Virais regionais e ataques a Flávio: a estratégia de Renan Santos para a eleição
Renan Santos, presidente do Missão e pré-candidato à Presidência da República, chegou ao estúdio da Jovem Pan com um diagnóstico pronto — e uma aposta arriscada. Na leitura do pré-candidato, há um espaço aberto à direita que ele acredita ser capaz de ocupar sozinho.
Minutos antes de entrar no ar no programa Direto ao Ponto, repetiu a mesma tese nos bastidores, em conversa com a reportagem da EXAME.
“Eu sou o único candidato de direita nessa eleição”, afirmou.
Ainda no camarim, o presidente do Missão reforçou as convicções do partido, fundado em novembro de 2025 por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL).
"Não criamos uma sigla, criamos um partido que vai defender a sua ideologia", afirmou.
Com 4,4% das intenções de voto na última pesquisa AtlasIntel, à frente de nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), Santos passou a sustentar um discurso de viabilidade eleitoral.
No entorno do pré-candidato, a leitura é que o sentimento de mudança — identificado em mais de 80% do eleitorado em pesquisas — pode abrir espaço para um fenômeno semelhante ao de Javier Milei, na Argentina.
O contraponto está na consolidação da polarização. Cerca de 65% dos eleitores afirmam já ter voto definido e não pretendem mudar até a eleição, concentrados no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Diante desse cenário, a estratégia adotada por Santos — evidenciada durante a entrevista e que deve se repetir nos próximos meses — combina ataques diretos ao senador Flávio Bolsonaro com críticas ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, em menor intensidade.
“O bolsonarismo só vencia quando estava com a gente [o MBL]”, afirmou.
Com um perfil menos combativo do que outros nomes do grupo político, que ganhou projeção nas manifestações de 2013 e no impeachment de Dilma Rousseff, Santos tenta construir uma imagem própria.
Ele se apresenta como um roqueiro na política, com foco em propostas e discurso de reformista.
“Me inspiro no Juscelino Kubitschek”, disse na entrevista será veículada completa nas próximas semanas pelo canal fechado.
Impulsionado por um público predominantemente jovem, o pré-candidato busca ocupar o espaço do eleitor que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro.
Na avaliação de aliados, os mais jovens podem funcionar como base inicial de crescimento, influenciando familiares.
O desafio, porém, é avançar além desse nicho. Para isso, a campanha aposta em uma estratégia centrada em conteúdos virais nas redes sociais como forma de furar a polarização.
Entre as primeiras iniciativas estão propostas pouco convencionais.
Santos defendeu transformar o Rio de Janeiro em uma cidade-estado, como alternativa para aumentar a autonomia no combate ao crime organizado.
Também propôs a criação de uma equipe brasileira de Fórmula 1, com participação da Petrobras e da Embraer.
A estratégia digital se combina com presença territorial. O plano prevê viagens pelos rinchões do país, com foco em cidades fora dos grandes centros.
Após a entrevista, encerrada por volta das 21h, Santos embarcou para o Maranhão.
Sem verba relevante, estrutura partidária consolidada ou tempo de televisão, a campanha adota um modelo enxuto.
A lógica é percorrer cidades do interior do país e explorar temas locais com potencial de engajamento.
Em um dos vídeos recentes, o pré-candidato citou Guajará-Mirim, em Rondônia, que contratou um show para o aniversário da cidade, como exemplo de má gestão pública.
O conteúdo se aproximou de 1 milhão de visualizações no Instagram.
O alcance ganha relevância em um cenário em que o próprio Santos ainda não atingiu 1 milhão de seguidores na plataforma.
A aposta é usar esse tipo de conteúdo para acelerar o crescimento digital.
Hoje, um dos principais ativos do grupo é o deputado Kim Kataguiri, que soma mais de 2,2 milhões de seguidores.
Kim na Fazenda e agenda econômica ainda genérica
Kim deve ter papel central na campanha. Atualmente pré-candidato ao governo de São Paulo, ele é visto por Santos como peça-chave em um eventual governo.
O plano inclui convidá-lo para o Ministério da Fazenda.
“Kim é um dos jovens mais inteligentes que conheço”, afirmou.
Na área econômica, o discurso ainda é pouco detalhado. O pré-candidato defende um ajuste fiscal, mas sem indicar de forma concreta quais medidas pretende adotar para implementá-lo.
Ele também mencionou a criação de uma reserva econômica em Bitcoin, sem detalhar o desenho da proposta, e citou a segurança pública como uma das prioridades de um eventual governo.
Ao longo da entrevista, evitou entrar em temas de costumes, como aborto, e buscou deslocar o foco para pautas institucionais e econômicas.
Sobre o Judiciário, afirmou que o Supremo Tribunal Federal precisaria exercer maior autocontenção e defendeu a proposta de dosimetria para os condenados no 8 de janeiro.
Santos também disse que está disposto a “queimar” capital político para aprovar medidas impopulares, como reformas da previdência, adminsitrativa e trabalhista, caso seja eleito.
Segundo ele, seria possível governar mesmo sem maioria consolidada no Congresso, apostando na pressão da opinião pública e na mobilização digital.
Na leitura do pré-candidato, a combinação entre redes sociais e insatisfação popular pode substituir, ao menos em parte, a lógica tradicional de articulação política do presidencialismo de coalisão.
Ao projetar o cenário eleitoral, Santos deixou clara sua preferência para um eventual segundo turno.
“Prefiro enfrentar o Flávio”, afirmou.
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