Temporada de balanços surpreendeu nos EUA e foi 'morna' no Brasil: o que explica a diferença

Por Clara Assunção 25 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Temporada de balanços surpreendeu nos EUA e foi 'morna' no Brasil: o que explica a diferença

A safra de balanços do primeiro trimestre deste ano mostrou que o ciclo de crescimento corporativo nos Estados Unidos é muito diferente daquele vivido pelas empresas brasileiras.

Enquanto o S&P 500 entregou uma sequência histórica de surpresas positivas puxadas pela inteligência artificial e pela expansão de margens, as empresas que compõem o Ibovespa, o principal índice acionário do Brasil, apresentou um desempenho considerado "misto", com resultados próximos das estimativas, mas sem o mesmo impulso operacional.

Nos EUA, os números surpreenderam pela magnitude. Segundo o relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), com mais de 92% das empresas do S&P 500 já reportadas, o lucro líquido agregado cresceu 27,5% na comparação anual, marcando a sexta temporada consecutiva de expansão de dois dígitos.

A surpresa positiva foi de 16,3% sobre as projeções do consenso, bem acima da média histórica de 6,5%. O dado mais simbólico, porém, foi a diferença entre crescimento de receita e crescimento de lucro.

A receita foi de apenas 2%, o que, para o BTG, mostra que "a maior parte do crescimento segue sendo impulsionada pela alavancagem operacional e maior participação das empresas de tecnologia e comunicação no lucro líquido consolidado do S&P 500".

Isso significa que as empresas americanas conseguiram transformar investimentos pesados em inteligência artificial (IA) em expansão de margem e lucro efetivo, e não apenas em narrativa de mercado.

O principal motor dessa dinâmica foi o ciclo de investimentos em IA liderado pelas chamadas "7 Magníficas", grupo que reúne as empresas Apple, Microsoft, Meta, Google, Amazon, Nvidia e Tesla.

"O dado mais relevante desta temporada não é o resultado isolado de nenhuma empresa específica, mas sim a consistência com que a demanda por infraestrutura de inteligência artificial se traduziu em surpresas de LPA ao longo de toda a cadeia produtiva", afirmou o analista Marcel Zambello do BTG.

Essa leitura aparece em diferentes segmentos, de semicondutores, a data centers, software corporativo, infraestrutura elétrica e cloud computing. A Nvidia, por exemplo, reportou crescimento anual de 85% da receita, enquanto o Google Cloud cresceu 63% e o Azure, da Microsoft, avançou cerca de 40%.

Além disso, segundo Zambello, os balanços reforçaram a percepção de que o consumidor americano segue resiliente mesmo em um ambiente de juros elevados. O setor de consumo discricionário do S&P 500 teve surpresa positiva de lucro de 40,8%, superando expectativas já consideradas baixas pelo mercado.

"O mercado atravessa um ciclo de investimentos corporativos significativamente elevados, impulsionado principalmente pela temática de inteligência artificial e retornos aos acionistas mais moderados como consequência do elevado capex. Ainda assim, o nível de alavancagem do S&P 500 seguem reduzido com, em aproximadamente 1,5x dívida líquida/Ebitda", diz o BTG.

"Quando analisamos especificamente as empresas de tecnologia, a alavancagem média dos hyperscalers está em aproximadamente 0,4x dívida líquida/Ebitda, sugerindo espaço relevante nos balanços para continuidade do ciclo de investimentos em inteligência artificial nos próximos anos", acrescenta.

Já as empresas do Ibovespa registraram desempenho misto

Já o cenário brasileiro foi diferente. Segundo o Itaú BBA, a temporada do primeiro trimestre teve "desempenho misto entre os setores", com percepção geral "levemente negativa". As receitas das empresas do Ibovespa vieram 2,3% abaixo das projeções dos analistas, enquanto o Ebitda ficou 1,6% abaixo do esperado. Apenas o lucro líquido superou as estimativas, em 1,8%.

Na comparação anual, o lucro líquido agregado cresceu apenas 2,5%, número inferior ao observado nos EUA, onde o lucro subiu 27,5%. O contraste fica ainda mais evidente quando se observa a composição setorial dos índices.

Enquanto tecnologia e comunicação representam cerca de 48% do valor de mercado do S&P 500, o mercado brasileiro continua fortemente dependente de commodities e setores cíclicos. E foi justamente aí que apareceram os principais focos de fraqueza.

O Itaú BBA afirma que os resultados brasileiros foram "puxados para baixo" pelas commodities. Excluindo esse segmento, o lucro líquido do Ibovespa teria crescido 5,4%, mais do que o dobro do número consolidado. As receitas também teriam crescido 7,2%, assim como Ebitda, que teria subia 11,3%.

"Mesmo com números próximos do esperado, a percepção geral da temporada foi levemente negativa. Do total, 36,1% dos resultados foram classificados como positivos pelos nossos analistas e 27,8% como negativos. No agregado, 46,5% das companhias sob nossa cobertura reportaram lucro líquido acima das projeções, 16,2% ficaram em linha e 37,3% vieram abaixo do esperado", disse o Itaú BBA.

Setores ligados à economia doméstica também apresentaram desempenho desigual. Transportes e utilities foram destaques positivos, com crescimento de dois dígitos em Ebitda e lucro, enquanto consumo, bens de capital e petróleo e gás decepcionaram em parte dos indicadores.

Juros elevados pesam sobre o Brasil

A diferença estrutural aparece também no custo do capital e no ambiente macroeconômico. Nos EUA, o ciclo de investimento em IA ocorre em empresas com balanços leves, elevada geração de caixa e acesso barato a financiamento. Já no Brasil, parte das companhias enfrenta juros domésticos elevados justamente em um momento de expansão de investimentos.

É nesse ponto que entra a leitura da Moody’s Rating sobre empresas de mercados emergentes. A agência de classificação de risco afirma que 2026 tende a ser um ano mais desafiador para crédito corporativo em mercados emergentes, diante do aumento das tensões geopolíticas, volatilidade do petróleo, aperto das condições financeiras e desaceleração em setores cíclicos.

"A política financeira, governança e gestão de liquidez foram os principais vetores das mudanças na qualidade do perfil de crédito suficientemente relevantes para provocar movimentações de ratings", afirma a Moody's em relatório.

A agência argumenta que a diferença entre empresas resilientes e empresas pressionadas depende cada vez mais da disciplina financeira e da capacidade de preservar flexibilidade de balanço em momentos adversos. O relatório usa exemplos brasileiros para ilustrar essa divergência.

A Gerdau é citada como caso de maior resiliência, sustentada por uma "política financeira mais conservadora, geração maior de caixa e alavancagem menor". Já a Companhia Siderúrgica Nacional teria sofrido deterioração da qualidade de crédito devido à "elevada alavancagem e limitada flexibilidade financeira".

A Moody’s também aponta a Raízen como exemplo de estresse financeiro causado pela combinação entre decisões corporativas agressivas e ambiente macroeconômico adverso. Segundo a agência, o plano de investimentos financiado por dívida coincidiu com juros domésticos elevados e queda nos preços do petróleo e do açúcar, comprimindo margens e pressionando liquidez.

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