Por que a geração Z anda usando 'relógios de vovó'?

Por Ivan Padilla 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que a geração Z anda usando 'relógios de vovó'?

O maior salão de relojoaria do mundo estava menor este ano. Não em quantidade de manufaturas e volume de pessoas. O Watches & Wonders, realizado em abril em Genebra, reuniu neste ano 65 marcas e mais de 60 mil visitantes. Estamos falando aqui do tamanho dos relógios.

Depois de duas décadas de caixas oversized nos pulsos, a relojoaria tem migrado nos anos mais recentes para diâmetros menores, impulsionada por consumidores mais jovens, especialmente mulheres na faixa dos 20 e início dos 30 anos, que têm adotado os chamados “relógios de vovó”.

São peças de apelo vintage, que podem ser novas ou de segunda mão, mais fáceis de combinar com joias. Para ficar em alguns exemplos, entre os destaques do salão de Genebra deste ano estavam novas versões do Myst e do Baignoire da Cartier, todos muito delicados. A Rolex trouxe versões do Oyster Perpetual em 28mm em ouro. Até a IWC, conhecida pelas peças robustas com inspiração no mundo da aviação, apresentou um Pilot em 36mm.

O que está no pulso das celebridades

Não é que os relógios estejam diminuindo, me disse um executivo de uma grande manufatura durante o Watches & Wonders. “É que eles estão voltando para as proporções que devem ter.”

A cultura pop e as redes sociais têm ajudado a disseminar a tendência. Celebridades, homens e mulheres, têm usado relógios pequenos que antes eram vistos como ultrapassados. No MET Gala, realizado ontem, Rami Malek usou um Cartier Crash de platina, Maluma estava com o novo Bulgari Octo Finissimo 37 mm.

Timothée Chalamet frequentemente aparece com um fino Cartier Panthère ou um Jaeger-LeCoultre 34mm, Bad Bunny já foi visto com um discreto Patek Philippe Ellipse e Serena Williams costuma usar um Audemars Piguet Royal Oak mini.

Rami Malek: Cartier Crash de platina (Dimitrios Kambouris/Getty Images)

Luxo discreto

Essas aparições, somadas à busca por relógios mais versáteis, aceleram a mudança de tamanho. Marcas tradicionais estão reduzindo caixas de 42 mm ou mais para 38 mm, 36 mm e até abaixo de 34 mm. Ao mesmo tempo, as divisões de gênero começam a desaparecer, com fronteiras cada vez mais difusas em tamanho, materiais e cores.

“Colecionadores não tradicionais são atraídos por esses estilos”, diz Brynn Wallner, fundadora da plataforma Dimepiece. “À medida que mais mulheres entram nesse universo e compram seu primeiro relógio, elas buscam algo menor, versátil, fácil de usar e que combine com tudo sem fazer uma grande declaração.”

Relógios pequenos também se alinham à tendência do luxo discreto, mas outro fator-chave é a possibilidade de combiná-los com outras peças. “Eles funcionam com as pulseiras que as mulheres já têm no guarda-roupa”, afirma Melanie Chud. “Quando mostramos como o relógio pequeno conversa com as joias, a reação é imediata.”

Relógios clássico com streetwear

Pierre Rainero tem o cargo dos sonhos para quem gosta da história da relojoaria. Ele é o diretor de imagem e herança da Cartier. Seu trabalho, grosso modo, e vasculhar os arquivos da marca e analisar o contexto em que cada relógio foi lançado, de olho em releituras e estratégias de produtos.

Segundo Rainero, a consistência de forma é central para o sucesso do Baignoire, cuja origem remonta a 1958 — ainda que o formato oval faça parte do DNA da Cartier desde o início do século 20. As novas versões incorporam elementos como o padrão Clous de Paris, reforçando a abordagem joalheira da marca.

Muitas casas estão reinterpretando referências vintage com ajustes contemporâneos, seja por meio de acabamentos decorativos, gemas, ou o uso de materiais bicolores como aço e ouro amarelo, que facilitam a integração com outras joias. Formatos como quadrado, retangular e oval, além de designs assimétricos, também ganham espaço.

A tendência se espalha por todas as faixas de preço. No topo, modelos joalheiros inspirados nos anos 1950 dominam. Mas há opções mais acessíveis, como o Citizen Eco-Drive Fio e o Frederique Constant Classics Manchette com mostrador turquesa.

Segundo Wallner, muitas consumidoras jovens encontram esses relógios em brechós ou até em caixas de joias da família — e reinterpretam seu uso. “O que parecia ultrapassado agora é visto de outra forma. É uma questão de styling. Você pode usar com streetwear ou jeans e camiseta, e de repente fica interessante. Você usa o relógio; ele não usa você.”

Apesar da tendência, modelos menores de marcas tradicionais às vezes encontram-se subvalorizados no mercado secundário, o que abre boas oportunidades para o consumidor. “A demanda por caixas abaixo de 30 mm está crescendo rapidamente, impulsionada pela nostalgia dos anos 1980 e 1990 e pela busca por peças que funcionem bem em combinação”, diz Eugene Tutunikov. “No fim, a vovó tinha mesmo um gosto excelente.”

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