A pergunta de US$ 1 trilhão que o IPO da Anthropic pode responder

Por Tamires Vitorio 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
A pergunta de US$ 1 trilhão que o IPO da Anthropic pode responder

A Anthropic, empresa de inteligência artificial (IA) responsável pelo Claude, anunciou na segunda-feira, 1º, que entrou com um processo sigiloso de oferta de capital inicial (IPO, na sigla em inglês).

A possível chegada da empresa fundada por Dario Amodei antes da OpenAI, do ChatGPT, ao mercado público representa um dos momentos mais aguardados — e mais carregados de perguntas sem resposta — da corrida pela IA.

O protocolo, entregue à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês), foi feito de forma confidencial, procedimento padrão que permite às companhias avançar no processo sem exposição pública imediata.

Veio menos de uma semana depois de um movimento ainda mais chamativo: a conclusão de uma rodada Series H de US$ 65 bilhões na semana passada que elevou a avaliação de mercado da empresa para US$ 965 bilhões — superando, pela primeira vez, o da rival OpenAI, avaliada em US$ 852 bilhões em março.

A Anthropic chega ao processo de IPO como a startup de inteligência artificial mais valiosa do mundo — uma posição que, ao mesmo tempo, amplifica a expectativa dos investidores e o peso das perguntas que o mercado público vai inevitavelmente fazer.

O 'plot twist'

O crescimento da Anthropic nos últimos dezoito meses reescreve referências históricas do setor de tecnologia.

A receita anualizada da empresa cresceu mais de 10 vezes ao ano em cada um dos três últimos anos desde que gerou seu primeiro dólar. No final de 2025, estava em torno de US$ 9 bilhões, e cruzou os US$ 30 bilhões no início de abril deste ano. Do outro lado do mercado, a Salesforce levou cerca de duas décadas para atingir o mesmo patamar.

O motor desse crescimento tem nome. O Claude Code, ferramenta de programação por IA lançada em maio de 2025, viu sua receita anualizada crescer para mais de US$ 2,5 bilhões, com as assinaturas empresariais quadruplicando desde o início do ano.

O uso corporativo já representa mais da metade de toda a receita do produto, segundo dados do mercado, e cerca de 80% do negócio da Anthropic vem de empresas, segundo Amodei.

Os números do segundo trimestre de 2026 vão ainda além. A Anthropic está no caminho de gerar US$ 10,9 bilhões em receita no período — valor que superaria toda a receita de 2025 em um único trimestre.

A empresa projeta lucro operacional de US$ 559 milhões, o que representaria o primeiro resultado operacional positivo de sua história — uma reversão expressiva em relação às projeções de apenas um ano atrás, que não antecipavam rentabilidade antes de 2028.

A resposta forçada

Mas é exatamente aqui que começa o debate mais importante e o que o IPO vai, pela primeira vez, expor à luz de uma auditoria pública.

A própria Anthropic alertou que pode não sustentar a lucratividade pelo ano completo, dado o aumento de gastos previstos com infraestrutura computacional.

O motivo é estrutural: no primeiro trimestre de 2026, a empresa gastou 71 centavos em computação para cada dólar de receita.

A melhora projetada para o segundo trimestre — 56 centavos por dólar — é relevante, mas ainda deixa margem operacional fina para uma empresa que pretende chegar a um valuation de quase US$ 1 trilhão.

A Anthropic projeta aproximadamente US$ 80 bilhões em custos de infraestrutura de nuvem até 2029 e não espera parar de consumir caixa antes de 2027.

Há ainda uma controvérsia sobre a qualidade do lucro projetado para o segundo trimestre.

O jornalista de tecnologia Ed Zitron publicou uma análise argumentando que o resultado é um número não-GAAP, pontual, atrelado a descontos temporários em contratos de infraestrutura recém-assinados e que a estrutura de custos subjacente da empresa não mudou fundamentalmente.

O teste de US$ 1 trilhão

O IPO da Anthropic não é um evento isolado. O Goldman Sachs projeta que as ofertas públicas nos Estados Unidos em 2026 podem alcançar US$ 160 bilhões — quatro vezes o nível de 2025.

OpenAI e Anthropic compõem uma onda que, se concluída, pode injetar cerca de US$ 3 trilhões em capitalização de mercado nos índices americanos em poucos meses.

A concentração de ações de tecnologia no S&P 500 poderia atingir 48% após três grandes IPOs de tecnologia em 2026, segundo Michael Hartnett, estrategista-chefe do Bank of America Securities.

O debate sobre bolha continua no ar. "OpenAI e Anthropic estão numa corrida para abrir capital antes que o dinheiro acabe", disse o analista Gil Luria, da DA Davidson.

Por outro lado, bancos como JPMorgan, Goldman Sachs e Morgan Stanley argumentam que o ciclo atual é fundamentalmente diferente da bolha da internet de 2000, impulsionada por especulação sem receitas reais.

O ponto central não é o salto de valuation de US$ 380 bilhões para US$ 965 bilhões, mas a queda no múltiplo implícito de valuation sobre receita e se o que o S-1 revelar vai mostrar margens parecidas com as de software ou com o custo fixo pesado de infraestrutura.

Para investidores institucionais, o que fica é que a Anthropic não precisa provar que a demanda por IA existe, mas sim que essa demanda pode se transformar em receita recorrente de alta margem.

O prospecto, quando público, vai mostrar se os números sustentam essa tese .

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