50 anos de Isay Weinfeld: mente por trás do Fasano ganha mostra no Tomie Ohtake

Por Luiza Vilela 24 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
50 anos de Isay Weinfeld: mente por trás do Fasano ganha mostra no Tomie Ohtake

Um berço, um caixão e um móvel inspirado nas batatas fritas do McDonald’s. À primeira vista, esses itens parecem não ter conexão, mas são eles são os fios que costuram a mente de Isay Weinfeld, um dos arquitetos brasileiros mais celebrados no mundo.

A partir do dia 5 de março, o Instituto Tomie Ohtake recebe Etcétera, a mostra mais abrangente já dedicada aos 50 anos de carreira do paulistano que se recusa a ter um estilo definido. Isay é o nome por trás dos hotéis Fasano (da Fazenda Boa Vista ao de Punta del Este) e foi o primeiro brasileiro desde Oscar Niemeyer a assinar edifícios residenciais em Nova York.

“Isay faz arquitetura sem saber desenhar. Desafiou um dos princípios basilares da arquitetura. Aliás, a fixação de seu primeiro desenho logo à entrada da exposição, uma casinha feita na infância, funciona como um recado aos estudantes: existem caminhos além daqueles previstos pelos currículos das escolas”, ressalta o texto de abertura de Farias.

Sob a curadoria de Agnaldo Farias e identidade visual de Giovanni Bianco, a exposição é um convite para entender como Isay pensa. Com cerca de 180 itens — de joias e peças de moda a curtas-metragens e maquetes que parecem esculturas —, a mostra revela que, para ele, a arquitetura é apenas um dos braços de um impulso criativo que começa no cinema e na música.

Meio século de Weinfeld

"Casa Cubo", de Isay Weinfeld (Instituto Tomie Ohtake)

Embora seja o nome por trás de endereços vips em Manhattan, como o novo The Elisa, Isay faz questão de rejeitar o rótulo de "arquiteto do luxo". Para ele, a palavra não diz nada. O que diz, de fato, é o cuidado com a experiência humana.

A perspectiva se reflete diretamente em Etcétera, que evita o formato expositivo mais habitual na arquitetura. A simples sequência de plantas, cortes e maquetes passa longe da nova mostra do Instituto Tomie Ohtake. O que o visitante deverá ver é menos a soma de carreiras paralelas e mais uma continuidade desenvolvida em diferentes suportes.

O núcleo apresentado traça um panorama a partir de 1973, quando o arquiteto abriu o primeiro escritório, e recua ainda a trabalhos de formação e a referências artísticas decisivas em sua construção criativa. O Hotel Fasano Fazenda Boa Vista aparece suspenso por cabos de aço sobre um espelho de contorno orgânico, em referência ao lago em frente ao hotel, enquanto o Instituto Ling, em Porto Alegre, é apresentado em nicho azul profundo pontuado por pequenos pontos de luz, como um céu estrelado.

Entre as peças da mostra, a oposição entre um berço e um caixão, ambos saídos da prancheta de Weinfeld, introduz uma dimensão simbólica que atravessa o percurso como metáfora do ciclo de vida e morte. A mesma capacidade de deslocamento surge quando o arquiteto recorre às formas das célebres batatas fritas e do copo de refrigerante com canudo do McDonald’s para conceber o mobiliário da rede de fast food, e transforma referências populares em linguagem de design com humor e precisão.

Outro destaque da exposição é o projeto para o programa Minha Casa, Minha Vida em frente ao Minhocão, em São Paulo. Com o degradê azul e áreas comuns pensadas para o convívio (como horta e lavanderia coletiva na cobertura), o edifício prova a assinatura do arquiteto.

No mobiliário autoral, essa lógica reaparece na Farmacinha (2010), desenvolvida para a Dpot: um sistema modular que reúne caixas de diferentes materiais, tamanhos e mecanismos de abertura e permite múltiplas combinações, de acordo com o uso e o repertório de cada cliente.

Música, cinema e cotidiano

Filmes de Isay Weinfeld (Instituto Tomie Ohtake)

Para além das construções, um dos pontos altos da mostra é a série fotográfica feita inteiramente com celular ao longo de dez anos.

Nela, o arquiteto registrou o "lado B" de São Paulo. A série de fotos deu origem ao livro ISAY W (Editora Oscar Riera Ojeda Publishers), com projeto gráfico de Giovanni Bianco. Durante uma década, Weinfeld percorreu a cidade e registrou placas, pixos, grafites, detalhes arquitetônicos, gatos, pombos e cenas corriqueiras em enquadramentos inesperados, para construir um estudo visual quase semiótico da vida urbana paulistana.

A relação entre música, imagem e arquitetura está presente também na série IW Filmes (2013–2025), composta por 34 curtas de um a três minutos. Cada filme é dedicado a uma obra do escritório e estruturado a partir de uma música escolhida por Weinfeld.

Serviço: 5 de março a 17 de maio, no Instituto Tomie Ohtake (Av. Faria Lima, 201).

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