Por que Paquistão e Afeganistão estão à beira da guerra?
A guerra do Irã toma os holofotes do mundo, mas um outro conflito, de escala menor, mas igualmente trágico, frequentemente passa sob o radar do olho público, e ameaça desestabilizar ainda mais uma região já assolada pelo confronto no Golfo Pérsico.
Uma série de conflitos fronteiriços violentos entre o Afeganistão e Paquistão avançou para ataques aéreas intensos, com os países trocando bombas há semanas.
Na última segunda, 16, um ataque aéreo paquistanês atingiu uma clínica de reabilitação de usuário de drogas em Cabul, capital do Afeganistão – um porta-voz para o Talibã afegão disse que 400 civis morreram e 250 ficaram feridas no bombardeio.
Esse foi o incidente mais mortal desde o fim de fevereiro. Há meses, ataques esporádicos pelo Talibã afegão em bases militares paquistanesas resultaram em retaliações aéreas intensas pelo Paquistão, atacando alvos nas áreas urbanas do país vizinho. Em decorrência disso, no dia 27 de fevereiro, o ministro da defesa paquistanês, Khawaja Asif, declarou um estado de “guerra aberta” contra o Afeganistão. A piora ocorreu poucos dias antes dos ataques conjuntos no Irã.
Aliados ideológicos, os dois países pareciam, até pouco tempo atrás, estar em bons termos – afinal, foi Islamabad que ajudou a financiar a emergência do Talibã afegão nos anos 1990, buscando uma vantagem no conflito que o país tem com a Índia, que é rival do Paquistão. Por décadas, o Paquistão teve a melhor relação diplomática e os mais fortes laços ideológicos do grupo jihadista.
Quando o Talibã afegão conseguiu retomar o poder em Kabul, capital afegã, em 2021, o então premiê paquistanês, Imran Khan, chegou a dizer que o país vizinho tinha “quebrado as algemas da escravidão”.
Por que ex-aliados estão guerreando?
Sirajuddin Haqqani (centro), Ministro do Interior do governo talibã do Afeganistão, chega para participar de um funeral coletivo realizado para as vítimas de um ataque aéreo paquistanês. (WAKIL KOHSAR/AFP/AFP)
No cerne do conflito, estão suspeitas por Islamabad de que o Talibã, grupo jihadista que agora governa o país, esteja permitindo, em seu território, atividades e garantindo refúgio a outros grupos jihadistas e insurgentes paquistaneses contrários ao governo em Islamabad.
Por sua vez, Cabul nega as acusações. Ao mesmo tempo, Cabul acusa Istambul do mesmo comportamento, nesse caso abrigando os inimigos do Talibã, o Estado Islâmico, acusações que Islamabad nega.
Centrais entre esses grupos para as ofensivas paquistanesas estão o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP), uma organização jihadista considerada terrorista pela ONU e pelo Paquistão, e secessionistas armados que buscam independência para o Baluchistão, uma região no sudeste do Paquistão, habitada pela minoria étnica balúchi, originalmente do Irã, que habita a região desde o ano 1000.
Conforme ataques pelo TTP e grupos insurgentes se intensificaram todo ano desde 2022, segurança militar pela fronteira – e, em consequência, as tensões – aumentaram consistentemente. Isso culminou em outubro de 2025, quando o Paquistão conduziu amplos ataques aéreos no Afeganistão, que oficiais paquistaneses disseram ter como alvo “bases de operação para o terrorismo no Paquistão”.
A campanha resultou nos mais intensos conflitos entre os países até esse ponto. A situação escalou tanto que, no mesmo mês, a Turquia e o Catar ajudaram a mediar um frágil acordo de paz entre os governos, que lentamente foi se dissolvendo, mesmo com mediação adicional pela Arábia Saudita, um importante mediador no meio islâmico.
Desde então, houve eclosões esporádicas de conflitos pela fronteira. No dia 16 de fevereiro, um homem-bomba suicida afegão matou 11 funcionários e uma criança paquistanesa numa parada de segurança pela fronteira, de acordo com relatórios militares do Paquistão.
No dia 22 do mesmo mês, campanhas aéreas paquistanesas no Afeganistão mataram pelo menos 18 pessoas, incluindo civis. Acontecimentos assim geram sentimentos retaliatórios, que gradualmente intensificam ainda mais os conflitos.
Por que isso importa?
Voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Afegão estão perto dos caixões das vítimas de um ataque aéreo paquistanês. (WAKIL KOHSAR/AFP/AFP)
O conflito envolve dois países com importantes laços com potências como China e Rússia, que têm relações complexas tanto com o Afeganistão quanto com o Paquistão, remontando ao fim da Guerra Fria. Analistas do Council on Foreign Relations (CFR), think tank que acompanha incidentes internacionais, julgam que ambas as potências estariam observando com cautela e interesse os desdobramentos desse conflito, já que a guerra acarreta possíveis consequências econômicas para ambos.
O Paquistão, além de ser uma potência nuclear, tem parcerias defensivas tanto com a China quanto com a Rússia, e laços comerciais importantes principalmente com Pequim, que se tornam ainda mais valiosos tendo em vista o bloqueio do estreito de Ormuz e as consequências econômicas decorrentes disso. Além disso, tanto o Paquistão quanto o Afeganistão fazem parte da iniciativa chinesa Cinto e Rota, um programa de desenvolvimento econômico e de infraestrutura por países do sul global, que envolve um investimento de 65 bilhões de dólares em um projeto conhecido como Corredor Econômico China-Paquistão.
Além disso, uma outra potência regional, a Índia, também pode acabar envolvida no conflito. O Paquistão, inimigo de longa data do país, acusa Nova Déli de apoiar ataques patrocinados pelo TTP – o ministro de defesa paquistanês, Khawaja Asif, chegou a acusar o Afeganistão de estar operando como um proxy indiano, basicamente lutando em seu nome e por seus ideais.
E, de fato, desde 2021, a Índia parece estar se aproximando cada vez mais do governo Talibã. O país reabriu sua embaixada em Cabul no ano seguinte, e o premiê indiano, Narendra Modi, notoriamente deu as boas-vindas a uma delegação diplomática do Talibã na capital de Nova Déli em outubro de 2025, quando as hostilidades se intensificaram com o Paquistão.
Ainda assim, “há muitas incógnitas”, disse Farah Pandith, pesquisadora sênior do CFR e especialista em contraterrorismo, em um artigo. Uma escalada ainda maior entre o Afeganistão e o Paquistão, estima a especialista, poderia levar ao apoio chinês ou russo ao Paquistão, por meio de armas ou inteligência, por exemplo, mas é improvável que a China, a Índia ou a Rússia estejam dispostas “a se envolver em uma guerra”, acrescentou ela. “Uma guerra entre o Paquistão e o Talibã provavelmente aumentaria a ameaça que [o autoproclamado Estado Islâmico e a Al-Qaeda] representam para os Estados Unidos”, escreve Alexander Palmer, pesquisador de guerra, ameaças irregulares e terrorismo, em um artigo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Por sua vez, embora os Estados Unidos não devam se envolver diretamente no conflito, Pandith avaliou que a escalada cria um “momento propício para ações inesperadas”, que será monitorado de perto por Washington. Segundo ela, “as emoções estão à flor da pele em relação aos extremistas, ao Irã e à volatilidade” na região. A especialista acrescentou que uma eventual mudança de postura dos Estados Unidos, abandonando a neutralidade, poderia influenciar a resposta de outras potências, especialmente China e Rússia.
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