'Taxa das blusinhas' não afeta Veste, mas expõe insegurança regulatória, diz CEO
A revogação da chamada "taxa das blusinhas" reacendeu a tensão entre varejistas brasileiros e plataformas asiáticas, mas, para a Veste, dona das marcas Le Lis, Dudalina, Bo.Bô, John John e Individual, o impacto direto deve ser limitado. O preocupa a companhia não é exatamente o fim da cobrança sobre compras internacionais de até US$ 50, mas o que a mudança representa, a falta de previsibilidade regulatória para quem investe e produz no Brasil, como destacou o CEO da Veste, Alexandre Afrange, à EXAME.
"Isso não nos afeta, como também não nos afetou quando a taxa já era zero lá atrás", afirmou. "Mas ela afeta o setor como um todo e é muito prejudicial. Deveria ter um plano de longo prazo, não uma medida que muda de uma hora para outra e pega todo mundo de surpresa. Gente muito séria, que está fazendo investimentos, que cria empregos e que gira essa economia do país [foi pega de surpresa]", disse o executivo.
A empresa não se sente afetada pela medida por atuar no segmento premium, com produtos de maior valor agregado e um público menos sensível às oscilações econômicas. E, de acordo com Afrange, também não há problema em ampliar a concorrência com atores estrangeiros. A questão central, diz, é a desigualdade das condições tributárias entre empresas brasileiras e plataformas internacionais.
"A isonomia tributária é essencial para qualquer competição. A concorrência, seja com produtos importados ou nacionais, é saudável. O problema não é o produto que vem de fora, mas a diferença nas condições tributárias. O empresário brasileiro enfrenta uma carga muito alta e acaba sendo prejudicado quando há mudanças repentinas nas regras", disse o CEO da Veste.
A chamada "taxa das blusinhas" foi revogada na última terça-feira, 12, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pôs fim à cobrança de 20% de imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50 dentro do programa Remessa Conforme.
A medida havia sido implementada em agosto de 2024 sob forte apoio da indústria nacional, que defendia maior equilíbrio competitivo diante do avanço de plataformas asiáticas de e-commerce. Por outro lado, entre os consumidores, a cobrança provocou controvérsias, já que muitos argumentavam que a taxação encarecia produtos populares de baixo valor e reduzia a atratividade dessas plataformas.
Agora com o fim da taxa, a percepção da companhia, contudo, é que seu posicionamento ajuda a blindar o negócio em um momento de juros elevados, desaceleração do consumo e aumento da concorrência internacional. Segundo o CEO, a estratégia desenhada pela empresa desde 2019, e que começou a mostrar resultados mais evidentes em 2023, reforça essa proteção.
A Veste opera com margem bruta próxima de 65% e atende um público de renda mais alta, menos pressionado pelo endividamento que afeta o consumo popular. Por isso, a companhia avalia que está relativamente protegida das turbulências que atingem o varejo de moda de massa.
"Eu entendo que estamos em um caminho muito bom, com uma estratégia muito bem executada ao longo dos anos", afirmou.
Guerra e custo dos fretes no radar da Veste
A empresa acompanha, porém, os possíveis efeitos da escalada da guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel sobre custos logísticos globais. Segundo Afrange, o principal ponto de atenção hoje está no frete internacional, mais do que nas matérias-primas, como um possível aumento de 40% nos preços do poliéster, como mostrou a EXAME.
Até o momento, o executivo destaca que a companhia não pretende reajustar preços. Segundo o CEO, a Veste vem administrando custos por meio de negociação com fornecedores e ajustes na composição de matérias-primas.
"O frete causa impacto, mas não é relevante o suficiente para gerar um problema no nosso P&L", afirmou. "Estamos acompanhando e, se houver um movimento mais brusco, vamos nos adaptar".
Segundo Afrange, as coleções que chegarão às lojas no segundo semestre já foram planejadas levando em conta esse cenário de maior volatilidade logística, sem expectativa de impacto relevante sobre precificação.
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