Como o governo Trump quer reduzir o uso de antidepressivos nos EUA
O Secretário de Saúde dos Estados Unidos, Robert Francis Kennedy Jr., anunciou nesta segunda-feira, 4, um novo plano para diminuir a perscrição e o uso de medicamentos antidepressivos no país.
A iniciativa é parte de seu programa Make America Healthy Again (MAHA, "Faça a América Saudável de novo", em tradução livre), que se tornou uma das bases da segunda presidência de Donald Trump.
"Medicamentos psiquiátricos têm um papel no tratamento, mas não os trataremos mais como padrão — os trataremos como uma opção, a ser usada quando apropriado, com total transparência e com um caminho claro de saída quando não forem mais necessários", disse Kennedy no evento Mental Health and Overmedicalization Summit, organizado pelo MAHA Institute, de acordo com o jornal The New York Times.
"Deixem-me ser claro: se você está tomando medicação psiquiátrica, não estamos dizendo para você parar. Estamos garantindo que você — e seu médico — tenham as informações e o suporte para tomar a decisão certa para você."
RFK Jr. e a saúde mental
As iniciativas anunciadas nesta semana não surgiram do nada. Desde que assumiu o cargo, Kennedy tem reiteradamente defendido que médicos americanos prescrevem antidepressivos em excesso e que o tratamento para distúrbios mentais precisa ser alterado.
Em sua gestão à frente do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS, na sigla em inglês), uma de suas primeiras medidas foi incorporar a Agência para Abuso de Substâncias e Saúde Mental (SAMHSA) a uma nova estrutura, a Administração para uma América Saudável, que inclui saúde mental entre seus focos prioritários.
Em abril de 2025, a pedido do presidente Donald Trump, o secretário divulgou dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) mostrando que a prevalência de autismo entre crianças americanas saltou de 1 em 36 para 1 em 31, qualificou os números como uma "epidemia" de proporções históricas.
"A epidemia de autismo atingiu uma escala sem precedentes na história humana porque afeta os jovens", disse o secretário em nota oficial do HHS.
Na área de saúde mental e dependência química, Kennedy tem defendido a criação de "fazendas de bem-estar", comunidades rurais de trabalho e recuperação inspiradas na San Patrignano, programa italiano fundado em 1978 que abriga cerca de 850 pessoas em recuperação de vícios.
Ele chegou a comparar o projeto ao Corpo da Paz americano. No entanto, o modelo enfrenta resistência de especialistas médicos. O programa italiano rejeita o uso de medicamentos cientificamente comprovados para o tratamento de dependência de opioides, como metadona e buprenorfina.
"Programas baseados em abstinência falham repetidas vezes, muitas vezes rapidamente", afirmou à NPR o Dr. Robert Heimer, pesquisador de terapias para dependência química da Universidade de Yale.
O próprio diretor médico da San Patrignano, Dr. Antonio Boschini, disse à NPR ser "impossível" escalar com segurança o modelo da comunidade para o nível nacional que Kennedy propõe.
Durante audiência no Senado americano, em 22 de abril, Kennedy também foi questionado sobre declarações anteriores em que teria sugerido que "toda criança negra pode ser reparentada em uma fazenda de bem-estar", afirmação que ele negou ter feito, mas que a NPR confirmou em gravações de podcasts de 2024.
O movimento MAHA
O programa MAHA foi formalizado em 13 de fevereiro de 2025, quando Trump assinou o decreto executivo 14212 criando a Comissão MAHA.
A comissão identificou quatro principais causas da crise de doenças crônicas infantis nos Estados Unidos: alimentação inadequada, com mais de 60% das calorias das crianças provenientes de alimentos ultraprocessados; exposição a substâncias químicas sintéticas; sedentarismo e estresse crônico; o que o governo chama de "sobremedicalização", a tendência de prescrever medicamentos em excesso a crianças, muitas vezes motivada por conflitos de interesse na pesquisa e regulação médica.
O MAHA, porém, não nasceu com Trump.
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Antes de ganhar o apelido inspirado no slogan trumpista Make America Great Again (MAGA, "Faça a América Grande De Novo", em tradução livre), o movimento já existia como uma coalizão informal de grupos em um amplo espectro político.
A sigla abarca desde críticos às vacinas, tradicionalmente alinhados à direita, a defensores da agricultura regenerativa, uma causa mais atrelada à esquerda. Também há adeptos da medicina alternativa e ativistas contra pesticidas, ambas as bandeiras com raízes no movimento hippie do século XX. Outras práticas, como dietas carnívoras e consumo de leite não pasteurizado, também são associadas ao movimento.
O que une todos esses grupos hoje é RFK Jr. e uma desconfiança compartilhada em relação ao governo e às indústrias farmacêutica e alimentícia.
MAHA vs. MAGA
Apesar da aliança política que levou Kennedy a apoiar Trump em agosto de 2024 e a assumir o Ministério da Saúde, a relação entre o movimento MAHA e o governo Trump tem sido marcada por tensões crescentes.
Líderes do movimento relataram ao New York Times que eleitores, em sua maioria mulheres que migraram do campo democrata para apoiar Trump em função de Kennedy, estão "desapontados e desiludidos" com o presidente.
O principal ponto de atrito é o decreto de Trump que amplia a produção de glifosato, herbicida comercializado como Roundup e que alguns cientistas associam ao câncer.
"É muito difícil apoiar um movimento chamado MAHA quando duas coisas opostas acontecem ao mesmo tempo", disse ao NYT Vani Hari, ativista conhecida como "The Food Babe". "É como dizer: 'Sim, podemos comer comida de verdade, mas ela está coberta de Roundup.'"
Outro revés foi a retirada da indicação de Casey Means, médica e influenciadora de bem-estar considerada figura central do movimento, para o cargo de cirurgiã-geral dos EUA. Trump anunciou a retirada da indicação em 30 de abril, após a candidatura emperrar no Senado, onde três republicanos — Bill Cassidy, Lisa Murkowski e Susan Collins — demonstraram reservas em relação à nomeada.
"Arruinaria a alma do MAHA", havia dito Vani Hari à revista The Atlantic, caso Means não fosse confirmada.
Para líderes do movimento, a identidade do MAHA transcende partidos. "A única coisa que importa são as ações, não um partido político", disse ao NYT Zen Honeycutt, fundadora do grupo Moms Across America. Já Leslie Manookian, fundadora do Health Freedom Defense Fund, definiu o MAHA como "um movimento populista de base, que não é liderado por ninguém".
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