A empresa de Israel que demitiu mil pessoas porque a moeda local ficou forte demais

Por Caroline Oliveira 30 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A empresa de Israel que demitiu mil pessoas porque a moeda local ficou forte demais

A empresa israelense de criação de sites Wix.com anunciou nesta quinta-feira, 28, a demissão de cerca de 20% da força de trabalho — aproximadamente mil pessoas. O CEO Avishai Abrahami atribuiu a decisão a dois fatores combinados: a valorização do shekel frente ao dólar e as mudanças estruturais provocadas pelo avanço da inteligência artificial.

"Isso cria uma pressão estrutural sobre nossa capacidade de operar na escala atual", escreveu o executivo ao comentar o movimento cambial.

Nos últimos 12 meses, a moeda israelense acumulou alta próxima de 30% em relação ao dólar, atingindo o maior nível em 33 anos, segundo a Reuters. Para empresas de tecnologia como a Wix, o impacto é direto: enquanto grande parte da receita é gerada em dólar, boa parte das despesas — especialmente salários — é denominada em shekel, comprimindo as margens. No fim do primeiro trimestre, a companhia tinha 5.277 funcionários, a maioria em Israel.

Inteligência artificial acelera reestruturação

Além do câmbio, Abrahami destacou o avanço acelerado da inteligência artificial como fator determinante para a decisão de enxugar a estrutura.

"Estamos testemunhando a mudança mais significativa na forma como empresas são construídas desde a invenção das linguagens modernas de programação nos anos 1970", afirmou em mensagem aos funcionários.

Segundo o CEO, a Wix precisará operar de forma "mais rápida, enxuta e menos hierárquica", reduzindo níveis de gestão e acelerando processos internos. A combinação de pressão cambial e automação que motivou os cortes na Wix reflete uma tendência mais ampla no setor: em 2026, mais de 30 grandes empresas já anunciaram demissões em massa, impulsionadas por reestruturações e pela adoção de IA. Apesar dos cortes, Abrahami defendeu a necessidade da mudança. "É uma mudança dolorosa, mas acredito sinceramente que não temos outra escolha — precisamos evoluir", declarou.

Setor produtivo critica ausência de resposta do governo

A associação de fabricantes de Israel afirmou que o anúncio da Wix também reflete a falta de medidas mais contundentes do governo e do banco central para conter a valorização do shekel.

"A reação da economia à queda do dólar é mais rápida e severa do que imaginávamos", afirmou a entidade em comunicado reproduzido pela Reuters. "Infelizmente, na ausência de qualquer ação governamental, a indústria e o setor de alta tecnologia tomarão decisões baseadas unicamente em critérios econômicos."

Apesar das críticas, o Banco Central de Israel indicou que não pretende intervir no curto prazo. O vice-governador Andrew Abir afirmou à Reuters que a autoridade monetária não tem planos imediatos de atuar no mercado de câmbio, pois a moeda forte está auxiliando a conter a inflação. As ações da Wix, listadas na Nasdaq, acumulam queda próxima de 50% em 2026.

Tecnologia sustenta a economia israelense mesmo com guerra

A valorização da moeda ocorre em um contexto incomum. Após o início da guerra entre Israel e Hamas, em outubro de 2023, o Banco de Israel chegou a disponibilizar US$ 30 bilhões em reservas internacionais para estabilizar o shekel, que havia sofrido forte desvalorização inicial. Desde então, apesar do conflito, a economia israelense manteve parte de sua resiliência graças ao peso do setor de tecnologia, ao fluxo de capital estrangeiro e à confiança dos investidores no ecossistema de inovação do país.

Keren Uziyel, analista sênior da Economist Intelligence Unit, afirmou à CNBC que fatores como baixa inflação, mão de obra altamente qualificada e crescimento sustentado ajudaram o país a atravessar o período de crise. "As exportações de bens e serviços de alta tecnologia têm sido o principal fator por trás das últimas duas décadas de forte crescimento e criação de riqueza", afirmou.

Os índices Tel Aviv 35 e Tel Aviv 125 acumulam altas expressivas no ano, enquanto o shekel se fortaleceu frente ao dólar — movimento que analistas associam à retomada da confiança de investidores nos setores de tecnologia e defesa. Karen Schwok, fundadora e CEO da gestora Lucid Investments, resumiu o cenário à CNBC: "A moeda é um sinal real. Ela é impulsionada pelo retorno dos fluxos de capital estrangeiro, mas também é um indicador da confiança dos investidores."

Por outro lado, especialistas alertam para pressões internas crescentes. João Gomes, professor de finanças da Wharton School, apontou à CNBC que Israel já sente os efeitos prolongados dos conflitos na região — especialmente pela mobilização de trabalhadores para o serviço militar, queda no consumo e impacto sobre turismo e serviços. "Na ausência de um acordo de paz bem-sucedido, a perspectiva é mais desafiadora, com riscos que incluem fuga de capitais, desvalorização da moeda e, muito provavelmente, inflação", alertou.

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