Vibe coding não vai cortar empregos, diz italiano à frente de negócio de US$ 9 bi com IA
Michele Catasta é considerado uma das maiores referências em vibe coding no mundo. O termo ainda é pouco conhecido fora do Vale do Silício, mas sua ideia é simples: criar softwares complexos apenas conversando com agentes de inteligência artificial, sem precisar escrever código linha a linha.
Em vez de aprender linguagens de programação, você descreve o que quer, e o agente transforma isso em um software pronto para uso.
“A nossa missão é permitir que qualquer pessoa que use Excel consiga criar software. Se você sabe organizar uma planilha, você pode usar a Replit para desenvolver suas ideias”, afirma Catasta.
O italiano veio ao Rio de Janeiro pela primeira vez para participar do Web Summit Rio 2026, que reúne mais de 40 mil participantes no Riocentro nesta semana.
Em entrevista à EXAME, ele fala sobre o futuro do trabalho em um mundo cada vez mais automatizado, onde equipes pequenas podem produzir como grandes times.
“O gerente de pessoas vai dar lugar ao profissional que orquestra múltiplos agentes de IA. Isso muda a forma de trabalhar e cria carreiras que antes não existiam”, explica.
Para ele, o vibe coding não vai cortar empregos, mas expandir a produtividade e a criatividade de times de tecnologia.
“Sim, a IA permite que você faça mais em menos tempo, mas isso não significa que nossos desenvolvedores têm menos trabalho. Pelo contrário, sempre elevamos o nível de expectativa e continuamos contratando”, completou.
Graduado em Roma e com passagens por Stanford, MIT e Google, Catasta é presidente e chefe de IA da Replit. No Google, trabalhou com modelos de linguagem e agentes autônomos aplicados a software.
“Comecei fazendo pesquisas em 2017, quando os modelos ainda eram muito básicos. Mas sabia que, em alguns anos, poderíamos construir a plataforma que existe hoje”, conta.
A história da Replit
Ele se juntou à Replit como cofundador tardio, liderando o lançamento técnico dos agentes da empresa e seu desenvolvimento contínuo.
“Percebi que, para levar essa tecnologia para todos os desenvolvedores e trabalhadores do conhecimento, seria mais fácil fazer isso em uma empresa menor que acreditava na comunidade.”
A Replit nasceu em 2016, fundada por Amjad Masad, Haya Odeh e Faris Masad, com a ideia de simplificar a programação. Masad, imigrante jordaniano, se frustrava com a complexidade de instalar ambientes de desenvolvimento.
A solução foi criar um ambiente totalmente online, colaborativa e acessível a qualquer pessoa. Hoje, a empresa combina essa abordagem com agentes autônomos de IA, hospedagem em nuvem e ferramentas que permitem criar softwares internos e públicos de forma rápida e segura.
O crescimento da Replit tem sido meteórico. A empresa conta com mais de 60 milhões de usuários globais, sendo 1,5 milhão no Brasil. Entre os clientes brasileiros, o iFood utiliza a plataforma para dar “superpoderes” a seus 8 mil funcionários.
Um caso emblemático é o de um dono de farmácia que usou a Replit para criar seu próprio CRM e sistema de estoque, aumentando a receita de US$ 30 mil para US$ 200 mil mensais.
“Ao criar ferramentas internas, você consegue exatamente o que precisa. Isso não seria possível contratando uma agência externa”, diz Catasta.
Financeiramente, a Replit registrou um ARR (Annual Recurring Revenue, receita anual recorrente) de US$ 150 milhões em setembro de 2025. ARR é uma métrica que mede quanto a empresa consegue faturar anualmente a partir de receitas recorrentes, especialmente útil para negócios de assinatura.
A meta da companhia é atingir US$ 1 bilhão em ARR até o final de 2026. Em março de 2026, a Replit captou US$ 400 milhões em uma rodada Série D, elevando seu valor de mercado para US$ 9 bilhões, três vezes mais que o valuation seis meses antes.
Entre os investidores estão a16z, Coatue, Y Combinator e Databricks Ventures, além de Shaquille O’Neal e Jared Leto.
O modelo de negócios da Replit combina assinaturas individuais e profissionais com planos corporativos robustos. Além de criar softwares, a plataforma hospeda os aplicativos na nuvem e cobra pelo uso da infraestrutura, quantidade de linhas de código e tempo de execução dos agentes.
“O que cobramos é proporcional ao uso da plataforma. Quanto mais você cria, mais consome de nuvem e mais valor você obtém”, explica Catasta.
O que vem por aí
A empresa também tem investido em inovações recentes. Entre elas, o Package Firewall, que bloqueia automaticamente pacotes de software maliciosos, e a integração com a Shopify, que permite criar lojas virtuais completas em apenas dez minutos a partir de instruções em linguagem natural.
Outra novidade é o Replit Animation, que transforma desenhos simples em animações 3D complexas, útil para marketing e produto. “Estamos tornando possível que qualquer pessoa transforme ideias em softwares ou experiências digitais completas, sem depender de equipes técnicas gigantes”, afirma Catasta.
No Web Summit, ele também comentou sobre a recepção da tecnologia no Brasil. “Voamos milhares de quilômetros e ainda sentimos o mesmo entusiasmo e calor dos usuários. Essa revolução não é só do Vale do Silício, é universal. O Brasil é um mercado importante e está crescendo rápido”, disse.
Ele destacou que a Replit tem mais de 1,5 milhão de usuários no país, incluindo pequenas empresas e grandes organizações, e que os números continuam subindo.
O futuro, segundo Catasta, está nos agentes autônomos. Em vez de aplicativos estáticos, os agentes recebem comandos simples do usuário, reúnem dados, escrevem códigos e entregam soluções prontas.
“Hoje, você precisa clicar, digitar, organizar dados. Amanhã, vai dar uma instrução e o agente faz tudo sozinho. É assim que vejo o futuro do vibe coding e do software em geral”, explica. Ele enfatizou também a segurança desses agentes, essenciais para empresas que lidam com dados sensíveis.
Para Catasta, democratizar o software é mais que estratégia de negócios: é transformar ideias em produtos reais, dar independência a trabalhadores e acelerar a inovação.
“Há ideias valiosas que ficam só na cabeça das pessoas porque elas não sabem programar. Com agentes de IA, qualquer trabalhador do conhecimento pode colocar uma ideia em prática”, diz.
Essa filosofia tem guiado a Replit em sua expansão global e na consolidação do vibe coding como uma nova forma de trabalhar, criar e empreender.
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