'Usar IA é como pilotar uma Ferrari: sem saber, não se tira o melhor', diz Tonny Martins, da IBM

Por Daniel Giussani 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Usar IA é como pilotar uma Ferrari: sem saber, não se tira o melhor', diz Tonny Martins, da IBM

Usar inteligência artificial hoje pode parecer como sentar no banco de uma Ferrari. A máquina entrega potência, velocidade e precisão. Mas, sem saber operar, o risco é não sair do lugar — ou usar só uma fração do que ela pode fazer.

É essa a tese que acredita o presidente da IBM para a América Latina, Tonny Martins. Ele conversou com a EXAME durante o South Summit Brasil, evento de inovação que acontece esta semana em Porto Alegre.

De acordo com ele, muitas empresas aceleraram investimentos em IA, mas ainda têm muitas dificuldades na aplicação prática. Isso num cenário em que a tecnologia deixou de ser piloto de testes e começou a entrar no coração das operações — de compras a atendimento, de finanças a suporte.

“É como uma Ferrari. Você pode fazer coisas excepcionais, mas se você não tiver o skill para pilotar, talvez seja melhor você ter uma bicicleta elétrica”, afirma o executivo.

Para a IBM, o próximo ciclo não será sobre acesso à tecnologia, mas sobre quem consegue operá-la com eficiência. E isso passa por capacitação, dados confiáveis e mudanças profundas nos processos internos.

Capacitação: gargalo e prioridade

A IBM tem tratado a formação de equipes como parte central da estratégia de IA.

O movimento começa dentro de casa. A companhia ampliou seu time técnico, especialmente em áreas ligadas a pré-venda, suporte e implementação. A lógica é simples: sem gente preparada, a tecnologia não chega ao cliente de forma eficiente. E há muita tecnologia de IA na IBM.

“Nós aplicamos inteligência artificial há três anos em escala. Mais de 100 casos nos últimos 3 anos geraram um impacto de mais de 4,5 bilhões de dólares na companhia”, afirma Tonny.

Esse ganho interno virou argumento comercial, e também financiamento para expansão. Parte dos recursos foi direcionada justamente para aumentar equipes e acelerar projetos. No Sul, por exemplo, a equipe cresceu cinco vezes nos últimos anos.

Fora da IBM, a estratégia passa por criar ambientes onde clientes consigam “digerir” a tecnologia. É o caso da atuação no Instituto Caldeira, hub de inovação em Porto Alegre, onde empresas trabalham junto com especialistas para testar aplicações reais.

A ideia é reduzir a distância entre teoria e prática. Em vez de grandes projetos isolados, o foco está em ciclos menores, com aplicação direta em processos.

IA no centro da operação

A visão da IBM parte de uma distinção clara: a IA que ganhou popularidade nos últimos anos, voltada ao usuário final, não é a mesma que gera impacto financeiro relevante nas empresas.

No ambiente corporativo, a tecnologia atua em processos invisíveis e críticos. Está na cadeia de compras, na operação financeira, no atendimento, na análise de dados em tempo real. “A [IA] empresarial tá no processo de compras das empresas, na área de operações, na área de suporte, na área de contestação de fatura”, afirma.

Essa presença muda o papel da tecnologia dentro das companhias. Em vez de suporte, ela passa a ser infraestrutura operacional.

A IBM organiza essa atuação em três frentes. A primeira é produtividade, com automação de fluxos internos. A segunda é geração de valor, com novos produtos, serviços e jornadas para clientes. A terceira é capacitação, que conecta diretamente com o gargalo atual.

Na prática, isso significa que a IA deixa de ser projeto e vira sistema. Não existe, segundo o executivo, nenhuma plataforma nova da empresa que não tenha inteligência artificial no núcleo.

Esse reposicionamento também acompanha uma mudança maior no modelo de negócios. O outsourcing tradicional, focado em cortar custos, perde espaço para soluções que prometem aumentar receita e criar diferenciação.

O risco, porém, está na base: dados. Sem informação estruturada, confiável e atualizada, a IA não escala. É por isso que a empresa tem reforçado investimentos nessa camada, tratando dados como pré-condição, não consequência da estratégia.

O que vem pela frente

Apesar do avanço, a avaliação interna é que o mercado ainda está no começo. Grande parte das empresas segue em fase de teste, sem conseguir capturar ganhos consistentes.

“Começamos porque grande parte das empresas ainda estão na fase de experimentação”, afirma.

Isso abre espaço para um novo ciclo de competição. Não necessariamente entre quem tem acesso à tecnologia, mas entre quem consegue operá-la melhor.

Nesse cenário, o Brasil ganha relevância dentro da estratégia global. O país aparece como um dos motores de crescimento da IBM na América Latina.O investimento acompanha essa leitura. A expansão de equipes, os centros de inovação e a proximidade com parceiros indicam uma aposta na adoção local.

No fim, a tese da empresa volta ao ponto inicial: a tecnologia já está disponível. O diferencial será humano.

“O humano tem uma capacidade hoje que não é e nunca vai ser substituída, da criatividade, da conexão. Combinado com a inteligência artificial, você dá um próximo salto quântico de produtividade”, afirma.

A história do South Summit

Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores.

O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.

Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.

A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.

Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.

A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.

Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.

A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.

A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.

Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.

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