'IA sustenta o que mantém o gaming relevante': VP da Nvidia explica a mudança de protagonismo
Existe uma ironia no centro da estratégia de gaming da Nvidia que Tim Bender, vice-presidente de vendas e consumo global da empresa, não só admite como usa como argumento de venda. O segmento que, durante décadas, foi o motor responsável pelo core que guiu as principais inovações da empresa representa hoje uma fatia significativamente menor da receita total. A explosão da demanda por chips de inteligência artificial fez da Nvidia uma das empresas mais valiosas do mundo, mas colocou o gaming numa posição que, no organograma financeiro, parece menos importante do que já foi.
Bender chegou na gamescom latam, a principal feira de games da América Latina, realizada em São Paulo, com uma resposta para essa contradição. "O irmão mais velho, GeForce, foi o herói da família por muito tempo. Agora, os outros membros da família cresceram, se tornaram mais fortes, estão tendo seu momento ao sol, crescendo, e estamos orgulhosos dessa família", disse ele, usando a metáfora para descrever as divisões da empresa.
O argumento que se segue é mais estratégico do que afetivo: a ascensão da IA dentro da Nvidia financia um nível de pesquisa e desenvolvimento que, segundo o executivo, beneficia diretamente os jogadores. "Nunca tínhamos conseguido fazer o tipo de pesquisa e desenvolvimento no nível em que estamos hoje. Éramos apenas uma empresa de jogos. Então, é uma grande conquista para nós”.
Os números de mercado ajudam a entender porque Bender pode se dar ao luxo de narrar a própria queda relativa com tranquilidade. No segmento de GPUs para desktop, a Nvidia encerrou 2025 com 94% de participação de mercado, segundo dados da Jon Peddie Research, o maior índice já registrado. A AMD, principal concorrente no segmento, chegou ao quarto trimestre com apenas 5% de participação, o menor patamar da história da empresa ou de sua antecessora, a ATI Technologies.
No mercado de aceleradores de IA, onde a verdadeira disputa por receita acontece hoje, a empresa detém cerca de 85% do mercado global, com a AMD acumulando apenas 7% após crescimento lento ao longo de 2025. É uma posição que transforma qualquer conversa sobre "divisão menor" em um exercício de perspectiva: menor em proporção, sim — mas sobre uma base de dominância que a indústria raramente viu.
No entanto, apesar de hoje não figurar no topo da lista de prioridades das empresas, os gamers ainda desfrutam de uma seara de inovações proporcionadas pelos avanços da IA. O principal deles, dadas as ressalvas que a comunidade de jogadores levanta, é o DLSS, tecnologia que permite ampliar as capacidades dos chips gráficos simulando com IA recursos com mais quadros em cena, facilitando o aumento de resoluções.
No caso mais recente, no DLSS 4.5 consegue gerar até 23 dos 24 pixels exibidos em tela, uma proporção que causou estranhamento e levou à associação com a chamada "alucinação de IA" — o fenômeno em que modelos de linguagem inventam informações — que apareceu de forma espontânea nas comunidades online. Rapidamente, a novidade tecnológica virou meme e sua adoção é esperada com cautela.
Mas Bender não vê o mesmo cenário. "O que estamos tentando fazer é criar a representação mais realista possível por meio da física, enquanto aceleramos o processamento computacional em um jogo". A diferença, na prática, é que o sistema aprende e melhora com mais dados reais e os resultados são verificáveis quadro a quadro, ao contrário de um texto gerado com fatos incorretos. "É como nós: quanto mais experiência, melhor fica."
Ao final da conversa, ele mencionou que o estúdio brasileiro Mad Mimic adicionou as funcionalidades de DLSS ao jogo Super Tacky Astro Ranger em 20 minutos. “No início, todos pensaram que estávamos loucos. Mas Jensen [Huang] enxergou a oportunidade, percebendo que o hardware tinha suas limitações e que a única maneira de continuarmos a aprimorar a experiência de jogo seria por meio de uma aplicação de IA usando ray tracing”.
O Brasil nos planos da Nvidia
O Brasil passou a ocupar posição mais relevante nos planos da empresa. Historicamente visto como mercado de adoção tardia, o país agora acompanha lançamentos globais com menor defasagem. “No primeiro dia, os consumidores querem o hardware mais recente”, disse Bender.
A Nvidia abriu uma estrutura jurídica local e transformou o país em hub para a América Latina. O movimento acompanha o crescimento da base de jogadores, especialmente no mobile, segmento que a empresa não atua diretamente, mas considera porta de entrada para plataformas mais avançadas.
O GeForce Now, serviço de jogos via nuvem, aparece como elo entre dispositivos. Disponível em PCs, Macs e celulares, ele integra a estratégia de longo prazo que aposta em processamento distribuído entre nuvem e hardware local.
No curto prazo, porém, há entraves. A alta no preço da memória RAM, que subiu cerca de 41% no fim de 2025, segundo a TrendForce, pressiona custos e impacta o consumidor final. Executivos discutem com varejistas formas de absorver parte desse aumento para manter o ritmo de vendas.
O horizonte mais amplo envolve a chamada IA na borda, termo para processamento local em dispositivos. A Nvidia projeta GPUs capazes de rodar assistentes pessoais diretamente no computador, reduzindo dependência da nuvem e ampliando privacidade.
A tese não é exclusiva: empresas como Intel e Qualcomm seguem a mesma direção. Se consolidada, pode redefinir o papel do gaming dentro da Nvidia, não mais como principal fonte de receita, mas como laboratório e interface direta com o usuário final.
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