Apuração na Colômbia frustra apoiadores de esquerda em 30 minutos

Por Rafael Balago 1 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Apuração na Colômbia frustra apoiadores de esquerda em 30 minutos

BOGOTÁ – Iván Cepeda, candidato à presidência da Colômbia, reservou o salão vermelho do hotel Tequendama, um dos mais clássicos de Bogotá, para celebrar o que parecia ser uma vitória. Todas as pesquisas, feitas uma semana antes, garantiam que ele chegaria em primeiro lugar nesta etapa. Mas o tom de festa já havia perdido força do lado de fora.

Por questões de segurança, havia uma revista rigorosa para entrar no hotel, e a fila que se estendia pela calçada levava mais de meia hora para ser percorrida. Foi o tempo para que a Colômbia apurasse mais de 70% dos votos, entre 16h40 e 17h10, e os números eram claros: Abelardo de la Espriella tomou a frente logo no começo da contagem, e não saiu mais.

Com 98% dos votos apurados, Espriella somava 43% dos votos, ante 41% de Cepeda. Os dois disputarão o segundo turno em 21 de junho.

Na fila, apoiadores de Cepeda olhavam os celulares com apreensão e se surpreendiam com os resultados. Espriella venceu em mais da metade dos departamentos (estados) do país, embora tenha perdido em Bogotá. A diferença final foi de 600 mil votos, e 99% dos votos já estavam apurados às 18h, duas horas após o fechamento das urnas.

Conforme a apuração avançava, um vendedor que oferecia vuvuzelas e bandeiras parou de tocar e resolveu sentar. Alguns apoiadores ainda tentavam estimular os ânimos. "Vamos dar a volta por cima e ganhar no segundo turno", disse uma senhora, enquanto andava ao lado da fila.

Apesar do resultado, o auditório de cerca de mil lugares ficou cheio. Dentro, lideranças destacavam que Cepeda venceu em várias províncias e que a esquerda obteve mais votos neste ano — 9,6 milhões — do que em 2022, quando foram 8 milhões.

"Temos que sair às ruas e ser fortes. Teremos um desafio muito difícil nas próximas semanas", disse uma ativista do partido no palco. O segundo turno será disputado em 21 de junho.

Apuração no QG de Cepeda, em Bogotá: apoiadores do candidato de Petro se decepcionaram neste domingo — Foto: (Rafael Balago/EXAME)

Quem é Abelardo de la Espriella

Espriella, de 47 anos, é advogado e empresário milionário. Ele disputa a primeira eleição e se apresenta como candidato antissistema e patriota.

Ele criou um movimento, chamado Defensores da Pátria, passou a se identificar como tigre e promete uma mão dura para resolver os problemas do país. Espriella tem apoio do senador brasileiro Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Nas últimas semanas de campanha, Espriella cresceu nas pesquisas e se descolou de Paloma Valencia, a candidata da direita tradicional, criticada por não ter encontrado o tom da campanha.

Quem é Iván Cepeda

Cepeda, de 63 anos, é o candidato do presidente Gustavo Petro, o primeiro líder de esquerda a governar o país. Ele defende prosseguir com as reformas para aumentar direitos sociais, como o salário mínimo e o acesso à saúde.

Em 1994, seu pai, o deputado Manuel Cepeda, foi assassinado. Depois disso, ele se engajou na defesa dos direitos humanos e na busca por negociar a paz com guerrilheiros e grupos criminosos, uma estratégia que tem falhado nos últimos anos. Ele é senador desde 2014.

As propostas dos candidatos

A segurança pública é um dos principais temas da eleição. Segundo pesquisa feita pela Invamer/Caracol Noticias, a segurança é a principal preocupação dos colombianos, citada por 40,8%.

A Colômbia vive sua maior onda de violência em uma década. Em 2025, 14 mil pessoas foram mortas no país. Segundo relatório da entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF), 221 a cada 100.000 homens morrem assassinados, quase dez vezes a mais do que no Brasil, que tem taxas em torno de 24,5 homens para cada 100.000. A média mundial é de 8,8.

A campanha também foi marcada por um assassinato. No ano passado, o senador Miguel Uribe, pré-candidato à Presidência, foi morto a tiros ao sair de um evento em Bogotá.

Ao ser eleito, o atual presidente, Gustavo Petro, adotou uma estratégia chamada de "paz total", que previa negociações com grupos criminais e guerrilheiros que voltaram à ativa após o acordo de paz com as Farc, em 2016.

Cepeda quer seguir nos esforços de diálogo e defende que o crime seja combatido via desmonte de suas redes financeiras.

Já Espriella, defende medidas firmes, como construir megapresídios onde os presos se alimentem a "pão e água" e fiquem "dez andares debaixo da terra", bombardear acampamentos de narcotraficantes com aviões americanos e eliminar o tribunal surgido do acordo de paz.

"A segurança é a bandeira principal dos candidatos de oposição, em particular porque têm o argumento de que essa degradação da segurança se deve ao fracasso do programa de Paz Total de Petro", diz Yann Basset, professor de ciência política na Universidade de Rosário, em Bogotá, que estuda a política colombiana há 20 anos.

"Isso afeta diretamente Iván Cepeda como candidato, porque ele foi o cérebro e também a pessoa que colocou em marcha este programa de negociação que, efetivamente, não resultou em nenhuma desmobilização de nenhum grupo", prossegue. "É muito difícil para ele porque toda a sua vida política foi construída sobre a ideia de paz."

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