Petróleo já passa dos US$ 120 – e essa alta vai chegar no seu bolso
O petróleo tipo Brent, referência mundial, fechou no maior nível desde 31 de março. Nesta quarta-feira, 29, a contrato futuro para junho de 2026 da referência Brent encerrou a sessão em US$ 118,03, com alta 6%. No pico do dia, no entanto, ele ultrapassou a marca dos US$ 120, maior patamar desde 10 de junho de 2022, quando chegou na casa dos US$ 122,01. Esse é o oitavo dia seguido que o petróleo registra alta.
O que impulsiona os preços é justamente a Guerra no Irã, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, onde passa de 20% a 25% do petróleo mundial. Isso causou um choque de oferta, o que elevou o valor da commodity. Este avanço, por sua vez, chegou ao bolso do consumidor – os combustíveis derivados do petróleo, como o diesel, são diretamente impactados, o que se reflete em preços de diversos segmentos.
É uma cadeia: diesel e gasolina mais caros encarecem transporte e logistíca, através do frete e seguros, que por sua vez se reflete no preço de fertilizantes e, consequentemente, de alimentos. Também houve o aumento do querosene de aviação (QAV), derivado do petróleo, que encareceu passagens aéreas. “O petróleo sobe e o impacto pleno ocorre logo depois, de forma gradual, ao longo da cadeia”, diz Jucelia Lisboa, economista e sócia da Siegen Consultoria.
Gasolina e diesel
Camila Affonso, sócia da Leggio Consultoria, especializada em petróleo, gás, renováveis e infraestrutura logística, explica que a Petrobras não repassa de forma imediata as variações do preço do petróleo aos combustíveis no mercado doméstico.
Ainda assim, a política de preços da estatal segue, em partes, o preço de paridade de importação (PPI). Por isso, os reajustes tendem a acompanhar o mercado internacional – mesmo com alguma defasagem, tanto no tempo quanto nos valores.
Sendo assim, o petróleo mais alto impacta naturalmente a gasolina, tornando o custo do frete maior. No Brasil, um país de dimensões continentais, em que mais de 65% da matriz de transporte é rodoviária, essa questão impacta diretamente diversos setores.
Além disso, parte relevante do abastecimento interno também depende de importações: cerca de 28% do diesel e 10% da gasolina consumidos no país vêm do exterior, o que faz com que esses volumes sejam diretamente precificados pelas cotações internacionais.
Transporte e logística
Caso haja repasse aos combustíveis, os efeitos tendem a se espalhar pela economia. O diesel, por exemplo, é peça central no transporte de cargas no Brasil. Quando seu preço sobe, o custo do frete aumenta e pressiona mercadorias transportadas por caminhões, de alimentos a produtos industrializados.
O impacto também alcança serviços ligados à mobilidade e logística. Combustíveis mais caros podem elevar custos de entregas, deslocamentos e outras operações que dependem diretamente de transporte. Ou seja, transporte de mercadorias e de pessoas tendem a ser afetados.
Fertilizantes e alimentos
Com a alta no preço do petróleo, o impacto não fica restrito aos combustíveis — ele pode chegar até os alimentos. Isso acontece porque a produção agrícola depende de insumos que também ficam mais caros nesse cenário, principalmente os fertilizantes.
E há um fator adicional: o Irã é um dos principais produtores de ureia, essencial para o cultivo de milho, uma das commodities mais relevantes do Brasil, ao lado da soja.
O problema é que o Brasil é altamente dependente do mercado externo nesse setor. Cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados. Em 2024, o Irã respondeu por 17% dessas compras, o que aumenta a exposição da agricultura brasileira a choques internacionais, como conflitos ou restrições de oferta.
Na prática, isso significa que produzir no campo fica mais caro — e esse custo tende a ser repassado ao longo da cadeia, pressionando tanto alimentos in natura quanto produtos industrializados.
Somado a isso, com o frete mais caro, o preço dos fertilizantes sobem ainda mais, o que, por sua vez, também encarece a comida, já que o composto representa até 30% do custo dos alimentos. “Os fertilizantes também envolvem uma série de petroquímicos que são derivados do petróleo”, explica Ian Lopes economista da Valor Investimentos.
Passagens aéreas
Rodrigo Possatto, diretor de sourcing aéreo da Onfly, afirma que a alta do petróleo impacta diretamente o preço das passagens aéreas. Em abril de 2026, a Petrobras anunciou reajustes que chegaram a 55% no QAV em algumas regiões.
Isso ocorre porque o querosene de aviação é um derivado da commodity e representa, na aviação brasileira, entre 30% e 40% dos custos totais das companhias.
Segundo a Onfly, os dados mais recentes de abril de 2026 mostram um movimento de alta expressiva: as passagens aéreas domésticas registraram uma alta de 17,8% em março de 2026 na comparação com o mesmo mês de 2025; e o valor médio da tarifa doméstica saltou de aproximadamente R$ 600,00 (em 2025) para R$ 707,16 (em 2026).
“O preço médio praticado pelas grandes operadoras variou entre R$ 626 e R$ 887, dependendo do perfil da empresa (low-cost versus serviço completo) e da malha aérea operada”, comenta. Ele continua: “Com o combustível mais caro, as empresas tendem a reduzir a oferta de voos e cancelar rotas menos lucrativas para tentar preservar a margem de lucro.”
Ou seja, menos voos disponíveis costumam significar passagens mais caras para o público. Por conta disso, a perspectiva de curto prazo é de pressão contínua, sem sinais de recuo imediato. A incerteza global também pesa: enquanto o barril de petróleo permanecer acima de US$ 90-100 devido aos conflitos globais, o QAV continuará em patamares elevados.
Um recuo, segundo ele, só é esperado se houver um arrefecimento das tensões no Oriente Médio ou uma valorização significativa do real, o que reduziria o custo de importação dos derivados. “No momento, o governo brasileiro estuda medidas emergenciais para mitigar o impacto, mas especialistas acreditam que o alívio para o bolso do viajante será lento e só ocorrerá de forma sustentada se o petróleo estabilizar em níveis pré-crise (abaixo de US$ 75)”, diz.
Affonso conclui: “A alta do barril já está provocando um efeito em cascata na economia brasileira, pressionando preços de diversos produtos e serviços no Brasil, com impacto direto na inflação. Este efeito, anossa visão, continuará acontecendo ao longo de todo o ano de 2026, mesmo após o fim do conflito no Irã.”
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