A corrida dos chips chega ao deserto dos EUA: Arizona quer ser o novo Vale do Silício
Por décadas, a economia do estado do Arizona se organizou em torno de atividades primárias como agropecuária, mineração e turismo climático. Esse modelo está sendo varrido por investimentos bilionários na indústria de semicondutores e Phoenix virou o epicentro da transformação tecnológica. Mais de 75 empresas do setor chegaram à região nos últimos 5 anos, atraindo algo em torno de US$ 200 bilhões em capital. Para quem trabalha com desenvolvimento econômico no estado, é a maior virada industrial em gerações.
A região enfrenta resistência para se tornar o equivalente ao Vale do Silício no deserto. A mudança começou a dar os primeiros sinais em duas etapas diferentes. Primeiro, a pandemia de Covid-19 expôs de forma brutal o quanto os Estados Unidos dependiam de chips fabricados no exterior: a escassez paralisou desde montadoras até estoques de videogames.
Depois, veio a disputa geopolítica com a China pela liderança tecnológica, com semicondutores avançados no centro do tabuleiro. Em 2022, o governo de Joe Biden transformou essas preocupações em política pública com a lei CHIPS and Science Act, que destinou US$ 52,7 bilhões para trazer a fabricação de chips de volta ao solo americano.
O Arizona saiu na frente na disputa por esses recursos. A TSMC, maior fabricante de chips do mundo, diz ter recebido até US$ 6,6 bilhões do programa e comprometeu um investimento total de US$ 165 bilhões no estado, o maior aporte estrangeiro direto da história americana. Já a Intel garantiu, conforme apontou um relatório da empresa, até US$ 7,86 bilhões e anunciou US$ 32 bilhões em expansão local, apostando que a fabricação de processadores de ponta para inteligência artificial pode ser a virada que a empresa precisa depois de anos de tropeços estratégicos.
O que está sendo produzido ali importa além do mercado. Os chips de processo avançado que tanto a TSMC quanto a Intel planejam fabricar em Phoenix estão no centro da disputa tecnológica global; são componentes sem os quais os maiores modelos de IA não funcionam e cuja produção Pequim ainda não domina. Manter essa capacidade produtiva em território americano virou prioridade estratégica de Estado.
Arizona quer ser potência em IA, mas natureza dificulta
A Revolução Industrial, porém, pousou num dos ambientes mais hostis imagináveis para ela. O Arizona é um estado cronicamente árido e, entre as cidades grandes do país, Phoenix é a mais quente de todas. Fábricas de semicondutores são operações extremamente intensivas em água e energia, e a chegada em massa delas pressiona recursos que já estavam no limite.
O consumo hídrico de uma única fábrica da TSMC em operação equivale ao de mais de 14 mil residências por dia. A Intel, que já opera há décadas no estado, também registrou consumo de bilhões de galões em 2024. Ambas as companhias investem em reciclagem e têm metas declaradas de neutralidade hídrica.
A pressão sobre a rede elétrica segue lógica parecida. A combinação de novas fábricas e data centers já puxou os preços de energia para cima na região, e o estado ainda depende majoritariamente de gás natural. O resultado implica em mais emissões, que significam verões mais quentes, que significam mais demanda por ar-condicionado em uma cidade onde o calor é conhecido por dificultar a qualidade de vida.
Empresas tentam desmobilizar resistências com empregos
As promessas de emprego são o argumento mais usado pelas empresas para justificar sua chegada. O setor já emprega dezenas de milhares de pessoas em Phoenix, e projeções do setor apontam para crescimento expressivo de vagas até o fim da década. Universidades e faculdades locais correram para montar programas de formação técnica específicos para a indústria.
Há ainda a questão dos chamados químicos eternos PFAS, que são substâncias consideradas indispensáveis no processo de fabricação de chips e persistentes no organismo e no meio ambiente por décadas. A exposição prolongada está associada a uma série de condições graves de saúde, e o Vale do Silício ainda arrasta o passivo dessa negligência por ser a região com maior concentração de áreas de contaminação prioritária nos EUA. O Arizona, inclusive, tem seu próprio histórico com uma antiga fábrica que deixou uma mancha de poluição alastrada por quilômetros.
Diante de tudo isso, comunidades locais começaram a se organizar. No subúrbio de Peoria, moradores conseguiram pressionar uma empresa parceira da Apple a mudar o local planejado para uma nova fábrica bilionária, afastando-a de áreas residenciais. Na Europa não é diferente: Aragão, no norte da Espanha, virou um dos maiores polos de centros de processamento de dados do continente, apesar do descontentamento de locais.
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