Do caos à Copa: como o Haiti tenta manter vivo o futebol em meio à violência das gangues
Quando gangues incendiaram o Centro Goal da Fifa em Porto Príncipe neste ano, não foi apenas um complexo esportivo que virou cinzas. O espaço era um dos principais polos de formação esportiva do Haiti, local de treino de jovens atletas e símbolo de oportunidade em um país marcado por crises sucessivas e violência armada.
Meses antes do ataque, porém, o futebol havia proporcionado ao país um raro momento de celebração.
Com um dos gols de Louicius Deedson, o Haiti derrotou a Nicarágua nas Eliminatórias e garantiu vaga na Copa do Mundo pela primeira vez em mais de meio século. O feito levou milhares de torcedores às ruas de Porto Príncipe, em uma cena incomum em meio ao cenário de instabilidade que domina o país.
“Fazia muito tempo que eu não via os haitianos unidos desse jeito”, afirmou Deedson, de 25 anos, um dos destaques da classificação histórica, em entrevista à CNN.
O feito da seleção ganha ainda mais peso diante das circunstâncias. Sem segurança para atuar em casa, o Haiti precisou treinar e disputar jogos longe do próprio território.
Segundo dados das Nações Unidas, grupos armados controlam entre 80% e 90% da capital haitiana. Áreas que abrigavam importantes instalações esportivas passaram a conviver com confrontos, deslocamentos forçados e presença constante das gangues.
O Estádio Sylvio Cator, principal palco do futebol haitiano e utilizado pela seleção em sua única participação em Copa do Mundo, nos anos 1970, deixou de receber a equipe nacional. Com o agravamento da crise política e da violência após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em 2021, o local passou a servir de abrigo para pessoas que fogem dos ataques armados.
Deedson conhece bem essa realidade. Nascido em Porto Príncipe, no distrito de Tabarre, o meio-campista chegou a atuar em estádios que hoje estão sob domínio de gangues. Para ele, uma das maiores perdas é ver jovens haitianos sem acesso às estruturas que poderiam ajudá-los a alcançar o sonho de defender a seleção.
Atualmente jogador do FC Dallas, da MLS, Deedson deixou o Haiti ainda adolescente para construir carreira e estudar nos Estados Unidos.
“Acho que ir para os Estados Unidos foi a melhor decisão para mim naquele momento”, contou.
Futebol longe de casa
A seleção haitiana é formada majoritariamente por jogadores que vivem fora do país, muitos deles nascidos ou criados no exterior, especialmente na França, onde atuam em clubes europeus.
Mesmo durante a campanha das Eliminatórias, o contexto de violência impediu o Haiti de jogar em casa, treinar em estádios nacionais ou até receber seu treinador francês no país. A preparação para a Copa tem acontecido nos Estados Unidos, principalmente entre Flórida e Nova Jersey.
Entre os poucos atletas que ainda vivem no Haiti está Woodensky Pierre. O jogador é atualmente o único integrante da seleção que atua no campeonato nacional.
Natural de Cité Soleil, uma das regiões mais pobres de Porto Príncipe, Pierre começou a jogar futebol ainda criança, incentivado pelo pai. Como muitos jovens haitianos, enfrentou dificuldades financeiras para seguir na carreira.
“Houve um momento em que achei que nunca chegaria até aqui. As coisas eram muito difíceis, eu não tinha apoio, não tinha nada”, disse o jogador à CNN.
Até hoje, custos ligados ao esporte, como equipamentos, viagens e programas de formação, seguem fora da realidade de muitas famílias haitianas, pressionadas pela crise econômica, desemprego e violência armada.
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