Embraer mira fábrica de jatos na Índia, mas condiciona projeto a 200 pedidos até 2026

Por Caroline Oliveira 10 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Embraer mira fábrica de jatos na Índia, mas condiciona projeto a 200 pedidos até 2026

A Embraer avalia a instalação de uma linha de montagem de jatos regionais na Índia. O plano, que prevê a produção do E175-E1, avião de até 88 assentos, a partir de 2028, ainda depende de avanços nas negociações comerciais e da confirmação de uma encomenda mínima de 200 aeronaves até o fim de 2026, de acordo com o presidente‑executivo Francisco Gomes Neto, em entrevista à Reuters.

O primeiro passo nesse sentido foi dado no início do ano, quando a companhia brasileira e o grupo indiano Adani Defence & Aerospace — uma das principais empresas do setor aeroespacial e de defesa do país — anunciaram um memorando de entendimento (MoU, na sigla em inglês) para estudar a instalação de uma linha de montagem final dos jatos regionais de primeira geração da Embraer na Índia.

A ideia, porém, não é apenas montar o avião: o documento prevê também o desenvolvimento de uma cadeia de fornecedores locais, a criação de um centro de manutenção e serviços e o treinamento de pilotos.

O MoU se insere no programa de Aeronaves de Transporte Regional (RTA) da Índia, que busca incentivar a produção local de aeronaves e ampliar a indústria aeroespacial do país, reduzindo as distâncias entre áreas urbanas e rurais e gerando empregos de alta qualificação. O memorando também reforça o aprofundamento das relações estratégicas entre Brasil e Índia na área de defesa e tecnologia.

Caso avance, o projeto representaria uma mudança relevante na operação brasileira. Hoje, a produção de jatos comerciais da Embraer é concentrada no Brasil. A lógica econômica da iniciativa, porém, depende de escala. Gomes Neto vem repetindo que a linha na Índia só será instalada se houver volume mínimo de 200 aeronaves encomendadas. “É claro que a gente não vai ‘startar’ nenhum investimento relevante se não tiver pedido”, disse o executivo.

Nas projeções da empresa, uma vez tomada a decisão de investimento, seriam necessários cerca de dois anos para preparar a estrutura industrial e iniciar a produção, o que, na prática, empurraria as primeiras entregas em solo indiano para 2028, no cenário mais otimista. “São mais ou menos 24 meses que a gente acha que consegue fazer isso começar a acontecer. Isso está claro, eles sabem disso, está claro para nós”, afirmou Gomes Neto.

O presidente da companhia também afirmou que a Embraer identificou pelo menos 1.800 rotas na Índia que poderiam ser operadas por E1s, jatos com capacidade para até 88 passageiros, que são essenciais para a aviação regional dos Estados Unidos, mas que têm apresentado baixa demanda em outros mercados nos últimos anos.

Hoje, a Embraer tem presença consolidada na Índia, com cerca de 50 aeronaves e 11 modelos em operação nos segmentos comercial, de defesa e de aviação executiva. A implantação de uma linha do E175 representaria uma mudança de patamar, com potencial de criar uma “base para atender mercados vizinhos com esse modelo”, caso as encomendas se concretizem, afirmou Gomes Neto após a assinatura do MoU.

Como um dos mercados de aviação que mais crescem no mundo em termos de tráfego de passageiros, a Índia tem demanda estimada de ao menos 500 aeronaves na faixa de 80 a 146 assentos nos próximos 20 anos.

Atuação no setor militar

A Embraer também avalia oportunidades no setor de defesa. A fabricante brasileira tem parceria com a empresa indiana Mahindra para viabilizar o cargueiro militar C-390 Millennium. Para Gomes Neto, o país é um “mercado estratégico”. Arábia Saudita, União Europeia e Estados Unidos também receberam essa classificação em 2024, mas o executivo afirmou que as perspectivas de um pedido do país do Oriente Médio diminuíram recentemente. Atualmente, a companhia tem concentrado seus esforços na Índia e nos Estados Unidos.

As ações da Embraer operam em alta no pregão da B3 desta segunda-feira, 9. Por volta de 13h19, os papéis EMBR3 eram negociados a R$ 81,40, alta de 1,57% em relação ao fechamento anterior, de R$ 80,14. Durante o pregão, a ação abriu a R$ 79,97, chegou a mínima de R$ 77,74 e atingiu a máxima de R$ 81,63, refletindo o otimismo do mercado com a possibilidade de expansão da companhia em novos mercados globais.

Para que esse otimismo se consolide, será necessário transformar projeções em contratos. As negociações com companhias aéreas indianas e com o governo local vão definir se a fábrica do E175 na Índia será um novo capítulo de expansão internacional ou apenas mais um plano travado pela falta de pedidos.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: