A Guerra no Irã pode deixar a reforma da sua casa mais cara: entenda
A construção civil voltou a acender o sinal de alerta. A partir de abril, uma nova rodada de aumento de custos de insumos deve atingir o setor, pressionada por fatores que vão da alta do petróleo devido à guerra no Irã às decisões tarifárias do governo federal. O efeito tende a se espalhar rapidamente — e, no fim da cadeia, chegar ao consumidor.
Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), há indicativos de reajustes em materiais essenciais como cimento, argamassa e, principalmente, derivados plásticos como o PVC. A entidade aponta que o movimento repete, em parte, o que foi observado durante a pandemia, quando choques globais elevaram os custos de produção e travaram obras em diferentes regiões do país.
Apesar da guerra no Oriente Médio, o impacto mais imediato vem da revisão do Imposto de Importação sobre resinas como polietileno e PVC, discutida no âmbito da Camex (Câmara de Comércio Exterior). Esses materiais estão presentes em praticamente todas as etapas de uma obra, da fundação à entrega, e funcionam como um dos principais vetores de custo.
No caso do PVC, o peso é ainda mais sensível. O material é base para sistemas elétricos e hidrossanitários, especialmente tubulações. Em projetos de habitação popular, essa etapa pode representar entre 6% e 9% do custo total da obra. Em empreendimentos de alto padrão, a fatia sobe para até 11%.
Na prática, isso significa que qualquer reajuste relevante nesses insumos tem efeito direto no custo final do imóvel.
O preço para o consumidor final
Esse encarecimento chega ao consumidor por diferentes caminhos. O primeiro é o preço de venda: incorporadoras tendem a repassar parte da alta para os novos lançamentos. O segundo é o ritmo de obras: projetos podem ser adiados ou redimensionados diante da perda de margem. E o terceiro é o crédito: custos mais altos pressionam o valor financiado e, consequentemente, as parcelas.
O momento é especialmente sensível porque coincide com a meta do governo federal de entregar 3 milhões de moradias pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Como o segmento econômico trabalha com margens mais apertadas, ele é também o mais vulnerável a oscilações de custo.
Na prática, quanto mais caro fica construir, mais difícil fica fechar a conta da habitação popular — e maior o risco de desaceleração nos lançamentos.
A pressão não se limita ao mercado residencial. Obras de saneamento também devem sentir o impacto. O PEAD, derivado da mesma cadeia de resinas, vem substituindo materiais tradicionais como concreto e ferro fundido por ser mais leve, barato e fácil de instalar. Com o aumento de custo, esse ganho de eficiência pode ser parcialmente perdido.
A dependência da oferta
Há ainda um fator estrutural que agrava o cenário: a dependência de oferta. A produção de resinas no Brasil é concentrada em um único player, e as opções de importação são limitadas, sobretudo aos Estados Unidos. Conflitos geopolíticos dificultam o acesso a fornecedores da Ásia e do Oriente Médio, enquanto sobretaxas sobre produtos americanos e canadenses reduzem ainda mais as alternativas.
O resultado é um ambiente de oferta restrita e pouca capacidade de reação — combinação que tende a amplificar os repasses de preços.
Para a CBIC, a situação exige medidas para evitar uma escalada de custos que comprometa obras em andamento e futuras. O risco, segundo a entidade, não é apenas setorial, mas macroeconômico: a construção civil é uma das principais geradoras de emprego no país e tem efeito direto sobre o crescimento.
No curto prazo, o consumidor deve sentir o impacto de forma gradual. Imóveis na planta podem subir de preço, reformas tendem a ficar mais caras e projetos públicos podem sofrer atrasos.
No limite, a conta da volatilidade global — do petróleo à geopolítica — volta a bater na porta do comprador brasileiro.
Veja a entrevista completa com o vice-presidente de Materiais, Tecnologia, Qualidade e Produtividade da CBIC, Dionyzio Klavdianos:
De que forma a guerra no Irã e demais conflitos geopolíticos podem impactar o preço dos insumos?
Além do Irã , temos conflitos graves entre Rússia e Ucrânia e na Venezuela, três dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural, matéria prima da resina, base da produção do PVC e plásticos, materiais que são utilizados em todas as etapas da cadeia da construção civil , da fundação ao pós obra. A queda do fornecimento e até a aescassez podem provocar sérios impactos na inflação no setor. Outro impacto negativo é no fornecimento de diesel, base do frete rodoviário, um dos itens de maior peso na formação de preços da construção civil de um país continental como o nosso, cuja base logística concentra-se no modal rodoviário.
O aumento do Imposto de Importação sobre a resina de polietileno é por causa da guerra? Ou aconteceria independente dela?
Não é possível prever cenários, mas no que tange à resina, a produção brasileira do insumo é oligopolizada, basicamente uma única fábrica detém a totalidade de seu fornecimento. Existe a preocupação em proteger uma indústria local de transformação, notadamente agora com o advento da Nova Indústria Brasil e com a tendência mundial protecionista. Importante frisar que o aumento do imposto de importação, no caso, direcionado as importações do Canadá e Estados Unidos - nossas únicas outras fontes da matéria-prima para resina fora do Oriente Medio - dá sinais para que a indústria local possa elevar mais o preço do seu insumo.
O aumento do Imposto de Importação é uma decisão de política tributária interna, deliberada pelo GECEX-CAMEX, com o objetivo de proteger a indústria nacional. No entanto, o efeito é agravado pela guerra. O conflito inviabiliza o comércio com parceiros da Ásia e do Oriente Médio, restringindo as opções de suprimento externo praticamente aos Estados Unidos. Com a decisão do governo de também impor sobretaxas aos produtos americanos e canadenses, o setor fica duplamente pressionado: pela escassez global e pelo protecionismo nacional, em um mercado interno onde a produção da resina é monopolizada por uma única empresa.
De que formas o impacto chega ao consumidor final?
O consumidor pode sofrer os impactos de um eventual aumento do custo da obra. O peso da etapa das instalações hidrossanitárias numa obra de construção imobiliária varia de 6% a 11% no custo total da construção. Os demais insumos transportados pelas rodovias brasileiras, sensíveis ao aumento do custo do frete, como o concreto , cimento e vergalhões de aço também podem representar aumento no custo dos empreendimentos, que vão desde as habitações de interesse social a obras de saneamento.
Esse aumento já deve aparecer no preço dos imóveis novos em quanto tempo?
Os efeitos inflacionários podem começar a ser sentidos e calculados nos boletos de mensalidades dos imóveis adquiridos e nos contratos de obras públicas em até dois meses após a elevação dos índices utilizados para medir a inflação.
Existe risco de paralisação ou atraso de obras em andamento?
A CBIC vem monitorando a situação e o desenvolvimento do conflito para que a dificuldade de encontrar fornecedores externos não impossibilidade a finalização de instalações essenciais e o comprometimento do canteiro.
O setor está mais preparado hoje do que na pandemia para lidar com isso?
O cenário impõe dificuldade para o desenvolvimento do setor. Uma obra imobiliária padrão necessita de 3 mil a 4 mil itens distintos de insumos para ficar pronta. O setor permanece em crescimento, mas a impossibilidade de formar estoques e a margem financeira pequena torna a construção civil brasileira mais vulnerável a decisões políticas e oscilações geopolíticas.
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