A década do saneamento: como empresas apostam bilhões para universalizar água e esgoto até 2033

Por Sofia Schuck 6 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A década do saneamento: como empresas apostam bilhões para universalizar água e esgoto até 2033

Durante décadas, moradores da comunidade de palafitas Beco Nonato, na zona Sul de Manaus, conviviam com esgoto a céu aberto e sem um pingo de água na torneira.

É o caso de Patriolina Maria de Albuquerque Tavares, de 67 anos, que vivenciou a transformação no território quando a água encanada e a rede de esgoto chegaram pela primeira vez à região onde vive há cerca de 50 anos.

O Beco Nonato é um belo exemplo da revolução que vive o saneamento brasileiro.

Na comunidade, a Aegea implantou uma estrutura adaptada à realidade das palafitas, moradias construídas sobre estruturas elevadas de madeira, suspensas sobre igarapés e áreas alagadas da capital amazonense.

A intervenção reduziu a exposição ao esgoto e melhorou as condições sanitárias da população, que por muito tempo ficou sem acesso a um serviço e direito básico ligado diretamente à saúde e à qualidade de vida.

O caso é um retrato do tamanho do desafio no Brasil, que convive com um déficit histórico de saneamento. Em pleno 2026, cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água tratada e aproximadamente metade da população segue sem coleta e tratamento de esgoto.

Foi justamente para enfrentar esse atraso que o marco regulatório do saneamento, aprovado em 2020, estabeleceu a meta de universalização dos serviços até 2033: 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.

Desde então, o setor entrou em uma nova fase marcada por privatizações, concessões bilionárias e uma corrida por investimentos em infraestrutura, tecnologia e expansão das redes.

“É o telecom da água há 30 anos atrás”, exemplifica, Teresa Vernaglia, ex-CEO da BRK Ambiental e atual conselheira de empresas de infraestrutura. “Sem privatização e sem leilões, não chegaremos na meta", diz em entrevista à EXAME.

O paralelo é com as privatizações da telecomunicações nos anos 1990. “Naquela época, a gente ficava na fila para conseguir um telefone. Hoje isso é inimaginável. O saneamento vive uma mudança semelhante", sustenta.

Teresa Vernaglia, ex-CEO da BRK. Foto: Leandro Fonseca. (Leandro Fonseca/Exame)

A executiva acompanha a transformação do setor desde 2017, quando deixou a área de energia para assumir a BRK Ambiental. Segundo a ex-CEO, naquele momento o saneamento ainda era praticamente invisível na agenda pública.

“Ninguém falava sobre. Saímos da idade medieval do saneamento no Brasil”, destaca.

Para ilustrar o tamanho do atraso histórico, Teresa cita Guarulhos, cidade da região metropolitana de São Paulo que abriga o maior aeroporto da América Latina, como exemplo de um cenário que se repetia até poucos anos atrás: era apenas 5% de esgoto tratado.

“Isso mostra que o problema não era só de estados mais pobres. É um gargalo estrutural e nacional", garante. Para a executiva, o grande entrave histórico do setor sempre foi a falta de capacidade de investimento combinada à ausência de regulação.

“Dois pilares precisam existir: segurança jurídica e pipeline de projetos”, afirma.

O marco regulatório mudou essa lógica ao criar metas obrigatórias de universalização e abrir espaço para uma onda de concessões privadas.

Desde então, mais de 60 leilões foram realizados no país, a exemplo de concessões relevantes como Cedae (RJ), Corsan (RS), Sabesp (SP), além de operações no Pará, Amapá e Alagoas, que juntas movimentaram dezenas de bilhões de reais.

A expectativa agora se concentra em um dos próximos grandes movimentos do mercado: a possível privatização da Copasa, em Minas Gerais. Segundo Teresa, os investimentos previstos para universalizar a operação podem chegar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões.

“Se antes do marco não havia a menor possibilidade de 2033 acontecer, agora provavelmente não será 100%, mas estaremos infinitamente melhor”, garante.

Hoje, a participação do setor privado, que representava menos de 10% do mercado em 2017, já se aproxima de 30%, segundo estimativas.

Para Teresa, os avanços dependem da combinação entre segurança jurídica, novos leilões e entrada de investidores internacionais.

"Os investimentos fazem total diferença no impacto social", frisa.

O plano bilionário da Sabesp em São Paulo

A Sabesp se tornou um dos principais laboratórios desse novo modelo. Privatizada em 2024, a companhia estruturou um plano de investimentos voltado à antecipação da universalização em São Paulo para 2029, quatro anos antes da meta nacional.

Segundo Samantha Souza, vice-presidente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da companhia, o novo contrato nasceu com um desafio diferente e é único no setor. "Só existe na Sabesp no mundo”, afirmou em entrevista à EXAME.

Na prática, isso significou ampliar o escopo da universalização para incluir populações que historicamente ficavam fora dos contratos tradicionais, como as áreas informais e rurais.

“Muita gente dizia que a Sabesp já era universalizada. Isso é verdade olhando apenas para o núcleo urbano. Quando você inclui essas outras áreas, ainda existia um déficit enorme".

Samanta Souza, vice-presidente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Sabesp. Foto: Sabesp / Divulgação (Sabesp / Divulgação)

O desafio também passa pela informalidade urbana. Um levantamento revente em 10 comunidades de São Paulo e Guarulhos encontrou 1.705 domicílios fora das bases operacionais das concessionárias. Enquanto os registros oficiais apontavam 1.152 imóveis nas regiões analisadas, o levantamento de campo identificou 2.857 moradias reais. A estimativa é que milhões de litros de água consumidos mensalmente nessas áreas sequer apareçam nos sistemas oficiais.

Para chegar na meta, a Sabesp saltou de R$ 5 bilhões para R$ 15 bilhões de investimento por ano e traçou um plano com previsão de R$ 70 bilhões.

“A Sabesp saltou de R$ 5 bilhões para R$ 15 bilhões de investimento por ano”, afirma Samantha. Isso significa sair de cerca de R$ 100 por habitante para cerca de R$ 510.

A companhia também criou o conceito de “lucro social”, transformando o ganho financeiro em expansão da infraestrutura, amortecimento tarifário e reinvestimento contínuo no saneamento.

Segundo a diretora, o desenho da privatização separou parte dos recursos obtidos na operação para abastecer o Fundo de Apoio à Universalização (FAUSP), utilizado para suavizar tarifas e sustentar a expansão dos investimentos sem pressionar a conta do consumidor. Hoje, 80% do lucro volta para investir no setor.

Do lucro líquido de R$ 8,5 bilhões registrado em 2025, 75% foram reinvestidos no negócio, enquanto 25% foram distribuídos aos acionistas. Parte dos dividendos destinados ao Estado de São Paulo alimenta o fundo que ao final foi alimentado com cerca de R$ 1,3 bilhão.

O ciclo de investimentos da companhia movimentou R$ 15,2 bilhões na cadeia de construção, bens e serviços, gerando aproximadamente 40 mil empregos diretos e indiretos.

Outro foco da empresa é a expansão da tarifa social. Atualmente, cerca de 2 milhões de ligações já são atendidas pelo programa, avanço de 60% em relação ao quarto trimestre de 2024.

Tecnologia, perdas e eficiência

Além da expansão da infraestrutura, as empresas agora entram em uma segunda fase do setor: eficiência operacional e tecnologia.

O Brasil ainda perde cerca de 40% da água tratada antes que ela chegue ao consumidor, segundo dados. Em algumas regiões do Norte e Nordeste, esse índice pode chegar a 70%.

Como falar de mudança climática e segurança hídrica sem falar de saneamento frente a essa realidade? Na Sabesp, uma das apostas está no uso de inteligência artificial e monitoramento via satélite para identificar vazamentos. Parte dos seus investimentos também é destinado para tecnologias de tratamento de esgoto.

“Não estamos só expandindo. Estamos ampliando e trazendo inovações ao setor”, garante Samantha.

Um dos projetos em destaque é a implantação da tecnologia holandesa Nereda na Estação de Tratamento de Esgoto Parque Novo Mundo, em São Paulo. A planta será uma das maiores do mundo utilizando esse modelo.

Hoje, a Sabesp mantém mais de 1.100 frentes de obra simultâneas. "A cada 36 segundos um domicílio é encaminhado para tratamento de esgoto hoje”, afirma a diretora.

Em 2025, a companhia afirma ter ampliado o acesso à água para 1,8 milhão de pessoas e levado infraestrutura de coleta de esgoto a outros 781 mil imóveis.

Já no tratamento de esgoto, cerca de 3,8 milhões de pessoas passaram a ter o esgoto efetivamente tratado. A meta é especialmente importante para a região metropolitana de São Paulo, já que 60% da carga poluidora do Rio Tietê vem do despejo de esgoto.

A estratégia nacional da Aegea

Se a Sabesp representa o modelo paulista, a Aegea simboliza a expansão nacional do setor privado.

A companhia atua em mais de 890 municípios, distribuídos em 15 estados, atendendo mais de 39 milhões de pessoas.

“A universalização do saneamento no Brasil é, antes de tudo, um desafio de execução em escala”, afirmou à EXAME, Adriana Albanese, diretora de Sustentabilidade e Relações com Investidores da companhia.

Adriana Albanese, diretora de RI e sustentabilidade. Foto: Aegea / Divulgação (Aegea/Divulgação)

Segundo a executiva, o desafio da próxima década não é apenas financeiro, mas operacional: executar obras simultaneamente em centenas de municípios, formar mão de obra e adaptar soluções para realidades urbanas muito diferentes.

A estimativa é que o setor demande cerca de R$ 800 bilhões em investimentos até 2033.

“Os próximos anos precisam entregar, em ritmo consistente, a maior parcela desse total", diz a executiva.

Para chegar lá, a estratégia da empresa combina expansão de infraestrutura, ganho de eficiência operacional e inclusão sanitária.

Os investimentos em 2025, incluindo outorgas, somaram R$ 8,6 bilhões.

“Esse volume só se viabiliza pela articulação entre capital estruturado, capacidade de execução e desenvolvimento de capacidade produtiva nos territórios”, acrescenta a diretora.

A Aegea também aposta no ESG como peça-chave central.

“A agenda não é tratada como uma frente paralela, mas como um elemento estruturante do modelo de negócios”, diz Adriana. Hoje, a tarifa social da companhia beneficia cerca de 2,7 milhões de pessoas.

Rio, Manaus e as áreas mais vulneráveis

A Aegea concentra parte importante de sua atuação em regiões historicamente negligenciadas pelo saneamento.

No Rio de Janeiro, por meio da Águas do Rio, os investimentos já superam R$ 20 bilhões desde o início da concessão. Diariamente, cerca de 130 milhões de litros de esgoto deixaram de ser despejados diariamente na Baía de Guanabara.

O volume ajuda a dimensionar o impacto ambiental da nova onda de investimentos no setor, especialmente em regiões historicamente marcadas pela ausência de infraestrutura.

Na Maré, uma das maiores comunidades do país, as obras devem beneficiar aproximadamente 200 mil pessoas.

Já em Manaus, a operação da Águas de Manaus virou um dos principais exemplos de adaptação da infraestrutura à realidade amazônica. Desde 2018, os investimentos na cidade já superam R$ 2,3 bilhões.

A cidade alcançou a universalização do abastecimento de água em 2023 e ampliou a cobertura de esgoto de 16% para 40%. Foi nesse contexto que a moradora Patriolina viu a transformação chegar ao Beco Nonato.

Águas de Manaus leva água tratada para comunidade em palafitas (Aguilar Abecassis/Água de Manaus)

A comunidade de palafitas passou décadas convivendo com canais contaminados e esgoto despejado diretamente nos igarapés.

O projeto se tornou símbolo de um desafio que o setor tenta resolver em escala nacional: levar saneamento para territórios onde a infraestrutura tradicional e a água de qualidade nunca chegou.

A corrida até a universalização em 2033

Apesar da aceleração dos investimentos, as executivas ouvidas pela EXAME reconhecem que a meta de universalização segue desafiadora.

Além do capital necessário, o setor ainda enfrenta gargalos de execução, mão de obra, engenharia e desigualdade regional.

“A universalização depende de capital, execução em escala e segurança jurídica”, resume Teresa.

Ainda assim, o cenário atual é visto como o momento de maior transformação do saneamento brasileiro em décadas.

Da Baía de Guanabara às palafitas de Manaus, passando pelos bilhões movimentados por novas concessões e pela expansão das redes em São Paulo, o setor tenta acelerar uma mudança histórica.

Uma corrida que mistura infraestrutura, tecnologia, regulação e impacto social, e que pode definir como milhões terão acesso ao básico nos próximos anos.

Para a moradora do Beco Nonato, a universalização não aparece em metas regulatórias nem em bilhões de reais investidos. Ela aparece na mudança do cotidiano de uma comunidade que passou décadas convivendo com esgoto a céu aberto.

No fim do dia, é sobre levar água tratada e esgoto para lugares antes inacessíveis, enquanto o setor corre para alcançar a meta até 2033.[/grifar]

1/16 (COLETA-PARA-ANÁLISE-DA-QUALIDADE-DA-ÁGUA-DO-IGARAPÉ---BECO-NONATO)

2/16 (ESTRUTURA-DE-ESGOTO---BECO-NONATO)

3/16 (ESTRUTURA-DE-REDE-COLETORA-DE-ESGOTO-EM-PALAFITAS)

4/16 (IMPLANTAÇÃO-DE-REDE-DE-ESGOTO---BECO-NONATO)

5/16 (LIGAÇÃO-INTRADOMICILIAR---BECO-NONATO)

6/16 (LIGAÇÃO-INTRADOMICILIAR---BECO-NONATO-1)

7/16 (LIGAÇÃO-INTRADOMICILIAR---BECO-NONATO-3)

8/16 (MORADORA-DO-BECO-NONATO---GISELE-DANTAS)

9/16 (MORADORA-DO-BECO-NONATO---YVONE-DANTAS)

10/16 (Rede-de-esgoto)

11/16 (REDE-DE-ESGOTO---BECO-NONATO)

12/16 (REDE-DE-ESGOTO-EM-ÁREA-DE-PALAFITA)

13/16 (REDE-DE-ESGOTO-EM-PALAFITAS)

14/16 (REDE-DE-ESGOTO-EM-PALAFITAS-2)

15/16 (REDE-DE-ESGOTO-EM-PALAFITAS-3)

16/16 Beco Nonato em Manaus (REDE-DE-ESGOTO-EM-PALAFITAS---BECO-NONATO)

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