Uma nova Baselworld? Como será o Watches & Wonders deste ano
GENEBRA. Houve um tempo em que dois grandes salões de relojoaria na Suíça disputavam a atenção dos aficionados, jornalistas e revendedores. Em janeiro acontecia sempre o SIHH, em Genebra, com poucas e selecionadas manufaturas, muito exclusivo. Em março era realizada a Baselworld, na Basileia, um evento massivo, com presença de algumas centenas de marcas.
Hoje a grande feira de relojoaria é o Watches & Wonders, que teve origem no restrito SIHH, ou Salon International de la Haute Horlogerie – mas que, segundo veteranos da indústria, está cada vez mais parecido à Baselworld. O salão, realizado no centro de eventos Palexpo, começa nesta terça-feira, 14 de abril, e vai até o dia 20.
Será a maior de todas as edições. Neste ano o Watches & Wonders terá a presença de 66 marcas. Entre os estreantes está a Audemars Piguet, que participava no passado do SIHH. Em 2020, quando o evento teve início, ainda na pandemia e realizado apenas em formato virtual, foram apenas 30 participantes.
As diferenças entre os dois salões
O SIHH foi inaugurado em 1991 por Cartier, Baume & Mercier, Piaget, Gérald Genta e Daniel Roth. Em 2019, último ano em que funcionou com esse nome, contou com a presença 35 marcas, a maior parte do grupo Richemont, como Panerai, IWC e Jaeger LeCoultre.
Era um salão relativamente pequeno, em que a maior parte dos participantes vestia costume com gravata, voava dos quatro cantos do mundo para Genebra em classe executiva e ficava hospedado em hotéis cinco estrelas à beira do lago Léman, como o Four Seasons e o D’Angleterre, tudo a convite das marcas.
A diferença entre os dois salões sempre foi clara. O SIHH funcionava como um clube fechado da alta relojoaria, com poucas marcas, ambiente controlado, foco em relacionamento com varejistas e imprensa especializada.
Já a Baselworld era o oposto: uma feira de escala industrial, com centenas de expositores, que ia de gigantes como Rolex e Patek Philippe a fabricantes menores, além de joalherias e fornecedores. Era onde o mercado inteiro se encontrava, com alto volume de lançamentos e de fechamento de negócios.
Em 2020 já estava prevista a mudança de nome de SIHH para Watches & Wonders, com a intenção de tornar o evento um pouco mais democrático. Já na Baselword, com a pandemia, marcas importantes anunciaram um desembarque, em um movimento que ficou conhecido como Rolexit, em referência ao Brexit. O evento da Basileia então chegou ao fim.
Uma plataforma de comunicação
O que acontece agora é uma convergência. Ao crescer em número de marcas e incorporar nomes que antes estavam fora do circuito, o Watches & Wonders deixa de ser apenas um salão seletivo para se tornar um hub do mercado.
O evento ainda está longe da escala que a Baselworld atingiu em seu auge, com presença de mais de 1.300 marcas, é verdade. Mas, na prática, reúne hoje a maior parte das maisons que definem o rumo da relojoaria de alto padrão. O evento concentra atenção global do setor em uma única semana — exatamente o papel que a feira da Basileia desempenhava.
Há também uma mudança de lógica. O SIHH era essencialmente um evento B2B, organizado para pedidos de revendedores e relacionamento com imprensa. A Baselworld, apesar de também ser voltada ao trade, já operava como vitrine global, com entrada de visitantes.
O Watches & Wonders vende ingressos para o público nos dois últimos dias, mas vai um passo além. O evento funciona como uma plataforma de comunicação, com eventos simultâneos acontecendo por diversos cantos da cidade. As marcas não estão ali apenas para vender, mas para contar histórias, engajar colecionadores e dialogar diretamente com o consumidor final.
Outro ponto de aproximação é a diversidade. O SIHH reunia basicamente maisons do grupo Richemont e algumas convidadas. O Watches & Wonders abriga marcas de diferentes perfis, origens e posicionamentos, do grupo LVMH às chamadas microbrands, com peças mais acessíveis.
A grande ausência novamente são as marcas do grupo Swatch, como Omega e Longines, que, depois do fim da Baselworld, optou por não participar mais de salões de relojoaria.
Mercado mais estável
A evolução do perfil do Watches & Wonders acontece em um momento de transição para a indústria. Depois de anos de crescimento acelerado no pós-pandemia, o mercado de relógios suíços entrou em uma fase mais realista. Em 2025, o valor das exportações somou 25,6 bilhões de francos suíços, queda de 1,7% em relação ao ano anterior, segundo a Fédération de l’Industrie Horlogère Suisse.
É um resultado parecido ao do ano anterior. Ainda assim, o setor tem mostrado resiliência, especialmente no segmento de maior valor agregado, com peças com complicações e em metais preciosos. O mercado foi puxado menos por volume e mais por valor, com relógios mais caros ganhando peso no balanço geral.
Na distribuição geográfica, mercados como os Estados Unidos seguem aquecidos, enquanto regiões asiáticas têm apresentado uma demanda mais cautelosa. O resultado é um cenário mais seletivo, em que marcas priorizam margem, posicionamento e consistência de longo prazo.
Este ano não deve ser diferente. Em Genebra, isso deve se traduzir em relógios mais elaborados, mais caros e mais alinhados à ideia de objeto de desejo de longo prazo. A relojoaria deve ainda seguir a tendência de caixas menores, e muitas marcas caminham para um território mais fluido, onde as peças não são mais definidas como masculinas ou femininas. Mas saberemos melhor nos próximos dias. Acompanhe nossa cobertura do Watches & Wonders por aqui e nas redes sociais.
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