Viagem de rei Charles aos EUA é marcada por 'discurso fantástico'
A visita do monarca britânico, Rei Charles III, e de sua esposa, Rainha Camilla, aos EUA marca a primeira de seu tipo desde a visita da Rainha Elizabeth II em 2007. O objetivo da viagem, que começou na segunda, 27, e durará até a quinta, 30, é celebrar os fortes laços entre os dois países, com uma miríade de eventos, festivais, jantares e tours planejados em Nova York e Washington.
A viagem serviu para reaproximar os dois países. O governo de Donald Trump fez críticas duras ao Reino Unido nos últimos meses, porque o país europeu se recusou a entrar na Guerra do Irã.
Na terça, por exemplo, Charles pediu que Estados Unidos e Reino Unido renovem sua longa aliança transatlântica, em um discurso durante o jantar de Estado oferecido pelo presidente Donald Trump, em meio a tensões pelas guerras no Irã e na Ucrânia. Charles evitou mencionar diretamente a relação ruim entre o presidente americano e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer.
Mas, assim como em seu pronunciamento realizado mais cedo no Congresso americano, o monarca britânico ressaltou que Londres e Washington "permaneceram juntos nos melhores e nos piores momentos".
"Esta noite estamos aqui para renovar uma aliança indispensável que, durante muito tempo, tem sido uma pedra fundamental da prosperidade e da segurança, tanto para cidadãos britânicos quanto americanos", disse Charles.
Discurso 'fantástico' no Congresso
No Congresso, Charles recebeu aplausos de pé de legisladores dos dois partidos, que raramente conseguem concordar. O rei usou senso de humor e eloquência para tentar revitalizar os laços anglo-americanos em um momento em que muitos em ambos os lados do Atlântico têm se tornado cada vez mais individualistas.
O monarca conseguiu fazer isso de forma tão hábil que Trump, mais tarde, descreveu o discurso como “fantástico”, observando que “ele conseguiu que os democratas se levantassem. Eu nunca consegui fazer isso”.
A aliança entre ambos os países "não pode se sustentar nos feitos do passado", declarou o soberano. "Os desafios que enfrentamos são grandes demais para que uma única nação os suporte sozinha", afirmou, instando Washington e Londres a defenderem valores comuns e a resistirem aos apelos para se retraírem "cada vez mais sobre si mesmos".
Em sua fala, Charles chamou a atenção para a defesa da Ucrânia, por um judiciário independente e imparcial, por uma sociedade diversa — dando atenção particular às forças de uma população multicultural — e pela conservação da natureza.
A visão do papel dos EUA no mundo atual idealizada por Charles, todavia, contrasta nitidamente com as posições que Trump buscou e defendeu em todos esses âmbitos, reduzindo cada vez mais o apoio americano a Kiev, recorrendo a ordens executivas para contornar o legislativo e o Congresso, conduzindo deportações em massa e reduzindo as proteções ao meio ambiente em favor do progresso econômico.
O rei Charles III do Reino Unido discursa perante uma sessão conjunta do Congresso na Câmara dos Representantes do Capitólio dos EUA, em Washington, D.C., em 28 de abril de 2026. (Roberto Schmidt/AFP)
Além disso, reviveu memórias de cooperação com a Otan, em um momento em que a aliança está sob intensos ataques diplomáticos de Trump: "Imediatamente após o 11 de setembro, quando a Otan invocou o Artigo 5º pela primeira vez e o Conselho de Segurança das Nações Unidas se uniu diante do terror, respondemos juntos ao chamado – como nossos povos têm feito por mais de um século, ombro a ombro, através de duas Guerras Mundiais, da Guerra Fria, do Afeganistão e de momentos que definiram nossa segurança compartilhada", trazendo à tona eventos criticados por Trump, que percebeu participação desigual de tropas americanas e de forças da aliança no conflito do Afeganistão, e buscando, através dessas memórias, reviver união, coesão e propósito comum na Otan, que nunca enfrentou tamanha crise política.
Por fim, pediu por nações abertas, dizendo: "Rezo de todo o coração para que nossa aliança continue a defender nossos valores compartilhados com nossos parceiros na Europa e na Commonwealth [antigas colônias britânicas, como os EUA, o Canadá e a Austrália], e em todo o mundo, e que ignoremos os apelos estridentes para nos tornarmos cada vez mais introspectivos", contrastando novamente com a realidade da administração trumpista. Durante seu segundo mandato, Trump buscou adotar medidas mais protecionistas, fechando os EUA a imigrantes (inclusive trabalhadores, por meio de uma taxa sobre o visto H-1B) e impondo altas tarifas, também sobre seus aliados.
Programa amplo
O programa dos britânicos teve vários momentos mais casuais. Na segunda, rei e rainha foram recebidos para um chá da tarde privado. Após o encontro, o presidente levou os monarcas em um tour pelas novas expansões da Casa Branca e, mais tarde, a uma festa no jardim da residência do embaixador britânico. Por mais que esse tipo de festa seja comum na realeza britânica, é a primeira vez que uma delegação real do Reino Unido participa de uma festa assim em solo americano desde 1939.
Na terça, Trump os recebeu novamente na Casa Branca, em uma cerimônia militar que remonta ao século XVIII. Durante a cerimônia, a banda dos fuzileiros navais americanos tocou os hinos de ambas as nações, e os monarcas receberam uma saudação de 21 tiros de artilharia em direção ao céu, como é o costume. Após isso, o presidente fez um breve discurso no gramado da Casa Branca, diante de milhares de convidados, incluindo membros do gabinete, congressistas americanos, a delegação do Reino Unido, famílias militares e estudantes.
Após os dois dias em Washington, os britânicos visitaram Nova York na quarta-feira, e visitaram o memorial do 11 de setembro, em Manhattan. Apesar do filho de Charles, o ex-príncipe Harry, morar na Califórnia, não há indícios de um possível encontro. Harry, que já foi o duque de Sussex, renunciou aos seus títulos e responsabilidades reais e deixou de fazer parte da monarquia.
Nesta quinta-feira, após uma despedida oficial do presidente e da primeira-dama, os britânicos visitarão brevemente o estado da Virgínia, onde se encontrarão com comunidades nativas americanas, e, ao deixarem os EUA, os monarcas visitarão a ilha de Bermuda, onde Charles é oficialmente o chefe de Estado. Será sua primeira visita ao território como rei.
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