A nova aposta de R$ 1,5 bilhão da empresa gaúcha que trouxe megashows ao Brasil
Durante décadas, a gaúcha DC Set ajudou a moldar o imaginário do entretenimento no país. Foi uma das responsáveis por colocar o Brasil na rota dos grandes shows internacionais, trazendo artistas e festivais que ajudaram a consolidar uma indústria inteira. Só um exemplo: em 1993, foram eles os responsáveis por trazer Michael Jackson para o país.
Mas, nos últimos anos, a empresa decidiu ampliar os palcos — e ambições. Em vez de eventos pontuais, passou a apostar em algo mais duradouro: espaços, cidades e experiências contínuas.
A transformação não é pequena. Desde 2019, o grupo multiplicou seu faturamento em 25 vezes, expandiu sua atuação para mais de 15 empresas operacionais e investiu mais de R$ 1 bilhão em novos ativos. Agora, prepara um novo salto: um plano de investimentos entre R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão nos próximos três anos, focado principalmente em concessões públicas, equipamentos urbanos e experiências imersivas.
A tese por trás dessa expansão é clara. Para a DC Set, o futuro do entretenimento não está apenas no conteúdo, mas no espaço onde ele acontece. Ou, como resume o CEO Rodrigo Mathias, trata-se de construir ativos de longo prazo que conectem lazer, cultura, gastronomia e convivência em ambientes que passam a fazer parte da rotina das cidades.
“Tudo o que a gente faz na DC Set não tem um olhar de curto prazo. A gente constrói pensando nas próximas décadas, não em uma oportunidade pontual”, afirma o executivo.
Um bom exemplo é o Cais Embarcadero, um ativo sob concessão da DC Set há cinco anos em Porto Alegre. Mesmo com a enchente de 2024, a empresa segue apostando no local, que é hoje um dos maiores polos gastronômicos do Sul do país, com um taxa de ocupação que beira os 100% e com planos de expansão.
De produtora de shows a operadora de cidades: qual é a história da DC Set
A história da DC Set começa no fim dos anos 1970. A empresa foi fundada por Dody Sirena e Chicão Chies, e ganhou protagonismo nas décadas seguintes ao trazer grandes turnês internacionais para o Brasil. Durante anos, seu negócio esteve concentrado no chamado show business — eventos, artistas e experiências de curta duração.
Esse modelo começou a mudar de forma mais estruturada a partir de 2019, quando o grupo decidiu expandir sua atuação para além dos palcos.
A ideia era retomar o protagonismo histórico da empresa, mas com um olhar mais amplo sobre o conceito de entretenimento. “Até então, a gente era muito focado em shows. A partir desse momento, começamos a olhar para diferentes verticais”, diz Mathias.
A entrada no mundo das concessões públicas foi um dos primeiros movimentos dessa nova fase. A empresa passou a administrar espaços como os parques paulistanos Villa-Lobos e Água Branca, e o Jardim de Alah, no Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, ampliou sua atuação em festivais, experiências imersivas e gestão de espaços culturais.
A pandemia, que paralisou a indústria de eventos, acabou funcionando como um catalisador dessa transformação. Enquanto o setor enfrentava uma crise sem precedentes, a DC Set acelerou sua estratégia de expansão. “Foi um momento de desafio de caixa, mas também de oportunidade. A gente aproveitou para fazer movimentos importantes e construir um portfólio mais robusto”, afirma o CEO.
Hoje, o grupo opera em múltiplas frentes, que vão de festivais como Tomorrowland Brasil e Planeta Atlântida, no sul, a experiências imersivas em parceria com marcas como Disney e NASA, passando por espaços fixos como o Roxy Dinner Show, no Rio de Janeiro. Mais do que diversificação, o que emerge é uma nova lógica de atuação: menos eventos isolados, mais ativos permanentes.
Essa mudança também alterou o próprio papel da empresa nas cidades. Em vez de apenas ocupar espaços existentes, a DC Set passou a desenhar experiências completas — do conceito ao modelo de operação. “A gente não replica fórmula. Cada espaço tem uma vocação, uma história e um papel dentro da cidade”, diz Mathias.
Quais os desafios do negócio
A nova estratégia da DC Set tem uma característica central: é intensiva em capital e exige paciência. Diferentemente do modelo tradicional de eventos, em que o retorno é imediato, os projetos de concessão e gestão de espaços demandam investimentos elevados e ciclos mais longos de maturação.
Nos últimos anos, o grupo investiu mais de R$ 1 bilhão na construção e revitalização de ativos. Agora, prepara uma nova rodada de aportes que pode chegar a R$ 1,5 bilhão até 2028 . Parte relevante desses recursos será direcionada à modernização de parques urbanos, ampliação de estruturas e desenvolvimento de novos empreendimentos dentro das concessões já existentes.
O Parque Villa-Lobos, em São Paulo, é um exemplo dessa escala. Com 850 mil metros quadrados, o espaço exige investimentos muito superiores aos de outros ativos do portfólio. Essa lógica também se aplica a outros projetos, como a revitalização do Jardim de Alah, no Rio de Janeiro, que deve receber cerca de R$ 200 milhões, e a expansão de espaços em Curitiba, onde ainda há áreas significativas a serem desenvolvidas.
Em todos os casos, a empresa busca adaptar cada projeto à vocação do espaço, e não simplesmente replicar modelos.
O resultado dessa estratégia começa a aparecer agora. Após anos de investimentos e construção de portfólio, a companhia entra em uma fase de maturação operacional. “Agora a gente começa a ter movimentos de triplicar ou quadruplicar o EBITDA de um ano para o outro”, diz Mathias.
Hoje, duas verticais concentram a maior parte da receita da empresa: a gestão de espaços e arenas (cerca de 40%) e os festivais (35%). Juntas, elas respondem por três quartos do faturamento do grupo. A tendência, segundo o executivo, é que os ativos de longo prazo ganhem ainda mais relevância à medida que amadurecem.
Cais Embarcadero: o laboratório
Se há um projeto que sintetiza a nova fase da DC Set, esse projeto é o Cais Embarcadero, em Porto Alegre. Inaugurado em 2021, o espaço transformou antigos armazéns da orla do Guaíba em um hub de gastronomia, lazer e convivência, atraindo mais de 3 milhões de visitantes por ano.
Mais do que um empreendimento bem-sucedido, o Cais se tornou uma espécie de laboratório para a empresa. Ali, a DC Set testou — e validou — sua tese de criar destinos urbanos que combinam múltiplas experiências em um mesmo espaço, com capacidade de atrair diferentes públicos ao longo do dia e da semana.
O projeto também enfrentou um dos maiores desafios de sua história recente: as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. O espaço ficou fechado por quase 200 dias e exigiu um investimento de R$ 15 milhões para ser reconstruído.
A decisão de reerguer o Cais rapidamente foi estratégica. “Independentemente do reequilíbrio econômico ou da extensão de prazo, era obrigatório botar aquele negócio de pé”, afirma Mathias . A reconstrução não apenas recuperou o ativo, como reforçou seu papel simbólico na cidade.
Hoje, o Cais já superou os níveis de público anteriores às enchentes e entrou em sua fase mais madura, com ocupação entre 90% e 95% das operações. O desafio agora é aumentar a frequência durante a semana, ampliando o uso do espaço além dos picos de fim de semana.
Quais são as próximas fases
Após um ciclo intenso de expansão e investimentos, a DC Set entra agora em uma nova etapa. O foco dos próximos anos será consolidar os ativos já existentes, aumentar sua eficiência operacional e capturar o retorno dos investimentos realizados. Entre 2025 e 2028, a prioridade será aprofundar o desenvolvimento dos projetos atuais, ampliando sua capacidade de geração de receita e rentabilidade. “A gente abriu muitas empresas nos últimos anos. Agora é hora de fazer esses ativos atingirem maturidade”, afirma Mathias.
Ao mesmo tempo, novos projetos continuam no radar. A empresa trabalha em iniciativas que vão desde experiências imersivas — como parcerias com o Museu de História Natural de Nova York — até a expansão de festivais e o desenvolvimento de novos espaços urbanos.
O horizonte mais longo já está desenhado. A partir de 2029, a expectativa é entrar em uma segunda onda de expansão, financiada pela geração de caixa dos ativos atuais. “A gente está construindo uma base sólida para crescer de novo lá na frente”, diz o executivo.
Se no passado a DC Set ajudou a transformar o Brasil em palco de grandes shows, agora quer algo mais ambicioso: transformar cidades em destinos.
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