Raiva: quando o sentimento que movimentou a internet também aparece no trabalho

Por Sofia Esteves 4 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Raiva: quando o sentimento que movimentou a internet também aparece no trabalho

Talvez você não tenha familiaridade com a expressão em inglês “rage bait”, mas certamente vai reconhecer o fenômeno quando ler sua definição. Escolhida pelo dicionário Oxford como a palavra que traduz o espírito de 2025, ela diz respeito a um “conteúdo online deliberadamente criado para provocar raiva ou indignação, por meio da frustração, da provocação ou da ofensa, geralmente publicado com o objetivo de aumentar o tráfego ou o engajamento de uma determinada página ou conteúdo em redes sociais”.

Quando o termo foi anunciado, me chamou a atenção uma fala do presidente do Oxford Languages. Segundo Casper Grathwohl, “rage bait” e outras palavras eleitas nos últimos anos revelam o tamanho da influência das plataformas digitais: estamos diante de meios tão poderosos que estão remodelando nosso pensamento e comportamento; e que, ao fazerem isso, são traduzidos em novas expressões.

Essa influência, é claro, não fica restrita ao ambiente online. No caso específico de “rage bait”, fico pensando no quanto o estímulo à raiva deixou de ser apenas uma estratégia de engajamento online e passou a atravessar outras esferas da vida, inclusive o trabalho.

De certa forma, acho que dá para perceber esse fenômeno em movimentos recentes como “rage applying” e “revenge quitting”. Mas também é possível notar uma pontada de raiva em discussões mais antigas que, vira e mexe, voltam a ganhar destaque.

Estou me referindo ao debate sobre as gerações, com um foco maior, desta vez, na chamada “Gen Z”.

Uma expressão problemática

Quem me conhece sabe que tenho aversão ao termo “conflito geracional” pelo simples fato de que enxergar as relações entre pessoas de diferentes idades, contextos e níveis de senioridade através da lente do confronto e da oposição me parece pouco produtivo. É um jeito um tanto reducionista de enxergar a questão do convívio de diferentes gerações dentro da empresa, algo que sempre irá existir dentro do ambiente corporativo.

Na minha opinião, melhor do que falar em conflito é pensar no encontro de gerações. E essa escolha não é apenas um preciosismo linguístico ou uma romantização das diferenças etárias.

Afinal, o que, ano após ano, a pesquisa Carreira dos Sonhos nos mostra é que as gerações que convivem dentro de uma mesma empresa têm mais aspectos em comum do que muita gente imagina.

Isso vale tanto para as expectativas positivas quanto para as frustrações vivenciadas dentro de uma empresa. No primeiro caso, a edição deste ano mostrou que todos os grupos esperam que o trabalho proporcione, em primeiro lugar, estabilidade financeira. Em comum, as pessoas também anseiam por crescimento e realização profissional.

Já no que diz respeito ao descontentamento, os dados de 2025 revelam que a falta de reconhecimento é o maior incômodo com a empresa: tanto para jovens (43% se dizem insatisfeitos com esse aspecto), quanto para média gestão (41%) e alta liderança (33%).

Eu poderia continuar citando outros exemplos que demonstram esses pontos de similaridade, mas meu objetivo aqui não é provar que “somos todos iguais”. Até porque não somos exatamente os mesmos: é natural e, digo mais, importante que pessoas de diferentes gerações tragam repertórios e perspectivas distintas para o ambiente de trabalho.

O foco dessa conversa é refletirmos para onde essas “iscas de fúria” têm levado a nossa atenção. Sinto que, quando simplificamos debates complexos e alimentamos narrativas polarizadas, perdemos a chance de fazer discussões mais profundas, produtivas e transformadoras dentro das organizações.

Pode ser que a raiva até engaje e seja usada como estratégia de mobilização ou de visibilidade por alguns, mas empresas e suas lideranças deveriam passar longe desse tipo de abordagem. Alimentar um sentimento de disputa, uma dinâmica de comparações e rivalidades artificiais está longe de ser uma tática compatível com organizações que sabem que, para lidar com a complexidade dos desafios contemporâneos, é necessário agir em conjunto, não promovendo conflitos.

Ninguém constrói organizações melhores disparando “hate”. O “rage bait” até pode gerar reação, mas, no mundo corporativo, engajamento de verdade nasce quando as pessoas conseguem enxergar além dos próprios vieses e trabalhar juntas, em vez de disputar espaço.

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