Vida Imobiliária: Pets influenciam decisões de moradia e um novo perfil de lar
Por milênios, a presença de animais no cotidiano humano esteve associada a funções de trabalho, guarda ou proteção (isso mesmo: cachorros existiam, basicamente, para isso!). No entanto, nas últimas décadas, o significado de animal de estimação foi transformado por completo: de mero companheiro, tornou-se um elemento estrutural da nossa vida afetiva, da saúde emocional e, naturalmente, das decisões de compra de milhões de brasileiros — especialmente para os que vivem em apartamentos nas grandes cidades.
Essa transformação não é estética ou periférica: ela aparece nos números, no comportamento e até nas escolhas de consumo, moradia e estilo de vida. O Brasil já figura entre os maiores mercados pet do mundo (animal de estimação agora é pet). Dados recentes mostram que o país tem mais animais de estimação do que crianças, com aproximadamente 160,9 milhões de pets em sua população, superando, por exemplo, os cerca de 39 milhões de crianças até 13 anos, segundo comparações de dados do setor com estatísticas demográficas do IBGE.
De acordo com estimativas da ABEMPET, o mercado pet brasileiro faturou cerca de R$ 75,4 bilhões em 2024, consolidando uma cadeia econômica integrada que vai de alimentação, medicamentos e cuidados veterinários até serviços de estética, hotelaria e tecnologia. Dados de fontes de mercado indicam que a comida para pets responde por mais de 50% desse faturamento, refletindo o peso desse segmento no conjunto da indústria. Como comparação, o mercado de lançamento de apartamentos no Brasil, segundo dados da Brain Inteligência Estratégica, produzidos para a CBIC, atingiu cerca de R$ 300 bilhões em 2025.
Apartamentos e novos lares: afinal, onde os pets ganham espaço? Bem, viver em apartamento deixou de ser sinônimo de limitação para ter um animal. Para muitos moradores urbanos, pets são parte integrante da rotina afetiva e emocional. A presença deles impacta não apenas o bem-estar individual, mas também a forma como as famílias, tradicionais ou não, se organizam.
Esse fenômeno se liga a variações demográficas significativas no Brasil. Entre 2010 e 2022, os domicílios compostos por uma só pessoa aumentaram de cerca de 12% para aproximadamente 19%, enquanto casais sem filhos também cresceram em proporção, chegando perto de 20% do total de lares. Essas mudanças refletem não apenas tendências de envelhecimento e urbanização, mas também escolhas de vida e modelos familiares em transformação, em que a presença de um pet pode ser um facilitador de afeto diário, companhia e senso de pertencimento.
Para quem mora sozinho ou em casal sem filhos, o animal tende a ocupar uma função dupla: parceiro de rotina e suporte emocional constante. Isso explica, em parte, a preferência por cães e gatos que se adaptam bem a ambientes menores, desde que recebam estímulo e cuidados adequados.
A influência dos pets já ultrapassou o campo afetivo e chega a moldar decisões de consumo estruturais. Uma pesquisa da Brain Inteligência Estratégica com compradores de imóveis, em 2024, mostrou que 26% dos compradores já priorizam espaços adequados para animais na escolha de um imóvel, seja área de circulação, espaço pet, playgardens ou infraestrutura para banho e tosa.
Esse dado revela duas tendências claras: integração afetiva e funcional entre pets e rotina familiar. O animal não é mais um “acessório” da casa, mas um elemento considerado na escolha do imóvel e nos custos associados à moradia urbana.
Há também pressão por infraestrutura pet nas projeções urbanas. Incorporadoras e gestores de condomínio têm respondido a essa demanda com áreas específicas, embora, ainda hoje, menos de 1% dos condomínios prontos ofereçam espaços pet formalizados. Em comparação, segundo outra pesquisa da Brain, 43% dos novos lançamentos imobiliários nas grandes cidades brasileiras apresentam um espaço pet em suas áreas de lazer.
Mas ainda há muito espaço para crescimento. Enquanto uma pesquisa de março de 2025, realizada pela Brain, apontou que 48% dos lares brasileiros possuíam um pet, estimativas internacionais indicam que cerca de 66% dos norte-americanos e 70% dos australianos possuem algum ou alguns pets.
Diferentes artigos científicos ao redor do planeta apontam os animais de estimação como suporte no equilíbrio emocional das famílias modernas — fator que está por trás dessa revolução. Pesquisas, como as desenvolvidas na University of Cambridge, em 2017, indicam que crianças com pets relatam níveis elevados de bem-estar e até melhor interação social em determinados contextos. Esses achados são reforçados por estudos publicados em jornais especializados, como The Journal of Pediatrics, em 2020, que apontam associações positivas entre convivência com animais e menor prevalência de dificuldades de interação social em alguns grupos de crianças.
Já para idosos, diferentes estudos associam a presença de pets à redução de sentimentos de solidão e ao estímulo de rotinas mais ativas. Revisões sistemáticas recentes sugerem que, em determinados perfis, a convivência com animais pode contribuir para o bem-estar emocional, além de reforçar hábitos de vida regulares, como levar o cachorro para passear — uma dimensão que ganha relevância em um país com população envelhecendo rapidamente.
Aplicando os percentuais encontrados na pesquisa de 2025 da Brain à quantidade de lares brasileiros, divulgada pelo IBGE, temos a seguinte provável distribuição, em números aproximados, de pequenos animais domésticos no país:
Cães: 58 milhões (39% do total)Aves: 38 milhões (26%)Gatos: 28 milhões (19%)Peixes ornamentais: 21 milhões (14%)Outras espécies (répteis e pequenos mamíferos): 3,0 milhões (2%)
Essa distribuição ilustra não apenas a paixão histórica por cães, mas também como ainda é forte a presença de aves. Embora hoje seja menos comum encontrarmos aviários — esse era o nome quase universal para a busca de pets até 20 anos atrás, e um dos meus passeios favoritos na infância. Podemos ver, ainda, o crescimento dos gatos como companhia em lares menores e o espaço crescente de nichos como peixes e pequenos mamíferos, que crescem especialmente em apartamentos, em que o espaço potencial para os pets é, naturalmente, menor.
Não sei você, mas eu sou um tanto exagerado: tenho cachorro, jabutis, estou montando um novo aquário de peixes marinhos e só não tenho um viveiro de aves porque minha esposa não me deixa (ainda! rs). A propósito, minha ideia seria me cadastrar em um programa ambiental do Paraná que possibilita que lares que queiram possam receber animais silvestres capturados do tráfico de animais e que não podem mais voltar para a natureza.
Encerro trazendo à lembrança as imagens que a esposa do Ricardo Boechat, falecido âncora da Rede Band, a senhora Veruska Seibel, postou dias após a morte de seu marido: sua pequena Lulu-da-Pomerânia ainda permanecia, todas as noites, à espera de seu dono e companheiro, na porta de casa.
No fim, pet não ensina grandes lições filosóficas. Ele só insiste no básico: presença, cuidado, constância. E talvez seja exatamente isso que tanta gente anda esquecendo. Por isso, quando for comprar um apartamento, não se esqueça do seu pet.
Fábio Tadeu Araújo é economista, mestre e doutorando em Gestão Urbana e CEO da Brain Inteligência Estratégica.
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