Por que a Brava Energia não está conseguindo surfar na alta do petróleo?
Enquanto o petróleo dispara desde o início da guerra no Irã, há três semanas, a Brava Energia (BRAV3) se mantém fora do movimento de valorização que beneficiou outras petroleiras.
Desde 2 de março, data do primeiro pregão após o conflito, até o pregão desta terça-feira, 17, a ação ordinária da companhia caiu cerca de 6,2%, em contraste principalmente com as ordinárias da Petrobras (PETR3), que subiram 13,9%, e preferenciais (PETR4), que registraram alta de 13,1%.
A Prio (PRIO3), que vem sendo a "queridinha" do mercado, também avançou 9,1% no período, assim como os papéis da PetroRecôncavo (RECV3), que subiram 7,5%. Com exceção da Brava, as petroleiras acompanham o mercado global do petróleo, que se mantém em alta intensa.
O petróleo do tipo Brent, referência mundial, acumula ganho de mais de 40% desde o início da guerra, no dia 28 de fevereiro, e 11,3% na última semana fechada na sexta, 13, impulsionado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial da commodity.
No acumulado do ano, a Brava também se descola do movimento dos pares ao registrar a alta mais modesta, de quase 7%, muito abaixo da Prio, que já subiu 50,33% e da Petrobras, que acumula valorização de mais 66,28% no ano, no caso da PETR3; e de 50,78% na PETR4.
Por que a Brava não conseguiu capturar os ganhos da alta do petróleo?
Especialistas apontam que parte da explicação para o desempenho fraco da Brava está nas estratégias financeiras rígidas adotadas pela companhia para o futuro próximo. Caio Borges, analista da Eleven Financial, destaca que a empresa travou o preço do petróleo para se proteger de quedas no preço da commodity — que era a tendência antes da Guerra — o que a impede de se beneficiar da disparada nas cotações.
Para travar o preço do petróleo, a companhia utilizou instrumentos financeiros que, na prática, limitam o preço a matéria-prima a US$ 75,50 por barril vendido, sendo que hoje a cotação do Brent ultrapassa os US$ 100.
"Assumindo uma produção em linha com a média diária registrada em 2025, aproximadamente um terço do volume do 1T26 estaria compromissado a US$ 63,9, um terço a US$ 75,5 e o terço restante exposto ao mercado spot (à vista). Essa mesma estrutura se replica nos demais trimestres do ano, conforme a tabela", diz o analista. "Isso limita de forma relevante os ganhos decorrentes da valorização do Brent", complementa.
O desempenho fraco da empresa no último ano também se reflete no desempenho da Brava na bolsa em relação às demais petroleiras. No 4º trimestre de 2025, a companhia reduziu o prejuízo líquido para R$ 588 milhões, mas o Ebitda ajustado veio em R$ 808 milhões, abaixo da expectativa média de R$ 968,5 milhões do mercado.
A receita líquida subiu 31% em relação ao mesmo período de 2024, totalizando R$ 2,55 bilhões.
"O balanço do último trimestre de 2025 ficou abaixo das expectativas de mercado, mesmo reduzindo o prejuízo líquido. Quando isso acontece, a alta do petróleo ajuda, mas não compensa totalmente a decepção com o trimestre", afirma Camila Affonso, sócia da Leggio Consultoria, especializada em petróleo, gás e renováveis.
Affonso observa que, em janeiro, a Brava também indicou queda de 1,1% na produção devido a falhas de energia e interdições temporárias. Além disso, a troca de CEO, anunciada em janeiro, aumentou a percepção de risco sobre a execução de projetos futuros.
Na ocasião, Décio Oddone renunciou ao cargo de diretor-presidente, que passou a ser ocupado por Richard Kovacs. "As ações da Brava Energia não tiveram bom desempenho recente porque o mercado está precificando em maior peso os riscos específicos da companhia – como riscos de execução – do que os upsides macro, como o aumento do Brent", diz a especialista.
"A oportunidade perdida"
A Brava pode ter sofrido mais um revés nesta terça, 17, com o anúncio de que a Petrobras exerceu seu direito de preferência para adquirir os 50% da Petronas Brasil nos campos Tartaruga Verde (TTV) e Espadarte, na Bacia de Campos. Após a conclusão da transação, a Petrobras deterá 100% da propriedade dos ativos e continuará como operadora.
De acordo com o comunicado à imprensa, o contrato de compra deve ser assinado em breve, com um valor total da transação de US$ 450 milhões. A estrutura de pagamento inclui US$ 50 milhões na assinatura, US$ 350 milhões no fechamento, sujeito a ajustes relacionados à data efetiva da transação, 1º de julho de 2025, e duas parcelas diferidas de US$ 25 milhões cada, a serem pagas 12 e 24 meses após o fechamento.
Os valores finais também serão ajustados para refletir os resultados econômicos dos ativos desde 1º de julho de 2025.
A decisão da estatal representa uma "oportunidade perdida" para a Brava, como classificaram os analistas Yuri Pereira, Eduardo Muniz e Nicole Alonso do Santander.
"Os ativos poderiam ter sido uma alavanca atraente para a Brava impulsionar a criação de valor e acelerar a desalavancagem, dado seu perfil já gerador de fluxo de caixa. Estimamos que a aquisição poderia ter reduzido a relação dívida líquida/EBITDA em cerca de 0,2x em 2026", apontaram os analistas do banco em relatório.
Imposto sobre a exportação afeta a Brava
A retirada dos impostos PIS/Cofins do diesel para atenuar o impacto da alta do petróleo nos preços dos combustíveis no mercado local tende a ter impacto neutro sobre a empresa, segundo os analistas.
"O que prejudica a Brava e o setor como um todo foi o imposto de 12% sobre as exportações de petróleo bruto, que também afetou negativamente as demais empresas do setor", diz Borges. A alíquota de 12% foi fixada nesse valor justamente pata financiar a redução de custos internos.
"A criação do imposto temporário sobre as exportações de petróleo reduz a captura da alta do Brent pelas petroleiras exportadoras e tende a pesar mais justamente sobre independentes como a Brava, que não contam com o mesmo colchão de refino da Petrobras. Este efeito gera compressão de margem e revisão negativa de resultado potencial", acrescenta a sócia da Leggio.
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