Um pedido a cada 42 segundos: o negócio da Gerdau, Votorantim e Tigre que movimenta R$ 8 bilhões
O balconista de uma loja de material de construção recebe no celular o aviso de um treinamento novo sobre uma linha de tubos. Ele assiste, responde a um quiz e ganha pontos. No fim do mês, troca esses pontos por um Pix, combustível ou um produto do catálogo. Do outro lado da plataforma, a indústria que pagou pelo treinamento sabe exatamente quantos balconistas concluíram o curso, em que regiões, e cruza esse dado com as vendas que cada loja registrou depois.
É assim que a Juntos Somos Mais quer redesenhar o varejo de materiais de construção no Brasil.
A empresa é uma joint venture criada em 2018 por Votorantim Cimentos, Gerdau e Tigre, três das maiores indústrias do setor, com a tese de que faria mais sentido construir uma plataforma digital única do que cada uma tocar a sua.
Hoje a Juntos opera um marketplace B2B e o maior programa de fidelidade da construção civil do país, com mais de 100 mil lojas conectadas, 30 indústrias parceiras além das sócias e um pedido registrado a cada 42 segundos.
Em 2025, movimentou 7 bilhões de reais em GMV, sigla em inglês para volume bruto de mercadorias transacionadas na plataforma.
A meta para 2026 é chegar a 8 bilhões de reais — e a aposta para destravar esse crescimento começou a sair do papel em 1º de maio, com o relançamento do programa de fidelidade, agora chamado Juntos Vantagens. É a primeira entrega visível do novo mandato de Fernando Dutra, que assumiu a direção executiva da empresa em 2026 com a missão de transformar a Juntos de uma plataforma transacional em uma operação que gera valor para indústrias e varejistas dentro do mesmo sistema.
"Programa de benefício é sobre como indústria influencia comportamento. Não queremos virar um catálogo de indústria. Queremos digitalizar o comportamento", afirma Dutra.
O plano da Juntos para os próximos anos passa por adensar o ecossistema com mais indústrias parceiras, expandir a operação de vendas via WhatsApp — que já fatura 30 milhões de reais por mês — e usar inteligência artificial para automatizar a jornada de compra do lojista. O crescimento fora das sócias deve triplicar em 2026, segundo Dutra, e é nesse movimento que a empresa aposta para ganhar relevância em um setor pulverizado.
Em que mercado a Juntos Somos Mais está inserida
O varejo brasileiro de materiais de construção movimenta cerca de 200 bilhões de reais por ano e reúne 150 mil lojas espalhadas pelo país.
É um setor capilarizado, pouco concentrado e historicamente analógico. "Mesmo a maior não tem 4% do mercado", afirma Dutra. A digitalização ainda é incipiente — boa parte das compras entre indústria e lojista acontece por telefone, e-mail ou no contato direto do representante comercial com o balcão.
Foi nessa lacuna que a Juntos Somos Mais nasceu. A primeira versão da plataforma, em 2018, era um programa de fidelidade voltado para conectar indústrias da construção civil ao varejo pulverizado. A ideia era simples: oferecer um sistema de pontos para que lojas e balconistas fossem premiados por comprar e vender produtos das indústrias parceiras. A capilaridade veio rápido. Hoje, das 150 mil lojas do país, cerca de 100 mil estão dentro do programa.
O passo seguinte foi transformar essa rede em um marketplace. As 30 indústrias conectadas — somadas às três sócias — representam mais de 50% do mix de venda de uma loja típica de material de construção, segundo a empresa. Quanto mais sellers entram, mais relevante a plataforma se torna para o lojista, e mais a indústria justifica o investimento na operação.
Faturamento do varejo de materiais de construção no Brasil
Em bilhões de reais, valores nominais
*Projeção da Anamaco divulgada em outubro de 2025. Fonte: Anamaco e FGV/IBRE.
O que muda no novo programa de benefícios
O relançamento do programa de fidelidade não traz uma tecnologia nova, mas reorganiza a forma como pontos são distribuídos, acumulados e resgatados. A versão anterior tinha virado complexa demais para o lojista, segundo Dutra. "Se for muito complexo, começa a perder proposta de valor", diz.
A principal mudança é a simplificação da regra: agora, a cada valor gasto na plataforma, o lojista ganha um ponto, mesma lógica dos programas de fidelidade voltados ao consumidor final. O catálogo de prêmios foi atualizado, e o programa passou a se comunicar de forma distinta com cada perfil dentro da loja: proprietário, gerente e balconista recebem mensagens, missões e benefícios diferentes.
Outra novidade é o Clube do Proprietário, com benefícios exclusivos para o dono da loja, como capacitações e descontos em serviços. Vendedores e gerentes passam a concentrar mais pontuação recorrente, com base nas vendas que realizam dentro da plataforma. E entram no programa ferramentas de engajamento contínuo: missões, quizzes e campanhas com pagamento em Pix ou pontos, que podem ser segmentadas por região, perfil ou objetivo comercial da indústria.
A lógica por trás dessa engenharia é capturar dados de comportamento. Cada interação, venda e participação em campanha vira informação que a indústria pode usar para ajustar sua estratégia comercial.
WhatsApp, IA e os próximos movimentos
Fora do programa de fidelidade, a Juntos vem testando outras frentes para acelerar a digitalização do varejo. A mais promissora, segundo Dutra, é a venda via WhatsApp, lançada em setembro de 2025. A operação fatura 30 milhões de reais por mês e está sendo integrada a sistemas de inteligência artificial para automatizar pedidos, recomendações e atendimento.
A leitura da empresa é que o pequeno lojista do interior não precisa, necessariamente, entrar no aplicativo da Juntos para comprar de forma digital. "A gente ligou e entendeu a necessidade do cara na ponta comprar de uma maneira digital, mas não significa estar dentro da nossa plataforma. Poderia ser no WhatsApp", afirma Dutra.
O executivo, que começou a carreira como trainee da Ambev e está no grupo Votorantim desde 2015, assumiu a Juntos com mandato amplo. Além de acelerar a transformação do modelo de negócio, precisa equilibrar as demandas das três sócias, que têm estratégias e prioridades distintas, e ampliar o ecossistema sem perder a tração que vem das indústrias controladoras.
O crescimento de receita fora das sócias chegou a 40% em 2025 e deve triplicar em 2026, segundo a empresa.
A pressão competitiva no varejo de construção, com margens mais comprimidas e necessidade de aumento de giro, joga a favor da tese da Juntos. Mas o desafio segue sendo o mesmo desde 2018: convencer 150 mil lojistas espalhados pelo Brasil de que vale a pena trocar o caderno de pedidos pela plataforma. E convencer 30 — agora caminhando para muito mais — indústrias de que a digitalização do balcão passa por uma operação compartilhada, e não por sistemas próprios.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: