A liderança não nasce, se treina: onde tudo começou

Por André Weinmann 15 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A liderança não nasce, se treina: onde tudo começou

Minha jornada executiva não começou em uma sala de reunião da Best Foods ou da Nestlé. Ela começou em uma sobreloja na rua Rafael de Barros, no bairro do Paraíso, em São Paulo. Eu era um adolescente cuja rotina se dividia entre a escola e o fliperama com meu amigo Binho. Um dia, atraídos por uma placa com a imagem de um lutador dando um chute, entramos naquela academia e nos tornamos os primeiros alunos de um jovem instrutor que via em nós muito mais do que nós mesmos enxergávamos: Carlos Negrão.

Ali, aprendi a primeira e mais valiosa lição sobre alto rendimento: a liderança é um processo de transformação. O plano inicial era treinar três vezes por semana, mas, sob o comando do Negrão, em pouco tempo estávamos treinando todos os dias, com corridas extras no Ibirapuera às 5h da manhã, antes mesmo de eu ir para a escola. Cinco meses após o primeiro treino, eu já estava em um campeonato — ganhei o título, mas saí com o nariz quebrado na primeira luta. Cinco anos depois, eu estava disputando o Campeonato Mundial Universitário.

O mestre Negrão era honesto: dizia que eu era "duro", sem flexibilidade e com um talento apenas mediano. Mas ele elogiava algo que eu tinha de sobra: a vontade. Hoje, após três décadas naquele rally que é a nossa vida, entendo que a vontade sozinha não resolve, mas ela é a matéria-prima para construir qualquer coisa com alguma excelência.

Negrão não apenas nos treinava; ele criava um ecossistema de performance. Ele trazia referências externas, nos fazia assistir a vídeos dos coreanos (os melhores do mundo na época) e organizava "amistosos" em outras academias para testarmos nosso nível. Ele trazia especialistas de fora para seminários e até transformava o Carnaval em um "retiro de treino" em Palmital, garantindo que estivéssemos no auge para o Campeonato Paulista duas semanas depois.

Ele nos vendia um objetivo que parecia ilusório — "vocês serão campeões mundiais" — e, embora eu não tenha sido campeão mundial, aquela visão me levou a fazer parte da elite global do esporte. Como líder, ele me ensinou que o papel do gestor é estabelecer rituais, buscar referências globais e, acima de tudo, converter o medo em performance. No Mundial, quando confessei que estava apavorado, ele me disse: "Estar aqui é maravilhoso. Faz o que você sabe que vai sair bonito". Perdemos aquela luta por 6 a 4 em um combate intenso, mas saí do tatame com o maior orgulho da minha vida e uma lição que carrego até hoje em cada ambiente que participo: a liderança se treina, a coragem se cultiva e a excelência é o resultado de uma disciplina inegociável.

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