UBS rebaixa mercado de ações brasileiro de 'atrativo' para 'neutro'

Por Mitchel Diniz 29 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
UBS rebaixa mercado de ações brasileiro de 'atrativo' para 'neutro'

Eleição entra no radar do mercado

O banco suíço UBS revisou para baixo sua recomendação sobre as ações brasileiras, rebaixando o país de "Atrativo" para "Neutro". A decisão reflete uma mudança no perfil de risco e retorno da bolsa brasileira à medida que o país se aproxima da eleição presidencial de outubro.

O UBS elevou a recomendação do Brasil em junho do ano passado e desde então as ações brasileiras acumularam alta de cerca de 25% em reais e de 38% em dólares. Para o banco, a maior parte do potencial de valorização já foi capturada.

No entanto, os analistas fazem uma ressalva: o rebaixamento reflete uma mudança no cenário macro e político de curto prazo, não uma deterioração en fundamentos corporativos.

O banco aponta ao menos três ventos contrários simultâneos sobre o mercado local.

Eleição entra no radar do mercado

A eleição presidencial de outubro já vem fazendo preço nos ativos brasileiros, e o UBS avalia que a volatilidade típica dos ciclos eleitorais do país começa a se intensificar. O banco aponta que desenvolvimentos recentes, como mudanças nas pesquisas, aumento da cobertura da mídia e o surgimento de manchetes políticas de alto impacto, trouxeram a disputa presidencial para o centro da atenção dos investidores.

Historicamente, isso tem um efeito previsível: a volatilidade implícita das ações brasileiras sobe à medida que o primeiro turno se aproxima. O UBS destaca que não é a data do pleito o que move os mercados, mas sim a direção de política econômica percebida no candidato que lidera as pesquisas. Uma vitória da oposição poderia ser lida como catalisador de reformas e uma reavaliação do mercado; uma vitória do incumbente, como continuidade e menor apetite por ajuste fiscal.

As pesquisas mais recentes, com dados até 25 de maio, mostram o presidente Lula com cerca de 47% das intenções de voto no segundo turno, à frente de Flávio Bolsonaro, com 45%. A confirmação da candidatura do senador no fim de 2025 já havia provocado uma queda abrupta de mais de 4% no Ibovespa em um único pregão, episódio que analistas já interpretaram como o início do ciclo de volatilidade eleitoral.

Selic: ciclo mais curto e mais raso

O segundo vetor de pressão vem da política monetária. O Banco Central iniciou o ciclo de cortes em março, reduzindo a Selic para 14,75%, e fez um segundo corte em maio, levando a taxa a 14,50%. Mas o ritmo é lento e o tom, cauteloso. O Copom reforçou a palavra "cautela" no comunicado mais recente e não deu sinalização clara sobre os próximos passos, dividindo economistas sobre se haverá continuidade ou pausa no afrouxamento.

O UBS aponta que os preços de energia persistentemente elevados — reflexo do conflito no Oriente Médio — apresentam uma dinâmica dupla para o Brasil. Ao mesmo tempo em que beneficiam os exportadores de petróleo e o balanço de pagamentos, também alimentam a inflação e complicam o trabalho do Banco Central. O resultado é um ciclo de afrouxamento monetário mais curto e mais raso do que o mercado antecipava. A projeção atual e menos de 50 pontos-base de cortes na Selic até outubro — bem abaixo do que se esperava no início do ano.

Como as ações já haviam se valorizado em antecipação ao ciclo de afrouxamento, o banco avalia que boa parte do upside proveniente da queda de juros já está precificado.

Fiscal sob pressão pré-eleitoral

O terceiro fator é o comportamento das contas públicas. O UBS observa que o afrouxamento fiscal pré-eleitoral está se acelerando, o que levanta dúvidas sobre a trajetória da dívida e eleva a incerteza macroeconômica.

Um real mais enfraquecido aumenta o prêmio de risco dos ativos locais e pode reverter rapidamente os fluxos estrangeiros que ingressaram no país nos últimos meses.

Fundamentos seguem sólidos — mas não são suficientes agora

O UBS deixa claro que o rebaixamento não é um diagnóstico de deterioração dos fundamentos corporativos. O múltiplo preço sobre lucro (P/L) projetado para os próximos 12 meses do MSCI Brasil segue próximo à mediana histórica da última década. O crescimento de lucros do país está entre os mais altos dos mercados emergentes — excluindo Coreia do Sul.

A bolsa brasileira também tem um perfil diferenciado dentro do índice de mercados emergentes EM: pouca exposição ao setor de tecnologia, forte presença em commodities, minerais críticos, terras raras e infraestrutura de energia. Esses setores estão em alta demanda na transição energética global.

Mas esses méritos estruturais, por si só, não são catalisadores de curto prazo. No horizonte imediato, macro e política devem comandar o desempenho da bolsa.

O que pode mudar a visão do UBS

O banco indica dois gatilhos para uma eventual revisão da recomendação de volta para "Atrativo": uma liderança clara de um candidato considerado favorável ao mercado nas pesquisas eleitorais, ou uma aceleração inesperada do ciclo de corte de juros pelo Banco Central.

Enquanto esses sinais não aparecerem, a orientação é manter posições já existentes, sem adicionar exposição.

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