Carne não, bets: agropecuária vê apostas como ameaça ao consumo

Por César H. S. Rezende 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Carne não, bets: agropecuária vê apostas como ameaça ao consumo

O avanço das plataformas de apostas online no Brasil passou a preocupar o agronegócio, especialmente a indústria de carne bovina. Segundo Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o crescimento das bets já impacta diretamente o consumo interno — peça-chave para sustentar o setor diante de incertezas no mercado externo.

Em conversa com jornalistas nesta terça-feira, 5, Perosa disse que a Abiec e entidades do setor de varejo se reuniram com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) na segunda-feira, 4, para tratar do tema.

Segundo o executivo, o Brasil lidera o acesso global a sites de apostas, com cerca de 2,7 bilhões de visitas mensais, volume superior ao de plataformas como YouTube e WhatsApp. Na avaliação de Perosa, esse fenômeno tem drenado recursos que poderiam estar sendo direcionados à economia real.

O diagnóstico do setor parte de uma mudança no comportamento do consumidor. Segundo o executivo, os dados mostram que, enquanto o varejo de alta renda cresceu, o consumo entre as famílias de menor renda recuou de forma significativa. Com o avanço do mercado de apostas, os temores são de que haja uma eventual queda no consumo de carne pelo consumidor brasileiro.

Segundo dados da Athenagro, consultoria agrícola, com base em informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o consumo doméstico de carne bovina no Brasil, medido em mil toneladas equivalente carcaça (TEC), foi de 8,089 milhões de toneladas em 2024 e de 7,869 milhões em 2025. Para este ano, a estimativa é de leve alta para 7,892 milhões em 2026.

Na mesma linha, a disponibilidade per capita (kg de carcaça por habitante ao ano) — que expressa quanto dessa carne corresponde, em média, a cada brasileiro ao longo do ano — foi de 37,73 kg por pessoa em 2024, 36,46 kg em 2025 e 36,31 kg em 2026.

Segundo dados do Banco Central (BC), R$ 90 bilhões foram direcionados para bets de janeiro a março. Para Perosa, isso indica que o problema não está nos preços dos alimentos, mas na renda comprometida. “Quando o preço cai e o consumo cai junto, o problema não é preço, é renda”, afirma.

Nesse contexto, as apostas online surgem como um dos principais destinos desse dinheiro. Estimativas apontam que os brasileiros gastaram cerca de R$ 300 bilhões com bets, podendo chegar a R$ 600 bilhões em 2026, considerando também o mercado ilegal.

Desde janeiro de 2026, apenas casas autorizadas pelo Ministério da Fazenda podem operar no Brasil, seguindo regras específicas e utilizando o domínio bet.br.

Atualmente, 73 empresas estão autorizadas, somando 162 sites legalizados, além de outras 8 empresas que atuam por decisão judicial, ligadas a 18 marcas.

Estimativas de profissionais do setor apontam que o mercado ilegal representa hoje quase 40% da indústria de apostas no Brasil. No Reino Unido, referência mundial no segmento, esse percentual é de apenas 13%.

“Poderíamos estar expandindo o consumo, mas não estamos porque a pessoa está gastando dinheiro com outra coisa”, diz Perosa.

Apesar do avanço da regulamentação, dados da consultoria Aposta Legal mostram que, nos dois primeiros meses de 2025, o Brasil movimentou cerca de R$ 350 milhões em apostas ilegais, com mais de 30 milhões de acessos a plataformas não autorizadas. O número representa menos de 1% do tráfego total registrado pelo mercado legal.

Exportação de carne

A preocupação ganha ainda mais relevância diante do cenário internacional. O setor de carne bovina projeta uma redução nas exportações para a China no segundo semestre e de 10% nos embarques brasileiros para este ano, o que deve aumentar a dependência do mercado interno.

Sem o crescimento do consumo doméstico, o risco é de excesso de oferta e pressão sobre preços."Se vamos ter uma queda nas exportações, precisamos colocar essa carne no mercado interno”, afirmou Perosa.

Apesar de o consumo não estar em queda, Perosa ressalta que ele poderia estar crescendo em ritmo mais acelerado. “As pessoas têm renda, mas esse dinheiro não está indo para o consumo de alimentos”, diz.

Diante desse cenário, a Abiec, em conjunto com entidades do varejo, passou a defender medidas para reduzir o impacto das apostas sobre a economia.

Entre as propostas estão o bloqueio mais rápido de sites ilegais de apostas, a restrição de publicidade digital em plataformas online, a limitação de jogos de cassino nas plataformas de apostas e o controle de transações financeiras, como o bloqueio de Pix.

“Não queremos acabar com as bets, mas criar restrições”, afirma Perosa. “Se reduzirmos esse volume, parte desse dinheiro volta para o consumo e ajuda a economia a crescer.”

O executivo reconhece, porém, que o tema envolve um forte embate político. De um lado, há pressão por regulação; de outro, interesses econômicos e arrecadatórios. Além disso, o mercado ilegal — que pode ser até quatro vezes maior que o regulado — representa um desafio adicional .

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