Última reunião do Fed com Powell na presidência começa hoje: o que esperar
A última reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) sob a presidência de Jerome Powell começa nesta terça-feira, 28, e deve reforçar um cenário já amplamente precificado pelos mercados: a manutenção dos juros no país.
Mas mais do que a decisão em si o encontro, que se estende até esta quarta, 29, carrega um peso simbólico e político, marcando o fim de um ciclo à frente do banco central americano.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, aponta 100% de probabilidade de que o Fed mantenha a taxa básica na faixa entre 3,50% e 3,75%, repetindo o movimento das últimas reuniões.
Em março, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) já havia optado por deixar os juros inalterados pela segunda vez consecutiva no ano, em decisão alinhada com as expectativas — à época, a probabilidade de manutenção era de 99%.
O pano de fundo que sustenta essa postura permanece praticamente o mesmo. De um lado, a inflação segue acima da meta de 2%, com o núcleo do Índice de Preços para Gastos de Consumo Pessoal (PCE) em 3,1%. De outro, o cenário geopolítico, com a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, continua pressionando os preços de energia, com impactos diretos sobre a dinâmica inflacionária global.
Na decisão anterior, o Fed destacou que o crescimento econômico segue sólido, mas acompanhado de uma inflação persistente, o que exige cautela na condução da política monetária.
Leitura dominante é de que não há espaço para cortes nos juros dos EUA
Esse diagnóstico deve ser reiterado nesta semana, segundo analistas. O Banco Pine disse em relatório nesta segunda, 27, que "a leitura predominante entre os membros do FOMC é de que a política monetária já se encontra em território suficientemente restritivo, permitindo ao Comitê aguardar novos dados antes de ajustes adicionais", o chamado "wait and see", esperar para ver.
A instituição também aponta que a inflação continua pressionada pelos custos de energia, em um ambiente de mercado de trabalho resiliente.
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que completa dois meses nesta terça, tem afetado diretamente o fluxo global de petróleo e gás, especialmente diante das tensões no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção mundial.
"O canal energético permanece como principal mecanismo de transmissão do risco geopolítico para a dinâmica inflacionária global", afirmou o Pine.
Essa avaliação é reforçada por Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos. De acordo com o especialista, o mundo vive uma "extrema fragilidade resiliente" e o choque energético provocado pelo conflito representa uma mudança estrutural, e não transitória.
"Mais do que uma oscilação passageira de preços, enfrentamos uma mudança estrutural no regime de expectativas econômicas", diz. Simioni diz que o chamado "imposto geopolítico" tende a manter os custos elevados por um período prolongado, dificultando o processo de desinflação.
Nesse ambiente, a tendência é que os bancos centrais, não apenas o Fed, mantenham uma postura cautelosa. "Os bancos centrais enfrentam um tradeoff entre combater a inflação ancorada em choques de oferta e preservar o crescimento, levando-os a priorizar a manutenção de juros reais positivos", afirma o economista.
A casa projera que o FOMC mantenha os juros nesse patamar durante a maior parte de 2026, com espaço muito limitado para cortes.
Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, o consenso de mercado também aponta para estabilidade. "Não tem espaço para corte, nem para alta. Essa é a leitura dominante", afirma Alves.
"O Fed deve continuar adotando a postura de 'wait and see', esperando mais clareza sobre os impactos de choques recentes, que são difíceis de estimar e carregam muita volatilidade". Ao mesmo tempo, o estrategista pondera que as expectativas inflacionárias ainda estão relativamente bem ancoradas, o que reduz a necessidade de uma resposta mais agressiva, como novas altas de juros.
Reunião marca o início de uma transição no Fed
Se a decisão em si parece praticamente definida, o foco dos investidores deve se concentrar na coletiva de imprensa de Powell. O mercado buscará sinais sobre o rumo da política monetária ao longo de 2026, especialmente qualquer indicação sobre a possibilidade, ainda que remota, de cortes de juros.
"O grande ponto esperado é ver se existe algum espaço ou sinal sobre a trajetória da política monetária nesse cenário mais complexo", diz o estrategista da Avenue.
A reunião desta semana também ganha relevância por marcar o fim do mandato de Powell como presidente do Fed, previsto para 15 de maio. O atual chair já indicou que permanecerá no cargo até que seu sucessor seja confirmado pelo Senado, mas o processo político pode interferir no cronograma.
O nome indicado pelo presidente Donald Trump para sucedê-lo é o de Kevin Warsh, que avançou recentemente no Senado após a retirada de um bloqueio por parte do senador republicano Thom Tillis. A decisão veio na esteira do encerramento de uma investigação criminal contra Powell pelo Departamento de Justiça, que havia ampliado as tensões entre o Fed e a Casa Branca nos últimos meses.
Segundo informações da Reuters, o Comitê Bancário do Senado deve votar a indicação de Warsh nesta quarta-feira, coincidindo com o fim da reunião do Fed. O timing aumenta a possibilidade de que o novo presidente já esteja à frente da próxima reunião, em junho.
O último ano do mandato de Powell foi marcado por pressões políticas para redução dos juros e por episódios de tensão institucional, incluindo a investigação sobre sua atuação, sob o governo de Donald Trump.
Ainda assim, a expectativa é de continuidade no tom da política monetária nesta reunião final. "Você não espera que um banqueiro central seja disruptivo no fim do mandato", afirma Castro Alves. "As decisões seguem uma lógica pragmática, baseada nos dados".
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