Plástico nas araras do luxo: a dependência da moda pelo poliéster

Por Gustavo Frank 21 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Plástico nas araras do luxo: a dependência da moda pelo poliéster

O poliéster é essencialmente plástico. É derivado do petróleo, demora décadas para se decompor e solta microplásticos a cada lavagem. É também o tecido mais usado na indústria da moda global. E está bem presente nas araras de grifes de luxo.

O material domina o mercado por razões práticas. Não amassa, estica com facilidade, é barato de produzir em escala e consegue imitar a textura de tecidos mais nobres, como organza, chiffon e cetim, especialmente em blendagens. Para o fast fashion, a lógica é puramente de custo. Para o luxo, a relação é mais complexa.

Designers de vanguarda usam poliéster como ferramenta técnica há décadas. Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, construiu peças escultóricas com o material, incluindo, segundo a 'Marie Claire', o look icônico de Rihanna no Met Gala de 2017.

A Issey Miyake desenvolveu nos anos 1990 a linha Pleats Please inteiramente em poliéster, submetendo o tecido a um processo de calor que cria pregas permanentes que não se deformam com o tempo.

O resultado é uma peça leve, durável e de manutenção simples que se tornou objeto de desejo. O poliéster, nesse contexto, não é atalho. É a única forma de alcançar determinadas formas e volumes que tecidos naturais simplesmente não sustentam.

Rihanna no Met Gala de 2017 com look da Comme des Garçons de Rei Kawakubo (Getty Images)

No segmento convencional do luxo, a equação é diferente e mais delicada. Com as vendas em queda e os custos de produção em alta, marcas têm cedido à pressão de reduzir a qualidade dos tecidos. Segundo a CNN, ao longo de 2025, fabricantes receberam pedidos crescentes de grifes pedindo substituições: de seda por viscose, de viscose por blends com poliéster.

Uma camisola vendida por £ 250 que idealmente seria em seda pura, pode acabar num blend sintético para preservar a margem. Entre 2023 e 2025, cerca de 80% do crescimento do mercado de luxo veio de aumentos de preço, não de ganhos em volume, segundo o relatório State of Fashion 2026 da McKinsey em parceria com o BoF. O consumidor paga mais e, em muitos casos, recebe menos.

O problema se intensificou com a alta dos preços do petróleo, que pressiona diretamente o custo do poliéster. Um surto nos preços do combustível fóssil desde o conflito no Oriente Médio está comprimindo fornecedores na Índia e em Bangladesh, com impacto em cascata para todo o setor. As marcas de luxo, com margens maiores, absorvem melhor esse choque do que o fast fashion. Mas não estão imunes.

Mais de 110 empresas, incluindo Adidas, Patagonia e Nike, se comprometeram com a Textile Exchange a usar apenas poliéster reciclado até o final de 2025. Apenas 26% cumpriram a meta. O mercado global de poliéster deve crescer de US$ 135 bilhões em 2025 para US$ 210 bilhões em 2035, segundo a Future Market Insights. A moda não está nem perto de abandonar o material.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: