‘Eu acredito no Brasil, apesar dos juros’, diz Luiza Helena Trajano
Luiza Helena Trajano não separa discurso de prática. Aos 12 anos, começou a trabalhar na loja da família em Franca, interior de São Paulo, e, desde então, construiu, junto com os tios, uma das maiores varejistas do país com base em um princípio simples: proximidade com as pessoas.
Hoje, após liderar por décadas a companhia, Trajano está à frente do conselho do Magazine Luiza, e segue defendendo o mesmo modelo - agora adaptado a um Brasil mais digital, competitivo e, ao mesmo tempo, desafiador.
“Eu amo esse país. Eu acredito nele. Não gosto dos juros, mas eu amo o Brasil”, diz Trajano, em entrevista ao podcast De Frente com CEO, da EXAME.
A frase resume bem o momento atual: confiança no potencial do país, mas com ressalvas claras sobre o ambiente econômico, especialmente o impacto dos juros elevados sobre o consumo e o crédito.
Veja a entrevista completa de Luiza Helena Trajano, ao "De frente com CEO", da EXAME:
Da loja de bairro ao ecossistema digital
A trajetória da empresária começa cedo e sem um plano formal de carreira. O que existia era vocação. “Eu vi, e os meus tios viram, que eu tinha jeito de ser vendedora, de gostar de gente, de atender”, afirma.
Sem seguir um roteiro tradicional, Trajano passou por diferentes funções, de vendedora a gerente, até assumir a liderança da companhia. Um dos marcos de sua gestão foi antecipar tendências: ainda nos anos 1990, apostou em lojas eletrônicas e, mais tarde, na integração entre físico e digital.
Hoje, o Magazine Luiza é um ecossistema que combina varejo tradicional com tecnologia, marketplace e serviços digitais. A estratégia inclui marcas como Netshoes, Estante Virtual e Época Cosméticos, além de iniciativas mais recentes como inteligência artificial e atendimento automatizado.
“Queremos e vamos estar onde o consumidor quiser, a gente sempre acreditou nisso”, diz.
Juros altos e o desafio de empreender no Brasil
Apesar da evolução do ambiente empreendedor, Trajano é direta ao falar dos entraves sobre empreender hoje no país.
“Hoje enfrentamos no Brasil juros de 15% e a burocracia ainda muito grande”, afirma a empresária.
Ao mesmo tempo, ela reconhece avanços importantes, especialmente para pequenos e médios negócios. Programas como o Simples Nacional, maior acesso à capacitação e expansão do crédito ampliaram as oportunidades.
“Eu acho que está muito mais fácil, porque a gente teve muitas conquistas, mas ainda luto muito por crédito”, diz a empresária que reforça os desafios.
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Resultados sob pressão: o impacto da Selic no Magalu
O contexto macroeconômico ajuda a explicar o desempenho recente da companhia. Em 2025, o Magazine Luiza registrou receita líquida de R$ 38,7 bilhões, alta de 1,7% no ano, com crescimento puxado principalmente pelas lojas físicas, que superaram R$ 20 bilhões em vendas pela primeira vez.
O Ebitda ajustado somou R$ 3,06 bilhões (+3,4%), enquanto o lucro líquido ajustado caiu 42,6%, para R$ 158,9 milhões.
O principal fator de pressão foi o custo financeiro: as despesas cresceram mais de 30% no ano, refletindo a Selic em 15% - o maior patamar desde 2006. Ainda assim, a empresa manteve geração de caixa robusta, com R$ 2,7 bilhões no acumulado do ano.
A estratégia, segundo o balanço da companhia, tem sido priorizar rentabilidade e eficiência, enquanto prepara um novo ciclo focado em tecnologia e inteligência artificial.
Empreendedorismo como causa, e não só negócio
Para Trajano, empreender vai além de abrir empresas. É também uma ferramenta de transformação social.
Esse pensamento está por trás de iniciativas como o Grupo Mulheres do Brasil, projeto que defende causas sociais fundado por ela em 2013, que hoje reúne cerca de 140 mil participantes no país e no exterior.
“O grupo nasceu dessa crença nossa que a sociedade civil organizada pode fazer muita coisa”, afirma.
Além disso, ela aposta no marketplace como motor de inclusão produtiva.
“É muita oportunidade para as pequenas e médias empresas poderem ter visibilidade”, diz.
Outra frente recente é a criação de comunidades de empreendedorismo feminino, com foco em troca de experiências, capacitação e crescimento de negócios, como a “Comunidade Seller Mulheres de Negócios de Luiza”, lançada no último ano, e o “Summit Mulheres nas Profissões” que será realizado em agosto deste ano.
“Vamos fazer o primeiro Summit de profissões só para as mulheres no dia 4 e 5 de agosto, no Expo Center Norte, em São Paulo”, afirma Trajano. “Precisamos de mais mulheres no alto nível”.
A expectativa em um ano de eleição
Em um ano de eleição, Trajano evita fazer previsões sobre cenários políticos específicos, mas deixa clara a sua expectativa para o país: mais direção e menos divisão.
Para a empresária, o Brasil precisa aproveitar esses momentos de decisão para olhar além do curto prazo e construir um projeto consistente de futuro, um planejamento estratégico nacional que vá além dos ciclos eleitorais.
“Eu queria que a gente tivesse um planejamento estratégico para os próximos 10, 12 anos no Brasil, de educação, de sustentabilidade, de negócios”, afirma.
Ao mesmo tempo, chama atenção para o excesso de polarização. “Sempre vai ter divisão, mas precisamos de menos divisão no mundo”, diz.
Mais do que nomes ou partidos, Trajano reforça a importância de compromisso com causas estruturais. “Espero um país onde as pessoas tenham compromisso com as causas”, afirma.
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Luiza Trajano, da Magazine Luiza: “Eu queria que a gente tivesse um planejamento estratégico para os próximos 10, 12 anos no Brasil, de educação, de sustentabilidade, de negócios” (Leandro Fonseca /Exame)
O Brasil como uma “startup”
Ao olhar para o país, Trajano enxerga um traço que considera decisivo: a capacidade de adaptação.
“O povo brasileiro tem muito esse perfil de startup, de se adaptar rapidamente”, diz.
Para ela, esse “jogo de cintura” é uma vantagem competitiva, especialmente em um cenário global mais instável e dinâmico.
Para o futuro próximo, a prioridade é consolidar as transformações recentes, especialmente no digital e na integração do ecossistema.
“A gente precisa agora consolidar tudo isso que a gente fez”, diz.
Isso inclui avanços em inteligência artificial, novas experiências físicas e a expansão de serviços digitais, mantendo o modelo híbrido que combina loja física e online.
Entre juros altos e oportunidades crescentes, fica a síntese da empresária: no Brasil, empreender nunca foi fácil, mas, para quem acredita, continua sendo possível.
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