'Bets' disputam renda e freiam crescimento da aviação, avalia CEO da Gol
O crescimento da aviação e do turismo no Brasil passa por desafios que vão além do preço das passagens. Para o CEO da Gol Linhas Aéreas, Celso Ferrer, a principal barreira hoje está na renda disponível dos consumidores e na concorrência com novas formas de consumo, principalmente em meio às apostas esportivas com as chamadas "Bets".
Durante o seminário Lide Turismo, realizado nesta quarta-feira, 10, em São Paulo, Ferrer afirmou que os brasileiros perderam 19% da renda nos últimos dez anos, o que reduziu também o espaço no orçamento das famílias para viagens.
"Quando a Gol entrou no mercado para fazer turismo, o sonho era viajar de avião. Hoje continua sendo bom, mas estou disputando com as bets, com as compras online. As pessoas nas comunidades abaixo de quatro salários mínimos passam mais de oito horas na tela sendo estimuladas a fazer outro tipo de consumo mais imediato do que a viagem", afirmou.
Na avaliação do executivo, o setor poderia transportar um número maior de passageiros se não houvesse essa pressão sobre o orçamento das famílias.
"A tarifa de entrada da aviação continua acessível e, historicamente, permanece em um patamar semelhante ao de quando a Gol entrou no mercado, há 25 anos. O problema é que o brasileiro perdeu 19% da renda nos últimos dez anos. Por isso, poderíamos estar voando muito mais. Hoje, a pequena renda de quem entra na aviação disputa espaço com muitas outras formas de consumo", disse.
Crescimento vem dos passageiros que já voam
Apesar dos novos desafios, o executivo vê condições para uma "quarta onda" na aviação comercial brasileira.
Segundo Ferrer, o desenvolvimento do setor ocorreu em diferentes "ondas" de crescimento, cada uma impulsionada por transformações estruturais da aviação. A primeira aconteceu nos anos 2000, quando o mercado ultrapassou a marca de 30 milhões de passageiros transportados por ano, em um período de popularização do transporte aéreo.
Já a segunda veio com a expansão da aviação regional, impulsionada pela entrada da Azul e pelo aumento da conectividade entre cidades brasileiras.
Depois desse avanço, o setor atravessou o que o executivo classificou como uma "década perdida". Entre 2010 e 2020, a aviação ficou estagnada na faixa de 95 milhões a 100 milhões de passageiros anuais, cenário que, segundo ele, também limitou investimentos ligados ao turismo. "Muitos projetos deixaram de ser feitos, muitos hotéis deixaram de ser construídos no Nordeste", afirmou.
Na visão de Ferrer, a retomada do crescimento após a pandemia representa uma terceira onda da aviação brasileira, apoiada em dois fatores principais. O primeiro é a infraestrutura aeroportuária construída ao longo das últimas décadas, que permitiu a formação de hubs e conexões capazes de sustentar a expansão das companhias aéreas.
Enquanto o segundo fator é a mudança no comportamento do consumidor. O CEO da Gol diz que o crescimento atual da aviação não está sendo impulsionado principalmente pela entrada de novos passageiros, mas pelo aumento da frequência de viagens de quem já utiliza o transporte aéreo. "Hoje a aviação cresce voando mais voos daquelas mesmas pessoas que já voaram", afirmou.
"É a pessoa que vai fazer a viagem de incentivo, em que ela conhece o lugar e depois [volta para o mesmo lugar e] vai levar a família, porque conheceu aquele destino".
Para ele, essa próxima onda dependerá de políticas de incentivo e desoneração tributária capazes de ampliar a conectividade aérea e estimular investimentos. Ferrer citou programas estaduais de redução de ICMS sobre o combustível de aviação como exemplos de iniciativas que contribuíram para abrir novas rotas e fortalecer destinos turísticos, mencionando casos como Jericoacoara e Bonito.
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