O azar da Azzurra: por que a Itália ficou de fora das últimas três Copas do Mundo

Por Tamires Vitorio 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O azar da Azzurra: por que a Itália ficou de fora das últimas três Copas do Mundo

Eram 23h07 do dia 9 de julho de 2006 quando Fabio Grosso bateu o último pênalti da final da Copa do Mundo na Alemanha e transformou o Olympiastadion de Berlim em um caldeirão azul.

A Itália havia superado a França na decisão e conquistado seu quarto título mundial, encerrando a noite mais dramática do futebol daquela década, uma partida em que Zinedine Zidane abriu o placar com uma cavadinha, Marco Materazzi empatou de cabeça e os dois protagonizaram, no minuto 110 da prorrogação, a cabeçada mais famosa da história do esporte.

A França perdeu nos pênaltis por 5 a 3, com David Trezeguet errando o seu chute.

Ninguém imaginava, naquela noite, que aquela seria a última vez que a Itália ergueria uma taça de Copa do Mundo. Ou que, menos de vinte anos depois, a Azzurra se tornaria o único tetracampeão da história do torneio a não se classificar para o mundial em três edições consecutivas.

Em 31 de março deste ano, em Zenica, na Bósnia-Herzegovina, Esmir Bajraktarević converteu o pênalti decisivo e eliminou a Itália do playoff europeu para a Copa do Mundo de 2026.

O resultado foi 1 a 1 no tempo regulamentar e na prorrogação; nos pênaltis, a Bósnia venceu por 4 a 1. Do banco, Gennaro Gattuso (campeão mundial como jogador justamente em 2006) assistiu, desta vez com a faixa de técnico no peito, à consumação do que o futebol italiano teme chamar pelo nome: colapso.

2010 e 2014: os primeiros sinais

A queda não foi imediata. A Itália chegou à Copa de 2010 na África do Sul como campeã mundial em exercício e terminou a fase de grupos em último lugar.

Foram dois empates consecutivos — 1 a 1 contra o Paraguai e 1 a 1 contra a Nova Zelândia — e uma derrota de 3 a 2 para a Eslováquia na rodada decisiva, eliminação melancólica para uma seleção acostumada às semifinais.

Quatro anos depois, no Brasil, o padrão se repetiu. A Itália venceu a Inglaterra na estreia, mas perdeu por 1 a 0 para a Costa Rica e por 1 a 0 para o Uruguai, com gol de Diego Godín na reta final, e foi eliminada na fase de grupos pela segunda Copa seguida.

Eram sinais. O país que havia participado de todas as Copas do Mundo entre 1958 e 2014, uma série de 14 edições consecutivas, começava a rachar por dentro.

2018: a Suécia e o silêncio de Buffon

O que veio depois não teve precedente moderno.

Na repescagem europeia para a Copa da Rússia, a Itália encontrou a Suécia. A seleção italiana não marcou em nenhuma das duas partidas e foi eliminada com uma derrota de 1 a 0 no placar agregado. Era o fim de uma era.

Vice-campeão

Eliminado no mata-mata

Fase de grupos

Gianluigi Buffon se despediu da seleção entre lágrimas em Milão, numa cena transmitida ao vivo para o mundo inteiro. A qualificação havia sido marcada por conflito interno. O técnico Gian Piero Ventura enfrentou críticas pesadas por suas escolhas de elenco.

Uma das imagens mais marcantes da campanha foi a reação do meio-campista Daniele De Rossi quando foi chamado para aquecer durante o segundo jogo, com a Itália perdendo por 1 a 0: "Por que diabos eu vou entrar?", ele respondeu à comissão técnica. "A gente não precisa de empate. Precisa vencer."

2022: a Macedônia do Norte e o vexame mais improvável

Roberto Mancini assumiu o comando, reformulou o time e conduziu a Itália ao título da Eurocopa de 2020, realizada em 2021 por conta da pandemia da covid-19. A seleção montou uma sequência de 37 jogos de invencibilidade. O otimismo voltou.

Mas a Copa do Mundo de 2022, no Catar, ficou mais uma vez fora do alcance. Na fase de grupos das eliminatórias, a Itália não perdeu nenhuma partida, mas acumulou quatro empates nos últimos cinco jogos e terminou atrás da Suíça, caindo novamente para a repescagem.

No playoff, o adversário era a Macedônia do Norte, então no 66º lugar do ranking da Fifa. A Itália não conseguiu marcar apesar de 32 finalizações durante os 90 minutos, e uma derrota de 1 a 0 decretou a segunda eliminação consecutiva.

Em 24 de março de 2022, a Itália sofreu sua primeira derrota em casa em um jogo eliminatório para a Copa do Mundo. E contra uma seleção que jamais havia disputado um Mundial.

2026: Bósnia, pênaltis e o recorde que ninguém queria

Para a Copa de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, a UEFA expandiu o número de vagas da Europa de 13 para 16.

A Itália, mesmo assim, não conseguiu passar. Nas eliminatórias, a seleção venceu todos os jogos do grupo menos dois — ambos contra a Noruega, incluindo uma derrota por 4 a 1 em novembro de 2025 —, o que a deixou em segundo lugar, novamente enviada para a repescagem.

Em Zenica, a situação foi complicada. Moise Kean abriu o placar com uma finalização precisa de fora da área. Mas o zagueiro Alessandro Bastoni foi expulso aos 42 minutos, e a Bósnia empatou aos 79 minutos com Haris Tabaković, que completou para as redes após Donnarumma defender a cabeçada de Džeko quase em cima da linha.

Nos pênaltis, a Itália errou o primeiro e o terceiro chutes, enquanto a Bósnia converteu os quatro que precisou.

A Itália se tornou o primeiro ex-campeão mundial a ficar de fora de três edições consecutivas do torneio.

A crise que vem de dentro

As eliminações em campo são sintomas de algo mais profundo. Em relatório publicado após deixar o cargo, o então presidente da Federação Italiana de Futebol (FIGC), Gabriele Gravina, escancarou os números.

A Série A é a liga mais internacionalizada da Europa: 67,9% dos seus jogadores são estrangeiros, segundo o CIES Football Observatory. Em comparação, na Espanha esse índice chega a 39,6% dos minutos jogados; na França, a 48,3%.

Nos clubes italianos, sobra cada vez menos espaço para o desenvolvimento de talentos locais.

A Itália ocupa o 49º lugar entre 50 ligas monitoradas no percentual de minutos disputados por jogadores sub-21 elegíveis para a seleção nacional — apenas 1,9%. O dado coloca o país na lanterna do desenvolvimento de talentos entre as grandes nações do futebol europeu.

Entre os 50 melhores centros de formação do mundo em volume de receitas geradas com transferências na última década, apenas dois são italianos: Atalanta e Juventus. A Espanha, a França,

Portugal e a Inglaterra figuram com muito mais representação.

Itália: seleção tetracampeã ficou de fora da Copa de 2026 (Imagem gerada por IA)

"A vitória em 2006 cobriu e escondeu os limites que o sistema nacional já tinha em termos de estruturas e preparação. Não depositamos confiança suficiente em jovens promissores, e os clubes investiram pouco em planejamento de longo prazo", afirmou o ex-goleiro Marco Amelia, que esteve no banco em 2006.

A Série A é considerada uma das ligas mais táticas do mundo, o que leva os técnicos a preferirem jogadores experientes — frequentemente estrangeiros — em vez de apostar em jovens ainda em formação. O resultado é um círculo vicioso: menos minutos para jogadores italianos nos clubes, menos experiência acumulada, menos opções para a seleção.

"Ainda não acreditamos — que estamos fora e que aconteceu desta forma", disse o zagueiro Leonardo Spinazzola após a eliminação para a Bósnia. "É perturbador para todos nós. Para nós, para nossas famílias, e para todas as crianças que nunca viram a Itália em uma Copa do Mundo."

A frase condensa o tamanho da ruptura geracional. Uma criança nascida em 2012 já tem 14 anos e nunca assistiu à seleção italiana em um Mundial. A próxima Copa será em 2030 — e não há garantia de que a Itália estará lá.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: