Vale do Silício corta 46 mil vagas para bancar corrida de US$ 650 bi em IA
A inteligência artificial tem acelerado os cortes em quadros de trabalhadores de empresas de tecnologia — e o estopim mais recente veio de dois gigantes. Na semana passada, a Meta confirmou, em comunicado interno, que desligaria 8 mil trabalhadores e encerraria o processo seletivo para 6 mil vagas. Conforme a agência AFP, uma das justificativas comunicadas por Janelle Gale, chefe de recursos humanos do grupo, é a necessidade de "compensar os investimentos" da empresa, hoje focada em inovações de IA.
Poucos dias depois, a Microsoft lançou um programa de aposentadoria voluntária para aproximadamente 7% de seus funcionários nos Estados Unidos. É a primeira vez que a empresa adota a estratégia para desligamento em uma escala que afetará milhares de funcionários. Segundo dados do Layoffs.fyi, site especializado em rastrear cortes no mercado de tecnologia, quase 46 mil demissões foram anunciadas em apenas quatro semanas.
Em fevereiro, Jack Dorsey já havia tomado uma decisão que anteciparia o momento que vivem as Big Techs. O fundador do Twitter e CEO da Block comunicou que a empresa de IA teria seu quadro de trabalho reduzido pela metade. Conforme o executivo, a companhia está cada vez mais bem-sucedida, mas os desligamentos são necessários para que as ferramentas de IA criadas internamente sejam usadas da melhor forma. "Já estamos constatando que as ferramentas de inteligência que estamos criando e utilizando, aliadas a equipes menores e mais horizontais, estão possibilitando uma nova forma de trabalho que muda fundamentalmente o significado de construir e administrar uma empresa. E isso está se acelerando rapidamente", declarou Dorsey em publicação no X.
A rede social de fotos e vídeos Snapchat também não escapou da reviravolta. A decisão que desligou 16% dos trabalhadores da empresa dona do Snapchat ao redor do mundo foi tomada com o objetivo de economizar US$ 500 milhões em recursos ao longo de 2026. Já a Oracle, multinacional de dados, começou sua reestruturação demitindo milhares de trabalhadores na Índia para redirecionar investimentos para infraestrutura de IA.
Movimento foca em reduzir para expandir
Mas o que está por trás dos números é mais complexo. Parte dos cortes reflete, na verdade, a correção de uma contratação excessiva durante a pandemia, quando o boom digital fez as empresas crescerem mais rápido do que seu modelo de negócio justificava. Conforme destacou o The Wall Street Journal, a Snap estava com 65% mais funcionários do que no período pré-Covid, quando era mais popular, e falhou em registrar um único lucro operacional anual desde então. A Oracle, por sua vez, gerava menos receita por colaborador do que a maioria das grandes empresas de software.
O verdadeiro motor da onda de cortes, no entanto, está na corrida armamentista por infraestrutura de IA. Alphabet (Google), Meta, Amazon e Microsoft planejam investimentos de capital de até US$ 650 bilhões ao longo deste ano. Este valor representa mais do que o dobro do que desembolsaram dois anos atrás e é 60% superior ao que foi gasto em 2025, quando o mercado já era considerado aquecido. Para bancar a fatura expressiva, o caminho encontrado pelas empresas foi enxugar custos operacionais, especialmente folha de pagamento.
O resultado é uma equação financeira delicada. A Amazon deve encerrar o ano com fluxo de caixa negativo. A Meta optou por comprometer mais da metade da sua receita anual apenas com investimentos em infraestrutura, seja com iniciativas internas ou parcerias com terceiros para acelerar a inteligência do grupo. Ao mesmo tempo, a relação dívida/patrimônio do grupo chefiado por Mark Zuckerberg saltou de 8% para 39% em 5 anos.
Para completar, a narrativa de que a IA elimina empregos alimenta uma resistência popular que já começa a se materializar em oposição à construção de novos data centers em diversas cidades ao redor do mundo. O norte da Espanha é uma das regiões afetadas: moradores de Aragão começaram a protestar contra a Amazon e a Meta por investimentos bilionários em data centers. O projeto dá às empresas o direito de acionar a desapropriação forçada de terras quando negociações diretas com proprietários não chegam a um acordo.
O paradoxo é evidente: ao tentar mostrar ao mercado que sabem usar IA para fazer mais com menos, as Big Techs podem estar construindo uma reação social que vai dificultar, no médio prazo, exatamente a expansão que estão financiando com os cortes.
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