'A moda masculina virou uma expressão de masculinidade', diz Robin Givhan à EXAME
A moda existe desde sempre e, embora o senso comum ainda insista em empurrá-la para o terreno da futilidade, ela é uma das formas de linguagem mais universais do planeta. Vestir-se é falar sem usar palavras, um espelho cru das nossas mudanças sociais e históricas.
É isso o que pensa Robin Givhan, ex-crítica sênior do The Washington Post (WP) e vencedora do Prêmio Pulitzer de crítica pela cobertura de moda. A jornalista visitou o Brasil nesta semana para participar do Rio2C, maior evento de economia criativa da América Latina.
Uma das vozes mais respeitadas da crítica cultural global, com ensaios publicados em veículos como The New York Times, Vogue e The New Yorker, e autora de livros marcantes como “The Battle of Versailles”, Givhan nasceu em Detroit, nos Estados Unidos. Começou em publicações pequenas até ser chamada para o WP, com a função de assinar a coluna crítica de moda.
Em entrevista à Casual EXAME, comentou sobre o momento atual da indústria e destacou o guarda-roupa masculino como um dos territórios mais férteis da moda contemporânea.
Veja a entrevista com Robin Givhan, uma das maiores críticas de moda do mundo
A moda masculina é a coisa mais diferente da moda nos dias de hoje. Você acredita que ela já está mudando a expressão da masculinidade?
Houve um período com dois extremos entre as mulheres e a comunidade LGBTQIA+ e os homens heterossexuais, mas agora há um meio-termo. Temos a criatividade que se via no lado LGBTQIA+, mas também acabamentos, tecidos e alfaiataria bonitos do lado tradicional e conservador. O que vejo hoje como interessante é o que circula no meio desses dois "opostos", digamos assim.
Há um novo grupo de ícones da moda masculina, de atletas a atores, que são heterossexuais e estão mais ousados na moda. Colman Domingo imediatamente me vem à cabeça, por exemplo, e também os mais jovens, como Timothée Chalamet, músicos dos mais diversos. Eles estão celebrando a parte criativa da moda sem se esquivar de cores, babados, listras, padrões e texturas, de uma forma muito masculina. Isso está borrando o sentido do gênero e sublinha que existe um espectro real dentro da indústria como um todo.
A moda feminina também já percebeu essa ideia de que o gênero é um espectro e está misturando elementos masculinos e femininos. Gravatas, ternos, acessórios grandes, broches. Ela "empresta" do lado de lá. E a moda masculina está fazendo o mesmo, sem perder a perspectiva.
Você acha que isso tem a ver com uma mudança nos relacionamentos entre homens e mulheres? Digo, essa busca pelo "homem ideal" passa pela moda?
É tão interessante como ela faz parte do comportamento de ambos os lados. A moda masculina está mais influente porque é tratada agora como uma expressão de masculinidade, que pode ser usada e abraçada por qualquer pessoa.
Sinto que, mais do que aparência, ela está brincando com a ideia de "energia masculina", que é diferente da toxicidade. Sugere que você está acessando um tipo de energia que todos têm, um pouco de energia masculina e um pouco de energia feminina, e você traz à tona o que quiser em um determinado dia. E isso pode ser muito mais atraente para as mulheres, ou não, depende muito.
Mas eu acredito que é por isso que os homens têm sido tão interessantes nesse mercado de moda. Por exemplo, nos tapetes vermelhos durante o Oscar, homens como Pedro Pascal com aquela flor imensa, várias cores diferentes e não só paletós monocromáticos com cortes conservadores, pareciam ótimos. Não parecia uma fantasia ou uma tentativa intencional de ser extravagante, mas sim algo fácil e que fazia sentido.
Masculinidade à parte, queria ouvir de você como enxerga essa guinada da moda para abraçar novamente o estilo magro. Efeito Ozempic e nostálgico? Parece que voltamos aos anos 2000.
Algumas pessoas atribuem isso aos medicamentos GLP-1 para perda de peso. Eu já acredito que vai além disso. A moda é notória por tratar obrigações morais e decisões de negócios sábias como tendências. Por um tempo, houve mais diversidade na passarela, mas depois decidiram que a tendência havia acabado.
Há um aspecto teimoso da moda que ainda vê o corpo fashion como uma coisa particular, e todo o resto é extra. Tudo o mais é comparado a esse tipo de corpo "ideal". O setor ainda não se afastou da ideia de que o tipo de corpo alto e magro é um tipo de corpo, mas não o ideal; é apenas um de muitos.
O aspecto comercial por si só deveria dizer a eles que estão deixando muito dinheiro na mesa. É um problema teimoso que eles ainda não resolveram, e a resposta não é complicada: apenas faça mais tamanhos. Os corpos são diversos, qual é a dificuldade?
E para fechar, qual você acredita ser o maior desafio da moda hoje em dia?
Pergunta difícil, mas acredito que o maior desafio da moda é que ela ainda luta para reconhecer plenamente suas responsabilidades para com a cultura em geral. Designers devem se inspirar de onde quiserem, explorando outras culturas. Mas, com essa liberdade, vem a responsabilidade de evoluir e admitir de onde obtém sua inspiração, incluí-la no processo para não explorar (no mau sentido da palavra) as populações e outros artistas.
O que vemos é que a indústria quer vender e se tornar um negócio bilionário, o que é ótimo. Mas, com isso, vem a responsabilidade de reconhecer como estão tratando seus trabalhadores e como sua produção impacta o meio ambiente. O maior desafio da indústria é ver sua responsabilidade em relação aos negócios, à cultura e aos seus clientes. Minha frustração surge quando eles simplesmente não cumprem suas responsabilidades.
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