O que guia (e preocupa) os CEOs brasileiros em 2026

Por Layane Serrano 20 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que guia (e preocupa) os CEOs brasileiros em 2026

Em um cenário marcado por incertezas políticas, conflitos globais, avanço acelerado da inteligência artificial e pressão crescente por resultados, a agenda dos líderes empresariais brasileiros para 2026 revela uma mudança clara de prioridades: menos otimismo, mais foco na execução.

É o que mostra a pesquisa “As prioridades da alta liderança para 2026”, da ANK Reputation, que ouviu 125 executivos (entre CEOs, conselheiros e C-levels) de empresas de 24 setores da economia. Se em 2025 havia mais confiança no ambiente de negócios, agora o tom é de cautela. A parcela de líderes que espera um ano melhor caiu de 80% para 58%, segundo o estudo.

Para Anik Suzuki, CEO da ANK Reputation, a mudança reflete um ambiente mais complexo e desafiador.

“O contexto eleitoral e questões internas como ajuste fiscal, juros elevados e instabilidade institucional, somados ao cenário internacional volátil, decorrente das disputas comerciais e conflitos geopolíticos, alimenta projeções de maiores dificuldades para entregar resultados e assegurar crescimento”, afirma.

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Pessoas e IA no topo da agenda

Mesmo diante das turbulências, duas prioridades seguem inegociáveis: gente e tecnologia.

O desenvolvimento de pessoas, retenção de talentos e sucessão lidera a lista de frentes inadiáveis, com 74% das menções.

Logo atrás vem a transformação do modelo de negócio via tecnologia, especialmente inteligência artificial, citada por 64% dos líderes.

“Essa transformação, ainda que baseada e impulsionada por tecnologia, precisa ser liderada e executada por pessoas. Isso exige não apenas qualificação técnica e repertório, mas competências e habilidades inéditas, que ainda precisam ser desenvolvidas”, diz Suzuki. “Por isso, em 2026, este tema ganha ainda mais relevância e urgência”.

A reestruturação para ganho de eficiência e redução de custos aparece como terceira prioridade, mencionada por 58% dos entrevistados.

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“Arrumar a casa” não é recuo, é foco

O avanço da agenda de eficiência levou a um novo mantra entre as empresas – o de “arrumar a casa”.

Apesar de soar como um movimento defensivo, Suzuki interpreta a tendência de outra forma.

“Não afirmaria que significa necessariamente um ano mais defensivo, mas mais rigoroso nas escolhas”, afirma. “Vejo esse desejo de arrumar a casa mais como um exercício de foco, de disciplina para definir uma estratégia e executá-la sem distrações.”

Reputação deixa de ser discurso e vira ativo

Outro ponto que ganha força na agenda é a reputação, não mais como um conceito abstrato, mas como um ativo econômico.

Mais da metade dos líderes (54%) já coloca reputação, marca e comunicação entre suas prioridades estratégicas. E 46% afirmam que ela impacta diretamente os resultados financeiros e o valor de mercado das empresas.

Para Suzuki, esse movimento é consequência direta do ambiente de incerteza.

“Em ambientes de alta incerteza e complexidade, ter a confiança dos públicos é o maior fator de estabilidade”, diz. “Uma reputação forte garante geração de negócios, bloqueio de concorrência e menor custo de vendas, assim como valor de mercado, atração e retenção de talentos e mais resiliência em momentos sensíveis.”

O maior risco agora é político

Se a agenda estratégica está clara, os riscos também estão, e mudaram de natureza.

Pela primeira vez, a turbulência política ligada ao ano eleitoral aparece como a principal preocupação das empresas, citada por 77% dos líderes. Em 2025, o topo da lista era ocupado por riscos tecnológicos.

A mudança indica uma inversão relevante: sai de cena o risco mais controlável e entra o risco sistêmico.

“Historicamente, em ano de eleições presidenciais, vemos potencializadas as incertezas e instabilidades tanto na economia quanto no ambiente institucional”, afirma Suzuki. “Nos últimos anos, vimos esse quadro se agravar e se tornar ainda mais nocivo às empresas, que muitas vezes são puxadas para crises produzidas artificialmente pela radicalização partidária e ideológica.”

Na sequência, aparecem no estudo a disrupção causada pela IA (48%) e conflitos geopolíticos e guerra comercial (37%).

Entre as principais recomendações dos líderes ouvidos no estudo para o governo que assumirá em 2027 são ajuste fiscal, reforma administrativa e Educação Básica.

“Particularmente, vejo como muito relevante o fato de a Educação Básica estar entre essas três prioridades, porque demonstra também uma visão de longo prazo e parece coerente com as prioridades apontadas no estudo”, diz Suzuki.

Preparação ainda é parcial

Apesar da clareza sobre riscos e prioridades, a maioria das empresas ainda não se considera totalmente preparada para enfrentar esse ambiente.

Sete em cada dez afirmam ter algum tipo de iniciativa para mitigar riscos, mas ainda de forma incompleta. Para Suzuki, esse é um ponto crítico.

“Gerir uma empresa hoje é uma tarefa muito mais complexa do que há poucos anos”, afirma. “É preciso estar preparado para navegar em ambientes ambíguos, tomar decisões sem todas as informações necessárias, ajustar rotas estratégicas e responder a situações que sequer estão mapeadas.”

Para a executiva, a gestão de riscos deixou de ser opcional. “Em ambientes incertos, ter uma estratégia de gestão de riscos corporativos e reputacionais é questão de sobrevivência.”

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IA: o maior gap ainda é gente

A inteligência artificial aparece ao mesmo tempo como oportunidade e risco, mas o principal gargalo não está na tecnologia.

“Acredito que o maior gap são pessoas qualificadas, engajadas e com a energia necessária para aprender, mudar e fazer acontecer”, afirma Suzuki.

Essa leitura reforça a conexão entre as duas principais prioridades do ano: tecnologia e capital humano.

Mais cautela, menos adiamento

Apesar do cenário mais incerto, não há evidências claras de paralisação nos investimentos.

“O que as lideranças demonstram é que há mais cautela”, diz Suzuki, ao comentar a possibilidade de postergação de decisões por causa do ano eleitoral.

A mudança, portanto, não é de direção, mas de ritmo e critério.

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Um recado para 2026

Diante de um ano que combina pressão por eficiência, transformação digital acelerada e instabilidade política, o recado dos líderes por meio deste estudo é de que agora é a hora de fortalecer fundamentos.

“Embora mais cautelosos, os líderes sabem o que precisam fazer: ter no time pessoas certas e preparadas, uma cultura organizacional aderente aos desafios atuais e reputações fortes e resilientes, para que a evolução nos modelos de negócios de fato aconteça.”

Mais do que esperar o cenário ideal, a liderança em 2026 será guiada pela capacidade de agir, mesmo em meio à incerteza.

Mais do que esperar o cenário ideal, a liderança em 2026 será guiada pela capacidade de agir, ajustar rotas e tomar decisões mesmo em meio à incerteza. O foco será mais cauteloso, uma vez que buscarão execução com eficiência, gestão de riscos e transformação impulsionada por pessoas e tecnologia.

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