Esther Perel para o SP2B: o que o mundo perdeu, o Brasil ainda mantém
O grande nome anunciado para o SP2B em agosto no Ibirapuera é Esther Perel. E quem estava na SP House, em Austin, entendeu o porquê.
Esther, belga da Antuérpia, não é do mundo da tecnologia. É terapeuta, escritora best-seller, e provavelmente uma das pessoas mais relevantes do planeta quando o assunto é o que mantém as relações humanas de pé — dentro de casamentos, dentro de empresas, dentro de culturas inteiras.
Trazê-la para um evento de inovação é uma declaração de intenção. Rafael Lazarini, fundador da DA20 e idealizador do SP2B, explicou que não quer fazer mais um evento sobre o futuro da tecnologia.
Quer fazer um evento sobre o futuro das pessoas.
A escolha tem história. No ano anterior, o SP2B trouxe como prévia Yuval Harari.
Ele encerrou com um alerta que ficou mexeu com a sala: sem confiança reconstruída — entre pessoas, dentro das organizações, na sociedade — não há tecnologia que resolva o que vem por aí.
A pergunta que ficou no ar foi quem continua essa conversa. A resposta foi Esther Perel.
No palco da SP House, ao lado de Hugh Forrest, curador que ajudou a construir o SXSW ao longo de 35 anos, a conversa foi abrindo o terreno.
Forrest falou sobre por que os encontros presenciais só se valorizam quando o mundo acelera.
Lazarini perguntou sobre ansiedade, sobre solidão, sobre o paradoxo de estarmos mais conectados e mais esgotados ao mesmo tempo.
E então veio Esther. Que foi direta sobre confiança e redefiniu o conceito de um jeito que poucos líderes estão preparados para ouvir. “A confiança é o que você precisa para fechar a distância entre suas expectativas e seus sonhos. A confiança é sempre uma necessidade de fé.”
Sem processo. Sem política de RH. Arquitetura relacional pura. Algo que se constrói por dentro, ou não se constrói.
Esther falou sobre o que os líderes precisam fazer agora: criar espaço para que as pessoas expressem suas angústias sem medo. O medo de se tornarem obsoletas.
A ansiedade diante de um mercado que muda mais rápido do que qualquer reconversão profissional consegue acompanhar.
Sem esse contêiner, disse ela, as organizações fragmentam. E fragmentadas, não enfrentam nada.
Mas foi quando Lazarini perguntou sobre o Brasil que a conversa ganhou outro tom.
Esther afirmou que o Brasil e os países ao redor ainda têm acesso a algo que os Estados Unidos perderam, e que não deveríamos tentar nos tornar outra sociedade.
Esther desmontou a armadilha das soft skills, conceito americano que celebra habilidades relacionais no discurso e as ignora na prática.
Citou o ritmo como inteligência cultural — a capacidade de calibrar a velocidade certa para que a mudança seja absorvida sem destruir o tecido ao redor.
Algo que o mundo ocidental foi eliminando sem perceber o que estava perdendo.
Deu um diagnóstico sobre o que o Brasil arrisca perder se continuar pedindo desculpa pelo que é.
Nosso país, disse ela, preservou algo que culturas mais pragmáticas foram descartando: a vivacidade, o encontro sem pauta, a conversa sem entregável, o imprevisto como recurso.
E disse, sem romantismo, que é exatamente isso que o mundo está tentando se reconectar.
O brasileiro já carrega isso. Só não sabia que tinha valor.
Em agosto, Esther vem ao Ibirapuera lembrar.
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