O vírus Nipah pode gerar uma pandemia? Autoridades dizem que não

Por Paloma Lazzaro 21 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O vírus Nipah pode gerar uma pandemia? Autoridades dizem que não

O vírus Nipah voltou ao centro das atenções após a confirmação de dois casos na Índia nos últimos meses. Apesar do número reduzido de infecções, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o episódio como um surto.

Mesmo com a alta taxa de letalidade associada ao vírus, especialistas afirmam que o risco de a doença evoluir para uma nova pandemia é praticamente nulo.

O principal motivo para isso é a maneira limitada com que ele se dissemina. Segundo o Ministério da Saúde e a OMS,  o Nipah não apresenta evidências de disseminação internacional nem ameaça à população.

O infectologista e patologista Amaro Nunes Duarte Neto, professor associado da Faculdade de Medicina da USP, explicou que a transmissão entre humanos é limitada.

“Diferentemente da covid-19, não há evidências de transmissão sustentada por via aérea. Os surtos registrados até hoje demonstram que medidas clássicas de vigilância epidemiológica, como isolamento de casos suspeitos e rastreamento de contatos, costumam ser eficazes para interromper a cadeia de transmissão”, afirmou em entrevista ao Jornal da USP.

De acordo com o Ministério da Saúde, foram identificados 198 contatos dos casos confirmados na Índia, todos monitorados e testados com resultado negativo. A OMS classifica o risco global como baixo.

Transmissão diferente da covid-19

Segundo o professor da USP, ao contrário do Sars-CoV-2, o vírus causador da covid-19, o Nipah não apresenta transmissão eficiente entre humanos, especialmente por pessoas assintomáticas.

Isso reduz a probabilidade de disseminação em massa caso o vírus seja importado para outro país. “Mesmo se o vírus chegar a um novo país, como, por exemplo, o Brasil, o cenário mais provável é de que ocorram casos isolados ou surtos localizados”, explicou.

O Nipah é um vírus zoonótico, ou seja, transmitido de animais para humanos. Outras maneiras que ele pode ser transmitido é por meio de alimentos contaminados ou, mais raramente, entre pessoas, principalmente em ambientes hospitalares com contato próximo e sem proteção adequada.

Sintomas e gravidade

A OMS explica que o vírus foi identificado pela primeira vez em 1998, durante um surto entre criadores de porcos na Malásia, e desde então os casos têm ocorrido principalmente em países do Sul Asiático, como Bangladesh e Índia.

A taxa de letalidade é elevada, estimada entre 40% e 75%, dependendo do surto.

A infecção pode causar febre, dor de cabeça, confusão mental e sintomas respiratórios como tosse e dificuldade para respirar.

“É um quadro grave de inflamação no cérebro, que é chamado de encefalite, e esses pacientes podem evoluir com coma e óbito decorrente de edema cerebral intenso”, afirmou Duarte Neto ao Jornal da USP.

Segundo a OMS, o período de incubação varia de três a 14 dias, podendo, em casos raros, chegar a 45 dias.

A organização também destaca que não há tratamento específico nem vacina aprovada contra o vírus, embora produtos candidatos estejam em desenvolvimento.

“O diagnóstico precoce promove o início rápido de cuidados de suporte”, afirma a entidade, ressaltando que suporte clínico intensivo pode melhorar a sobrevida.

O que é um surto na epidemiologia?

O termo "surto" pode assustar as pessoas lendo uma notícia sobre o vírus Nipah.

Apesar disso, não é uma palavra que indica a escala da infecção. Um surto ocorre quando há aumento localizado do número de casos de uma doença, ou seja, não depende dos números absolutos, mas da taxa de crescimento.

“É possível ocorrer um surto de uma doença até dentro de um hospital, causado, por exemplo, por uma infecção hospitalar", explica a diretora do Laboratório de Virologia do Instituto Butantan, Viviane Fongaro Botosso, em comunicado do Instituto.

Ou seja, se uma doença tiver um número médio de casos ao ano baixíssimo ou nulo, como é o caso do vírus Nipah, qualquer aumento rápido será classificado como surto. Na Índia, ocorreram dois casos em um período de menos de um mês, acima da média anual.

Além disso, esse patógeno específico é monitorado por autoridades sanitárias com afinco, devido à alta letalidade e à gravidade da doença. Isso também pode é um fator na categorização de risco do vírus e na vigilância das autoridades, apesar da baixa transmissibilidade.

Situação no Brasil

O Ministério da Saúde informa que mantém protocolos permanentes de vigilância para agentes altamente patogênicos, em articulação com instituições como o Instituto Evandro Chagas e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), além da participação da Organização Pan-Americana da Saúde.

“O risco de uma pandemia causada pelo vírus Nipah é considerado baixo”, reforça a pasta. “Diante do cenário atual, não há qualquer indicação de risco para a população brasileira.”

A OMS acrescenta que trabalhadores da saúde devem adotar precauções padrão de prevenção e controle de infecções, incluindo uso de máscara adequada, proteção ocular, avental resistente a fluidos e luvas, especialmente durante procedimentos que gerem aerossóis.

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