Ye barrado? Show do Kanye West no Reino Unido desperta polêmicas

Por Paloma Lazzaro 7 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ye barrado? Show do Kanye West no Reino Unido desperta polêmicas

Kanye West, que agora atende pelo nome artístico Ye, foi anunciado como headliner do Festival Wireless, em Londres, nos dias 10, 11 e 12 de julho. A apresentação, que será a primeira no Reino Unido desde que encabeçou o Glastonbury em 2015, gerou uma onda de críticas de políticos, organizações judaicas e patrocinadores, que citaram o histórico antissemita do rapper como razão para repudiar sua presença no evento.

O festival recebe cerca de 50 mil pessoas por dia e terá os shows transmitidos globalmente pela Amazon.

Premiê diz que presença é 'profundamente preocupante'

O primeiro-ministro britânico Keir Starmer foi um dos primeiros a se manifestar.

"É profundamente preocupante que Kanye West tenha sido contratado para se apresentar no Wireless apesar de seus comentários antissemitas anteriores e da celebração do nazismo", afirmou Starmer ao The Sun no último domingo, 5. "O antissemitismo em qualquer forma é abominável e deve ser confrontado firmemente onde quer que apareça. Todos têm a responsabilidade de garantir que a Grã-Bretanha seja um lugar onde os judeus se sintam seguros."

Adversários do Labour, partido trabalhista do qual Starmer faz parte, também se pronunciaram contra a presença de West no país.

A líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, afirmou que é necessário "fazer tudo o que pudermos para impedir o aumento do ódio ao povo judeu", o que inclui "não dar plataforma a pessoas que fazem declarações antissemitas". Já o líder do Reform UK, Nigel Farage, foi mais sucinto: "Pessoalmente, eu não compraria um ingresso."

A repercussão também foi local. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, condenou a contratação, afirmando à BBC que os comentários passados do artista são "ofensivos e errados, e simplesmente não refletem os valores de Londres". O Conselho do Haringey, que administra o Finsbury Park, informou à emissora que os organizadores do festival precisarão garantir que os artistas "não ofendam ou denigram nenhuma raça ou religião."

Kanye West pode ser barrado do Reino Unido?

O Ministério do Interior britânico, responsável pela imigração, não recebeu até o momento nenhuma solicitação de visto de West para entrar no país, de acordo com a mídia local. A secretária do Interior, Shabana Mahmood, tem poderes para banir estrangeiros cuja presença seja considerada contrária ao interesse público.

Caso o visto não seja aprovado, esse não seria o primeiro país em que Ye foi barrado. O rapper teve seu visto da Austrália cancelado em 2025 após o lançamento da música "Heil Hitler". O ministro de Assuntos Internos australiano, Tony Burke, afirmou à rádio pública australiana que "o que não é sustentável é importar ódio".

Phil Rosenberg, presidente do Board of Deputies of British Jews, a maior organização representativa de judeus no Reino Unido, afirmou que a ação do Festival Wireless foi "absolutamente a decisão errada" e pediu ao governo que proibisse West de entrar no país.

Patrocinadores abandonam o Festival Wireless

Após o anúncio de Ye como headliner, a Pepsi, patrocinadora principal do festival, anunciou sua retirada do evento.

Em seguida, o grupo Diageo, dono das marcas Johnnie Walker e Captain Morgan, também parceiros do festival, informou que não patrocinará o Wireless de 2026 "como está". "Informamos os organizadores de nossas preocupações e, como está, a Diageo não patrocinará o festival Wireless de 2026", disse um porta-voz da empresa à BBC.

Na noite de domingo, o site do festival ainda exibia Pepsi, Johnnie Walker e Captain Morgan como parceiros, mas a seção de detalhes dos patrocinadores tinha saído do ar, exibindo no lugar a mensagem "Não há nada para ver aqui."

Histórico de antissemitismo de Kanye West

Kanye West foi, por anos, um dos músicos mais celebrados do hip-hop, com 160 milhões de discos vendidos e 24 Grammys.

O comportamento provocador e a controvérsia sempre fizeram parte da imagem pública do artista, mas a situação se agravou em 2022, quando foi banido das redes sociais após uma série de publicações que violavam as regras das plataformas. As publicações incluíram uma imagem com um símbolo combinando uma suástica e a Estrela de Davi, e a declaração de que iria "DEATHCON 3 nos judeus", uma ameaça de violência.

No mesmo ano, usou uma camiseta com os dizeres "White Lives Matter" durante a semana de moda de Paris, e a Adidas encerrou sua parceria extremamente lucrativa com o rapper por antissemitismo.

Em 2025, o cantor foi ainda mais longe. Declarou-se nazista, retratando um pedido de desculpas anterior, lançou a música nazista "Heil Hitler", que foi banida das principais plataformas de streaming e música, e vendeu camisetas com suásticas em seu site de roupas. O rapper também foi fotografado usando um traje estilo Ku Klux Klan.

Após o turbilhão de ações e falas discriminatórias, West tem feito tentativas de reconquistar o público. Em novembro de 2025, ele se reuniu com o rabino Yoshiyahu Yosef Pinto. Em vídeo publicado pelo escritório do rabino, Ye pediu desculpas por seus comentários antissemitas.

Em janeiro de 2026, o rapper publicou um anúncio de página inteira no Wall Street Journal intitulado "Para aqueles que magoei", no qual afirmou não ser "nazista nem antissemita" e atribuiu seu comportamento ao transtorno bipolar tipo 1. "Quando você está em mania, você não acha que está doente", escreveu. "Perdi o contato com a realidade e me gravite em direção ao símbolo mais destrutivo que pude encontrar, a suástica."

Agora, após o lançamento de seu novo álbum "Bully", Kanye West tenta reconquistar seu antigo espaço nos palcos para apresentar o novo repertório. No entanto, diversas instituições, inclusive brasileiras, mantém seu posicionamento contrário à presença dele em eventos.

Kanye West teve show barrado em São Paulo

Em outubro de 2025, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, vetou um show do rapper que estava marcado para 29 de novembro no Autódromo de Interlagos. "Em equipamento público da prefeitura, ninguém que faça apologia ao nazismo vai tocar ou cantar nem uma palavra", declarou Nunes em nota à Folha de São Paulo.

O prefeito acrescentou que sua gestão "não aceita" esse tipo de manifestação e que tomará todas as medidas necessárias para impedir o uso de espaços municipais por artistas que defendam discursos de ódio. Ao jornal, Nunes disse que não conhecia o cantor antes do anúncio do show e que "fica ruim para a prefeitura alguém assumidamente nazista fazer show em São Paulo".

A produção do show afirmou ter sido "surpreendida com a revogação unilateral do termo de cessão de uso do espaço" e disse estar em contato com a administração do Autódromo para resolver a situação. O evento seria a única apresentação de West no Brasil e marcaria seu retorno ao país após 14 anos, desde o festival SWU, em 2011.

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