'Vivi isso em casa': criador de 'Emergência Radioativa' revela bastidores inéditos
"Quando tinha 14 anos, vi minha mãe trabalhando dias e noites com as vítimas de Goiânia. Ela era diretora do departamento de monitoração individual do Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD)". É assim que o roteirista e criador carioca Gustavo Lipsztein se lembra das vítimas do acidente radioativo na capital de Goiás, com o Césio-137, em 1987.
Três décadas depois, a memória familiar e os bastidores do maior desastre radiológico do mundo fora de uma usina nuclear ganharam escala global. Lipsztein é a mente por trás de Emergência Radioativa, minissérie nacional que estreou na Netflix e se tornou uma das mais assistidas da plataforma em língua não inglesa.
Com direção-geral de Fernando Coimbra e produção da Gullane Entretenimento, a série reconstrói a corrida contra o tempo liderada por físicos e médicos para conter a contaminação em massa após uma cápsula de radioterapia ser violada em um ferro-velho local. A curiosidade fez o título atingir o 4º lugar global das séries mais assistidas da Netflix na semana da estreia.
Sete dias mais tarde, ela já era a mais assistida da plataforma em língua não inglesa naquele período. Ficou assim por quatro semanas consecutivas e, ao todo, figurou no Top 10 de 55 países.
"Eu imaginava que teria público pela própria curiosidade do assunto, mas ninguém conseguia imaginar que ia chegar a esse ponto", conta Gustavo à Casual EXAME. "Sempre pensei que, se essa história fosse contada como ela merecia, poderia mudar algo. Esse grau de sucesso, porém, é uma coisa que é imprevisível."
'Emergência Radioativa': Johnny Massaro protagoniza minissérie sobre tragédia do césio-137 em Goiânia (Netflix/ Divulgação)
Fenômeno de audiência e de mudança
Com elenco de peso encabeçado por Johnny Massaro, Leandra Leal e Paulo Gorgulho, além de gerar audiência massiva, o sucesso do drama histórico também operou um feito raro: mudou o valor das pensões aos radiolesionados do Césio-137 em Goiânia, uma reivindicação travada desde 2018, que havia sofrido um veto do executivo em julho de 2023.
Antes da minissérie, os principais afetados — que tiveram contato direto com o elemento radioativo — recebiam R$ 1.908 do Governo Federal. Hoje, eles recebem R$ 3.242, um aumento de 70%. Demais afetados, sem contato direto, foram de R$ 954 para R$ 1.621. No total, mais de 600 pessoas ainda recebem a pensão.
O governo brasileiro paga, até os dias de hoje, as vítimas do acidente de Goiânia por responsabilidade civil e reparação pelos danos causados pelo acidente. O Estado foi tido como responsável por falhas na fiscalização de materiais radioativos na capital de Goiás, que levaram à recuperação do cabeçote com césio por catadores de ferro.
O recurso foi previsto na Lei 9.425/1996 (25/12/1996), que concede pensão vitalícia especial às pessoas afetadas.
"Quando fui criar a série, não pensei demais no efeito que ela traria. Eu só queria contar essa história da maneira mais honrosa possível. O principal ponto de partida sempre foi esse lado humano, que partiu de um lado muito pessoal meu, já que minha mãe trabalhou com as vítimas. Ver que isso mudou algo para elas me alegra muito", completa o criador da série.
Oficialmente, o acidente causou quatro mortes imediatas. O Centro de Assistência aos Radioacidentados relata mais 107 óbitos subsequentes associados aos efeitos crônicos da radiação. Mais de 1.000 pessoas, atualmente, frequentam o espaço para tratamento. Informações do Governo de Goiás, na época, revelam que o monitoramento realizado no Estádio Olímpico avaliou mais de 112.800 pessoas. Destas, 249 tiveram algum grau de contaminação. 129 precisaram de acompanhamento médico permanente.
Césio-137: acidente em Goiânia foi a maior tragédia nuclear brasileira (MPF/Reprodução)
Aprendizado para o Brasil
Para além do impacto político, a série também reabriu a história para as gerações mais jovens, que não a conheciam. E, talvez, por um bom motivo: a condução dos cientistas e do governo para resolução do caso em Goiânia é reconhecida até os dias de hoje como um dos exemplos mundiais de como se lidar com acidentes radioativos.
Na época, profissionais de todo o país e internacionais ajudaram a cidade a conter a contaminação do Césio-137. Algo que Gustavo viu de perto, conversando com a própria mãe e amigos dela que trabalharam no caso, naquela época.
"Percebi durante a pesquisa que as pessoas com menos de 40 anos não conheciam essa história. Chernobyl todo mundo lembra, mas o Césio-137 acabou esquecido porque nossa resposta técnica foi um sucesso absoluto", comentou ele à EXAME.
A operação desses cientistas foi algo que ele fez questão de incluir na história, com o máximo de destaque possível. "Quis construir a narrativa sob três pontos de vista: os físicos na descontaminação, os médicos lidando com o desconhecido e as vítimas, que foram expostas a algo que o governo deveria ter fiscalizado", completa Gustavo.
A precisão técnica da série — que mescla a ficcionalização por meio de amálgamas de personagens reais à fidelidade de relatórios científicos e papers médicos da época — também joga luz sobre um protagonismo raramente associado ao Brasil no exterior: a vanguarda científica.
"A proteção radiológica mundial hoje é baseada no que os brasileiros aprenderam e desenvolveram em Goiânia", destaca Lipsztein. "Nossos cientistas foram heróis. O Brasil formou profissionais que foram parar no Comitê Científico das Nações Unidas (UNSCEAR) e na Comissão Internacional de Proteção Radiológica (ICRP). Fiquei muito surpreso ao ver turmas inteiras de jovens assistindo à série e se espelhando em físicos e biólogos como referências de carreira. A ciência nacional costuma ser sucateada, e vê-los reconhecidos é a parte mais gratificante."
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