O CLT virou proposta. E o jovem está dizendo não
Um jovem de dezenove anos abre o aplicativo de notas do celular e faz uma conta simples. De um lado, a proposta de CLT que acabou de receber: salário de entrada, horário fixo, gestor que ele ainda não conhece, e a promessa vaga de que “tem espaço para crescer”. Do outro, o que ele ganharia entregando por aplicativo, vendendo pelo Instagram, em plataformas de e-commerce ou prestando serviço por conta própria.
A conta é parecida. E aí ele faz a pergunta que tira o sono de quem contrata: por que eu aceitaria a carteira assinada?
Esse jovem não é uma exceção. Ele é o retrato de uma geração que mudou a régua com que avalia o trabalho — e o mercado ainda não entendeu por quê.
Os números explicam, e vêm de duas fontes que se complementam. O Banco Central, olhando especificamente para transporte e entrega ao longo de uma década, mostrou que entre 2015 e 2025, enquanto a população ocupada do país cresceu cerca de 10%, o número de trabalhadores por aplicativo subiu 170% — de 770 mil para 2,1 milhões de pessoas. O IBGE, num recorte mais amplo e recente, que inclui também serviços gerais e profissionais, contabiliza 1,7 milhão de pessoas trabalhando por plataforma, um avanço de 25% em apenas dois anos.
Recortes diferentes, mesma direção: não é um fenômeno de margem, é uma rota de entrada que se tornou estrutural.
E o detalhe que muda tudo: o próprio Banco Central modelou que, sem as plataformas, boa parte de quem hoje trabalha por aplicativo teria buscado emprego sem sucesso e estaria desempregada. Ou seja, a maior parte não saiu de um posto formal. Veio de fora da força de trabalho, gente que o mercado formal de entrada simplesmente não estava conseguindo absorver, formar e reter.
É essa a paisagem em que a nova geração cresceu. Ela é a primeira que viu, em tempo real, que existe vida econômica fora do contracheque formal.
Não idealiza o CLT como destino único porque viu o pai, a mãe ou o irmão mais velho trabalhar a vida inteira registrado e chegar ao fim do mês no mesmo lugar. E viu, ao lado, o conhecido que entrega, o que vende online, o que edita vídeo para três clientes, o que monta loja na Shopee.
O emprego formal de entrega não é, automaticamente, o melhor negócio
Não estou dizendo que essas alternativas são melhores. Estou dizendo que elas existem, são visíveis, e reescreveram o que o jovem considera uma boa proposta.
Quem entra no mercado hoje olha para esse cenário e tira uma conclusão fria, que muita empresa ainda não quis ouvir: o emprego formal de entrada não é, automaticamente, o melhor negócio.
E os dados dão razão a ele. Um diagnóstico recente do Ministério do Trabalho sobre a inserção produtiva dos jovens aponta que 84% dos jovens ocupados estão em funções generalistas, sem exigência de qualificação, e que a maioria ganha até um salário e meio. As duas maiores ocupações de jovens no país são balconista e escriturário — juntas, mais de dois milhões de pessoas.
Esse é o CLT real que se oferece à maior parte da juventude: baixo, repetitivo, sem trilha clara de crescimento.
Quando esse é o desenho, a pergunta deixa de ser ingrata e passa a ser óbvia.
Atenção, porque aqui mora o ponto que separa a leitura preguiçosa da leitura honesta.
Eu não estou romantizando a informalidade. Ela é, em boa medida, uma enorme armadilha, e eu defendo isso sempre. Inclusive, um dos capítulos do meu livro, “O Mundo É Seu, Mas Calma Lá!”, é dedicado a isso.
O mesmo IBGE mostra que 71% dos trabalhadores de plataforma estão na informalidade, contra 44% do restante da população ocupada, e que só cerca de um terço deles — 35,9% — contribui para a Previdência. Entre os entregadores de moto, a informalidade chega a 84%.
É trabalho sem rede, sem 13º, sem férias, sem aposentadoria, muitas vezes com jornada mais longa e renda por hora menor. Quem defende esse modelo como libertação está vendendo um futuro incerto embrulhado em discurso de autonomia. O jovem que aposta tudo nisso pode estar trocando a gaiola visível do CLT ruim por uma gaiola invisível que só vai sentir aos quarenta anos.
Mas, e este é o nó que o mercado precisa desatar, a juventude percebeu uma coisa que muita empresa ainda não percebeu: se as duas opções parecem ruins, ela tende a escolher a ruim que pelo menos entrega alguma liberdade e um resultado imediato aparentemente melhor.
É exatamente por isso que esse jovem ficou crítico, não preguiçoso. Ele não está fugindo do trabalho formal. Está cobrando que o trabalho formal justifique a própria existência.
Quando a pesquisa que o CIEE realizou em parceria com o Instituto Locomotiva, ouvindo quase 9 mil jovens de todo o país, em abril de 2026 (margem de erro de 1 ponto percentual), mostra que 54% colocam oportunidade de crescimento à frente de salário na hora de escolher uma empresa — e que esse fator ganha ainda mais força quando o jovem precisa eleger um único motivo decisivo —, não estamos diante de frescura de geração mimada.
Carteira assinada vale com coisas que a informalidade nunca vai entregar
Estamos diante do cálculo de quem entendeu que, se for para ganhar pouco de qualquer jeito, que seja num lugar que ofereça o que a entrega, o bico e a venda online não oferecem: trajetória, aprendizado, um chefe que ensine, um ambiente que não adoeça e a chance concreta de estar melhor daqui a três anos.
O CLT, para essa geração, deixou de ser destino e virou proposta. E proposta se aceita ou se recusa.
A carteira assinada só ganha valor quando vem acompanhada das coisas que a informalidade nunca vai entregar: desenvolvimento real, ambiente saudável, valores reconhecíveis, liderança preparada e a sensação de que o primeiro emprego não é um beco sem saída.
Tire isso da equação e o CLT perde para o aplicativo. Não porque o aplicativo seja melhor, mas porque, pelo menos ali, o jovem não precisa fingir que enxerga futuro onde só existe sobrevivência.
A pesquisa CIEE/Locomotiva mostra esse preço com clareza: 98% dos jovens sonham em trabalhar numa empresa que invista no desenvolvimento deles, e 7 em cada 10 dizem que não trabalhariam em um lugar cujos valores não reconhecem.
Eles estão dizendo, em alto e bom som, o valor pelo qual abrem mão da flexibilidade. E o mercado continua tentando contratar como se esse valor fosse só o salário.
Há uma ironia que precisa ser dita.
A mesma empresa que reclama que o jovem não valoriza o CLT é, muitas vezes, a que oferece o CLT em sua pior versão: vaga sem plano de carreira, gestor despreparado, jornada que consome o dia inteiro, cobrança alta, escuta baixa e salário que mal cobre transporte, alimentação e vida básica.
Esse CLT não está competindo com nada glamuroso. Está competindo com aquele jovem de dezenove anos e o aplicativo de notas que falei no começo — e, no curto prazo, está perdendo.
Quando a alternativa informal, mesmo sendo pior no longo prazo, ganha essa comparação, o problema não é o jovem. É a proposta.
O recado para quem contrata é desconfortável, mas libertador para quem entender primeiro.
O jovem brasileiro não está desvalorizando o trabalho formal. Está exigindo que ele seja melhor do que a alternativa. E a alternativa, hoje, oferece liberdade. Então o CLT precisa oferecer o que a liberdade sozinha não entrega: futuro.
A empresa que entender isso não vai disputar jovem no grito, na nostalgia ou no discurso de “no meu tempo era diferente”. Vai disputar com trajetória, desenvolvimento, bons líderes e um motivo real para ficar.
O jovem fez a conta.
A pergunta que sobra não é por que ele recusa o CLT. É se a sua empresa oferece um CLT que valha a pena aceitar.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: