Túmulos de 5 mil anos revelam famílias do Neolítico
Uma análise genética de esqueletos encontrados em túmulos megalíticos da Alemanha está ajudando arqueólogos a entender quem eram os povos responsáveis pelas gigantescas construções de pedra erguidas na Europa há mais de 5 mil anos. O estudo identificou laços familiares entre comunidades separadas por centenas de quilômetros e indicou que a expansão desses monumentos ocorreu principalmente por troca cultural, e não por migrações em massa.
A pesquisa foi publicada na revista científica Science e coordenada pelo brasileiro Nicolas Antonio da Silva, da Universidade de Kiel.
Estudo analisou DNA de mais de 200 pessoas
Para chegar aos resultados, os autores analisaram o DNA de 203 indivíduos enterrados em seis sítios arqueológicos localizados na Alemanha. Os sepultamentos têm entre 5.100 e 5.400 anos e pertencem ao chamado Neolítico Tardio, período em que populações europeias já praticavam agricultura e criação de animais.
Entre os monumentos estudados estão túmulos coletivos formados por grandes blocos de pedra, conhecidos como estruturas megalíticas.
A análise identificou parentes próximos enterrados em localidades separadas por distâncias de até 225 quilômetros. Um dos casos mais incomuns envolve um homem sepultado em Niedertiefenbach cujo filho foi enterrado ainda criança em Sorsum, a mais de 200 quilômetros dali.
Os dados sugerem que havia circulação de pessoas, conexões familiares de longa distância e continuidade genética entre algumas comunidades da região.
Stonehenge não surgiu por migração
Apesar das conexões genéticas encontradas entre grupos da Alemanha, o estudo observou pouca proximidade biológica entre populações responsáveis por monumentos megalíticos em outras regiões da Europa. Isso inclui áreas ligadas a estruturas como Stonehenge, além de comunidades da Irlanda e da Península Ibérica.
Segundo os autores, os resultados indicam que a tradição de construir monumentos de pedra provavelmente se espalhou mais por transmissão cultural do que pelo deslocamento de grandes populações pelo continente.
A pesquisa sugere que diferentes grupos compartilhavam conhecimentos, técnicas e práticas simbólicas mesmo sem forte mistura genética entre eles.
Túmulos revelam organização familiar masculina
O trabalho também identificou padrões familiares dentro das comunidades analisadas. Em alguns túmulos coletivos, os pesquisadores encontraram até seis gerações consecutivas da mesma família enterradas no mesmo local.
As análises mostraram repetição frequente das linhagens ligadas ao cromossomo Y, herdado biologicamente pela linha masculina, enquanto as linhagens femininas apareciam de forma mais diversa.
Segundo os autores, isso pode indicar que mulheres deixavam suas comunidades de origem para viver nos grupos dos parceiros, prática observada em diferentes sociedades antigas.
Pesquisa encontrou indícios de poliginia
Outro ponto observado foi a existência de relações familiares múltiplas em alguns casos específicos. Os cientistas identificaram, por exemplo, um homem que teve cinco filhos com quatro mulheres diferentes. Outro indivíduo teve descendentes com duas parceiras.
De acordo com o estudo, os dados sugerem a possibilidade de relações poligínicas — quando um homem mantém vínculos com mais de uma mulher — embora os autores ressaltem que esses casos parecem minoritários dentro do conjunto analisado.
Nem todos os enterrados eram parentes
Para os pesquisadores, isso indica que fatores sociais, culturais e simbólicos também influenciavam quem podia ser enterrado nesses monumentos coletivos.
O estudo ajuda a reconstruir não apenas a origem genética desses povos, mas também aspectos de organização social, mobilidade e relações familiares entre os construtores dos monumentos de pedra que marcaram o Neolítico europeu.
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