusão ainda enfrentava desafios.

As internacionalistas se reuniram com estudantes da UnB para entender as dificuldades e atrasos da inclusão na educação pública (Alumna/Divulgação)

Segundo os relatos, as diferenças de trajetória apareciam até dentro da sala de aula. Em alguns casos, cotistas e não cotistas acabavam formando grupos separados. Assim, Renata e Larissa percebem que a política de diversidade, apesar de efetiva, tinha limitações. A inclusão não acontece automaticamente.

Para entender melhor a situação, elas aplicaram um formulário com estudantes. O resultado chamou atenção: cerca de 70% das estudantes cotistas disseram que já tinham pensado em desistir do curso.

“Era uma das melhores universidades do Brasil e, ainda assim, muitas alunas estavam pensando em sair”, lembra Larissa. “Aquilo deixou uma pulga atrás da orelha.”

A partir dessas conversas, as duas começaram a identificar um fator que aparecia repetidamente nas histórias das estudantes: a falta de acesso a redes profissionais.

A força das redes

Nas conversas com estudantes, Larissa e Renata começaram a perceber um fator central para explicar essas dificuldades: o acesso a redes de contato.

“Uma das coisas que quem nasce em 'berço de ouro' tem é a rede”, afirma Renata. “Quem já nasce rico consegue estágios em almoços de família, no escritório do tio ou porque conhece fulano e sicrano."

Para jovens que são a primeira geração da família a cursar universidade, essa realidade é muito diferente. Se as redes ajudam tanto na carreira, a ideia foi criar isso artificialmente. “Não é porque alguém não tem família rica que não pode ter uma grande rede", conta.

A ideia era conectar estudantes com mulheres mais experientes no mercado de trabalho, criando um sistema de mentoria que pudesse ajudar na transição entre universidade e carreira. Assim nasceu a Alumna, em 2020.

Uma mentoria que nasceu pequena

O projeto começou de forma modesta. As primeiras turmas reuniam poucas participantes, todas ligadas à mesma universidade. “Começamos pequeno, ouvindo as estudantes e entendendo os dilemas de quem é primeira geração na universidade, muitas vezes cotistas, mulheres negras ou de baixa renda”, explica Larissa.

O foco inicial era ajudar essas jovens a navegar no mercado de trabalho. “Muitas estavam pensando em desistir ou tinham dificuldade de imaginar a própria trajetória profissional”, diz ela.

Eventos presenciais em Brasília ajudaram a conectar mentoradas e mentoras, além de promover a ONG e atrair novas lideranças para o programa (Alumna/Divulgação)

Então veio a pandemia — e o projeto mudou de escala. Com os encontros acontecendo online, a mentoria deixou de depender da proximidade geográfica. Mentoras de diferentes áreas começaram a se voluntariar.

“Perguntávamos simplesmente: você tem uma hora por mês para dedicar a outra mulher?”, conta Larissa.

Executivas, diplomatas, juízas e profissionais de diferentes setores começaram a participar.

O match perfeito: como funciona?

Para organizar as conexões, o projeto criou um sistema de pareamento baseado em perfis, interesses e trajetórias. “Chamamos de um ‘algoritmo do bem’”, diz Renata. “É quase um 'Tinder' da mentoria.”

O sistema também considera questões de representatividade. “A gente percebeu, por exemplo, que uma mulher preta precisa abrir a câmera e ver outra mulher preta do outro lado”, diz Larissa. “Isso muda tudo.”

A mentoria dura seis meses e segue uma estrutura definida. Os encontros abordam temas como empatia, autoconhecimento, planejamento de carreira, currículo, LinkedIn e networking.

Segundo as fundadoras, grande parte dessas habilidades não é ensinada na universidade. “Não é sobre ensinar conteúdo técnico. A estudante de Direito não precisa aprender a prática de Direito com a mentora. Mas pode aprender como ser mais profissional, como procurar emprego e como se colocar com confiança em reuniões corporativas”, explica Renata.

A primeira sessão é dedicada à construção de vínculo. “Empatia é fundamental. Estamos conectando duas pessoas que não se conhecem. Criar esse vínculo é o primeiro passo", afirma.

Nas etapas seguintes, as participantes trabalham autoconhecimento e planejamento de carreira. “Muitas alunas têm dificuldade de reconhecer suas próprias qualidades”, diz Larissa. “Em uma das primeiras turmas, fizemos um exercício de reconhecer nosso ‘superpoder’. Uma aluna disse que não tinha nenhum. Isso nos chocou”, conta.

Para muitas mentoradas, a mentoria também ajuda a olhar para a própria trajetória de forma diferente. Muitas vezes, o currículo das jovens está quase em branco no papel, apesar das suas experiências de vida, como cuidar da família, ajudar na comunidade, trabalhar desde cedo.

Resultados que começam a aparecer

Desde sua criação, a Alumna já impactou mais de 4 mil mulheres, entre mentoras e mentoradas.

Na atual turma, iniciada em janeiro de 2026:

Uma pesquisa conduzida por economistas — incluindo uma doutoranda da Universidade de Princeton e uma professora do Insper — também começou a medir o impacto da mentoria com base nos dados da Alumna.

Os resultados preliminares mostram avanços em indicadores como autoconfiança, redes de contato e clareza sobre planos de carreira.

O ciclo da mentoria

Entre as histórias que mais marcam as fundadoras estão aquelas em que o ciclo se completa. Em um encontro final de uma turma, uma mentorada compartilhou um objetivo para o futuro.

“Ela disse: ‘minha meta é voltar como mentora’”, lembra Renata. Para as duas, esse é o sinal de que a rede está funcionando. “Nosso sonho sempre foi esse: mulheres apoiando mulheres”, diz Renata.

Larissa acrescenta que essa experiência também ajuda a desconstruir um estereótipo comum. “Existe um estigma de que mulher compete com mulher. A competição existe no ser humano, mas quando criamos espaço para troca, o que aparece é apoio", afirma.

Agora, a organização se prepara para abrir as inscrições da 15ª turma do programa, que deve reunir entre 300 e 400 participantes entre mentoras e mentoradas.

O objetivo é continuar expandindo, mas sem perder a essência do projeto.

“A Alumna nasceu com uma preocupação muito grande com desigualdade no Brasil”, diz Renata. “Queremos continuar apoiando grupos sub-representados e desenvolvendo competências socioemocionais que muitas vezes não aparecem na formação formal.”

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