Três meses de guerra no Irã: petrolíferas saem do topo e siderurgia assume liderança no Ibovespa
O que parecia uma corrida sem fim das petrolíferas no Ibovespa logo perdeu fôlego. No primeiro mês após o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro de 2026, as ações da Petrobras (PETR3, PETR4) e da PRIO (PRIO3) ocupavam, nessa ordem, as três primeiras posições entre as ações do índice com maior valorização. A dominância que parecia natural diante da escalada do petróleo no mercado internacional. Três meses depois, as mesmas ações ainda figuram no top 10, mas já não lideram. O pódio foi entregue a uma empresa do setor de siderurgia.
A ação USIM5, da Usiminas, acumula alta de 44,7% desde o início do conflito e lidera com folga o ranking do Ibovespa no período. O papel ficou praticamente fora do radar no primeiro mês de guerra e chegou a cair enquanto as petroleiras dominavam. Foi entre abril e maio que a ação explodiu, acumulando a maior parte dos seus 44,7%. E o gatilho foi o balanço do primeiro trimestre de 2026, com números considerados fortes e que fizeram a Usiminas virar queridinha dos analistas no setor siderúrgico.
Na sequência, vem HAPV3, da Hapvida, com alta de 18,2%. A ação da companhia vem de um período de forte desvalorização e deu um arrancada com notícias de mudanças societárias, planos de vendas de ativos, além de um balanço que agradou os analistas, apesar de algumas desacelerações. A terceira do ranking, a Braskem (+18,0%), também foi beneficiada por uma reestruturação societária com a entrada do grupo IG4 Capital. No acumulado de três meses, setores que pouco tinham a ver com a narrativa da guerra, surfaram ventos próprios.
Evolução das petrolíferas — posição e variação acumulada mês a mês
O mês em que o petróleo reinava
Nos primeiros 30 dias de guerra, a lógica do "petróleo sobe, petroleiras sobem junto" prevaleceu. PETR3 avançou 26,2% entre 27 de fevereiro e 31 de março, a maior valorização do Ibovespa no período. PETR4 ficou em segundo, com +23,8%, e PRIO3 em terceiro, com +21,5%. RECV3 e BRAV3 também estavam no top 10, em sexto e nono lugar, respectivamente. Das dez maiores altas do índice naquele primeiro mês, cinco eram de empresas do setor de petróleo e gás.
O Ibovespa, que reúne cerca de 85 papéis, tinha quase metade do seu top 10 dominado por um único setor — reflexo direto da percepção de risco geopolítico e da expectativa de disrupção no fornecimento global de petróleo. No pregão de 2 de março, o primeiro depois que a guerra começou, as petroleiras foram as únicas ações em alta enquanto o restante da bolsa sangrava, com o Brent subindo quase 10% em relação ao fechamento anterior e o Estreito de Ormuz paralisado.
O efeito que não durou
O segundo mês de guerra ainda foi generoso com as petrolíferas, mas já com sinais de esgotamento. PETR3 manteve a liderança acumulada (+28,1% desde o início da guerra), PETR4 aparecia em terceiro (+24,8%) e PRIO3 em quarto (+21,9%). A novidade era a entrada de Eneva (ENEV3) na segunda posição (+26,5%), após o sucesso de sua participação no Leilão de Reserva de Capacidade, e o enfraquecimento progressivo de BRAV3 e RECV3, que começavam a perder posições.
A virada começou a ganhar contornos mais nítidos em abril, quando o anúncio de um cessar-fogo temporário entre EUA e Irã derrubou o petróleo e fez o Ibovespa bater recorde — mas puxado pelos bancos e pela Vale, não pelas petrolíferas. A rotação setorial que analistas já previam começou a se materializar. Conforme a Exame apurou ao completar dois meses de guerra, economistas já alertavam: "No curto prazo, isso tende a provocar rotação setorial, com a saída de petróleo/mineração e entrada em consumo doméstico, utilities e construção", disse Filipe Villegas, estrategista de ações da Genial Investimentos.
Três meses depois: a inversão completa
No terceiro mês, o cenário se inverteu de vez. Com a relativa estabilização dos preços do petróleo, ainda que em patamares bem mais elevados do os de antes da guerra, e a absorção do choque inicial pelo mercado, o rali das petroleiras perdeu combustível. PRIO3 caiu para o quinto lugar no ranking acumulado, com +15,6%. PETR3 recuou para o sétimo (+12,6%). PETR4 ainda sobreviveu no décimo lugar (+8,9%), mas com metade da vantagem que tinha no primeiro mês.
BRAV3 ficou de fora do top 10, com alta de apenas 6,8% no acumulado. E RECV3 saiu completamente do radar positivo: acumula queda de 4,1% desde o início da guerra, ocupando a 24ª posição do ranking. O vaivém do conflito ainda pressiona o setor: em meados de maio, mesmo com as petroleiras em alta, o impacto sobre o índice já era mínimo.
Top 10 — Maiores altas acumuladas em três meses de guerra
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