A narrativa de 'apocalipse das máquinas' que derrubou as bolsas em NY

Por Ana Luiza Serrão 24 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A narrativa de 'apocalipse das máquinas' que derrubou as bolsas em NY

Quem diria que um texto especulativo teria o poder de mexer com as estruturas de Wall Street? Foi exatamente o que aconteceu na última segunda-feira, 23, quando o mercado viu o Índice Dow Jones despencar 822 pontos, equivalente a uma queda de 1,7% devido à divulgação de um relatório sobre inteligência artificial (IA).

O S&P 500 também caiu 1%, com perdas disseminadas entre os principais setores, em meio ao aumento da aversão a risco; e a Nasdaq recuou 1,1%, pressionada por ações de tecnologia e empresas ligadas à IA, que lideraram a liquidação diante das incertezas sobre o impacto econômico da automação avançada.

O documento em foco nada mais é, na prática, do que um exercício especulativo sobre possíveis "cenários disruptivos" envolvendo a tecnologia — hipóteses que não necessariamente se concretizarão —, mas que deixaram investidores em um grande estado de alerta na busca por proteção.

O chamado "experimento mental", publicado pela Citrini Research e divulgado pelo The Wall Street Journal (WSJ), não se trata de uma previsão oficial, mas sim de um cenário fictício para junho de 2028, trazendo uma crise global de inteligência e o desemprego em massa de profissionais qualificados para o debate.

A ideia é que, se a história econômica moderna é marcada pela inteligência humana como um recurso escasso e valioso, agora este privilégio estaria chegando ao fim. Embora não se tratasse de uma visão concreta da Citrini, o mercado reagiu como se, de fato, o "apocalipse das máquinas" fosse ocorrer.

Efeito dominó nas big techs

Empresas citadas no relatório viram, ainda, seu valor de mercado encolher. A International Business Machines Corporation (IBM) caiu 13,15% na segunda-feira, 23, sendo o seu pior desempenho em um único dia desde 2000. Já outras gigantes de software, como Datadog, CrowdStrike e Zscaler, recuaram cada mais de 9%.

O setor financeiro e de crédito privado também sentiu no último pregão, a exemplo da Blackstone (-6,23%), KKR & Co (-8,89%) e American Express (-7,20%), enquanto a DoorDash, do setor de entregas, viu seus papéis despencarem 6,6% após o relatório dizer que seu modelo poderia ser 100% reestruturado pela IA.

Esta precificação precoce de uma possível disrupção tecnológica é a natureza de uma tecnologia que acelera cada vez mais e que "está acontecendo mais cedo do que a maioria das pessoas previa", de acordo com o diretor de investimentos da GammaRoad Capital Partners, Jordan Rizzuto, em entrevista ao WSJ.

Ele acredita, ainda, que a popularidade de investimentos defensivos em relação à IA pode sugerir que Wall Street está se tornando mais e mais cautelosa em relação ao futuro. Neste ano, movimentos semelhantes de queda das ações já haviam sido observados em empresas de software: o cenário de temor não é novidade.

Mercado com o dedo no gatilho?

Alguns analistas consultados pelo WSJ descrevem que os investidores estão com "o dedo na gatilho" quando se trata da IA e de setores que poderiam ser impactados por ela, tanto pelo medo de que os investimentos massivos na tecnologia não gerem o retorno esperado quanto pelo possível desmantelamento de negócios.

O cofundador da DoorDash, Andy Fang, chegou a responder publicamente ao post de Citrini, admitindo que o setor precisará se adaptar, pois "o chão está mudando sob nossos pés", disse o WSJ. Já analistas do UBS informaram que, do ponto de vista do crédito, o risco real é a velocidade da disrupção.

Eles veem que um ajuste ao longo de vários anos é muito mais provável do que um choque repentino. "Um choque repentino em um período de 12 meses poderia sobrecarregar as proteções contratuais, mas consideramos um ajuste plurianual como muito mais provável", informaram ao WSJ.

Em meio ao aumento da aversão ao risco, os títulos públicos ganharam força, refletindo a migração de investidores para ativos considerados mais seguros. O rendimento do Treasury de 10 anos dos Estados Unidos (EUA) recuou para 4,026% na segunda-feira, 23, o menor nível desde o fim de novembro.

No mercado de commodities, os metais preciosos também retomaram a trajetória de alta: os contratos futuros de ouro para entrega no mês seguinte avançaram 2,9%, para US$ 5.204,70 a onça-troy, enquanto a prata saltou 5,2%, para US$ 86,52 a onça-troy, segundo dados compilados pelo WSJ.

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