Barack Obama inaugura centro presidencial de US$ 850 milhões em Chicago
Chicago - Na última sexta-feira, Michelle Obama caminhou pela primeira vez pelos salões do Obama Presidential Center. Embora tenha acompanhado cada etapa da construção, ficou observando tudo em silêncio.
"Ver a quantidade de profissionalismo, arte, amor e cuidado que foi dedicada à criação do que espero que seja um centro que realmente mude a trajetória das pessoas, especialmente dos jovens que cresceram nesta comunidade que chamo de lar", disse ela no fim da tarde desta terça-feira, 16.
A fala fez parte de seu discurso durante a recepção de agradecimento aos colaboradores do projeto, que inaugura a agenda de uma série de solenidades até a abertura oficial ao público, marcada para sexta-feira, 19 de junho, data do Juneteenth, feriado nacional que celebra a emancipação dos escravizados nos Estados Unidos, tornado feriado federal em 2021.
A escolha da data revela, por óbvio, muito sobre as intenções do casal Obama. O centro ocupa 7,7 hectares no Jackson Park, parque histórico do South Side de Chicago desenhado em 1871 por Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux, mesmos criadores do Central Park de Nova York.
É nesse mesmo bairro que Michelle nasceu e cresceu, e onde Barack chegou aos 25 anos, vindo de Nova York, para trabalhar como organizador comunitário contratado por igrejas locais.
"Eu sabia que queria fazer algo significativo com minha vida, queria me envolver com a comunidade e queria ajudar a elevar pessoas que haviam sido esquecidas. Não sabia bem como faria isso, mas esta comunidade me acolheu e me deu uma chance", relembrou ele no evento desta terça-feira.
No South Side, conheceu Michelle, viu as filhas nascerem, lecionou direito na Universidade de Chicago e anunciou sua primeira candidatura num hotel na Lake Shore Drive.
"Quando fui a Washington e quando começamos a fazer campanha pelo país, eu carregava um pedaço desta comunidade comigo o tempo todo", afirmou Obama.
"A maior parte do que foi importante na minha vida é por causa deste lugar e das pessoas daqui, que me ensinaram resiliência, coragem e esperança"
À frente da Obama Foundation desde sua criação em 2014, Valerie Jarrett conduziu o projeto do centro por mais de uma década.
Advogada e empresária de Chicago, foi uma das conselheiras mais próximas do ex-presidente dos Estados Unidos durante os oito anos de Casa Branca e uma das primeiras a reconhecer seu potencial político, ainda nos anos 1990.
Hoje comanda a organização que conta com 235 funcionários que recebeu aportes expressivos, entre eles US$ 125 milhões do fundador do Airbnb, Brian Chesky, para um programa de bolsas de estudo.
Um campus, não uma biblioteca
O complexo, financiado inteiramente com recursos privados e orçado em US$ 850 milhões, não segue o modelo tradicional de biblioteca presidencial.
Aqui, a gestão é da própria Obama Foundation e o acervo presidencial será inteiramente digitalizado pela primeira vez, cobrindo cerca de 30 milhões de páginas. Mais que um edifício, o que se vê no Jackson Park é basicamente um campus.
Uma torre de oito andares abriga o museu. Há também uma filial da Biblioteca Pública de Chicago, uma quadra de basquete com as dimensões oficiais da NBA, um estúdio de gravação, auditório, restaurante e jardim interno.
O paisagismo ampliou o parque com 507 painéis solares, 900 novas árvores, quase 200 mil plantas perenes e 5 mil tulipas doadas pelo consulado holandês. A expectativa é receber 600 mil visitantes por ano na área interna e quase um milhão na externa.
A arquitetura leva a assinatura do renomado casal Tod Williams e Billie Tsien, escolhidos após uma disputa entre seis escritórios. Venceu o projeto que que resultou em um museu cujo formato é inspirado na imagem de quatro mãos unidas.
Visitantes na instalação 'Yes We Can' no Museu do Centro Presidencial Obama, em Chicago, Illinois, em 1º de março de 2026. (The Obama Foundation) (The Obama Foundation)
Arte como fundação política
Trinta artistas de origens diversas foram convidados a criar obras originais para o campus, numa escala inédita para uma instituição presidencial americana. O resultado é uma coleção que mistura escala monumental e encontros inesperados.
Dentro do museu, o percurso vai da história pessoal à história do país. Há exposições sobre os movimentos dos Direitos Civis e do Sufrágio Feminino, ao lado de galerias dedicadas ao legado político do ex-presidente e às iniciativas públicas de Michelle enquanto primeira-dama, incluindo uma vitrine com figurinos históricos.
Há também uma réplica em escala real do Salão Oval como era durante o governo Obama, onde visitantes podem sentar à mesa presidencial.
É uma imagem que hoje carrega um peso extra: desde então, o escritório mais famoso do mundo passou por uma transformação radical, estando quase irreconhecível em relação ao original.
Uma dívida que se paga em espaço público
O South Side que Michelle Obama conheceu na infância tinha parques fechados, lagoas interditadas e poucos recursos. 'A mensagem para mim e para crianças como eu era que não éramos dignos de investimento', disse ela.
"Para ter acesso a parques bonitos, arte e museus, precisávamos pegar um ônibus ou um trem, ou torcer para que nossos pais pudessem pagar o estacionamento no centro da cidade, para entrar em espaços que às vezes nos tratavam como se não fôssemos bem-vindos. Agora temos isto."
Barack Obama encerrou o discurso lembrando os sogros, Marian e Fraser Robinson. Ao seu lado, Michelle usava uma saia estampada com o retrato da mãe, detalhe que o ex-presidente só descobriu momentos antes de subir ao palco.
Fraser acordava cedo todos os dias para trabalhar na estação de tratamento de água perto do Navy Pier, às margens o Lago Michigan. E Marian criou os filhos com pouco dinheiro e muita perspectiva.
"Eles representam para mim o melhor deste país e o melhor dos nossos valores, pessoas que não tentam arrancar cada centavo, que não abrem mão de seus valores, que tratam todos com respeito e gentileza. Gente de raiz", disse Obama.
"E suas vozes não são ouvidas porque temos um conjunto de instituições que sucumbiram ao canto da sereia: tudo é sobre dinheiro, tudo é sobre atenção, tudo é sobre fama", completou. É para essas pessoas, finalizou Obama, que o centro foi construído.
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